sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
Mostrar mensagens com a etiqueta escrituras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escrituras. Mostrar todas as mensagens

a pessoa e divindades num tempo, num espaço, numa forma

(estar atenta, ou, porque não estou sozinha: estarmos atentos)

I. Teorias
O emergir de grupos radicais em tempos         de tumulto
é          um fenómeno               esperado,         óbvio,              de fácil
implementação.                        Ao contrário das dúvidas
que nos assolam                     em provérbios face às bruxas,
estes existem.                                      Sempre existiram,
mais ou menos assumidos,     são nossos vizinhos.                 Todos
sabemos disso.            Eu,       por vezes,                    gosto de ficar  

a um canto       a brincar          à infância,                    sem fingir
preciso de me distrair   deles.               Para sobreviver
a uma existência                     zangada,          coisa que não é para mim,
pois cansa                              sem consumir
as energias       devidas,        de vidas
leva os restos                         de dia              pelo cano abaixo.

Há já algum tempo,                 recusei as preposições
de passar pela vida                 de forma          incompatível
com o meu corpo.                   E não me confundo
com teorias      tortas              no hedonismo.

II. Crítica das Certezas
Em parecendo que estou cheia de certezas,
não estou,
e estou,                                   obviamente.
Faz parte         a contradição,
para que seja equilibrado
e seguro,
porque é mesmo de segurança que falo.

E da amabilidade         e da ideologia.
E de sinceridade          e da ideologia dela.
E do adormecimento                                     e da pretensão
                                                                       de se ser
                                                                       um ser              acordado.
E da mediocridade       que,                           obviamente,
tu
que lês
não tens.
E dos poetas, que também eles usam deus.
                                                                      

E, em exemplo de certeza: as teorias radicais
jamais
nos podem garantir deus,                                 pai,
também elas têm um buraco, e é                      um buraco
que vem tocar directamente, sem desvios,
nos nossos corpos.

E eu,
isso,                             não deixo
que aconteça.

III. Afirmação
Antes a morte.

E é uma pequena morte
que acontece
naquele momento                     em que, conversando
com alguém
que destapa                 o véu,
e, depois de uns segundos de impasse,
somos forçados           a optar
por uma das hipóteses:

fazermo-nos de parvos;
sorrir sem aceder;
marcar posição.

IV.  Ludo
Nunca fui muito boa com jogos.

Talvez me safe em jogos          de “palavras
      proibidas”

mas isso está justificado           pela deformação
profissional no que respeita uma certa    ginástica
   lexical.
Portanto,                     acreditem,        nunca fui muito boa
com jogos.

Acontece que nos exprimimos mal

– nós, os maus a jogar,

ao dizer
correntemente              “não sou bom (ou boa)
       com jogos”.
E creio
que,     alguns jogadores          não entendem
isso,
o que os deixa                         em desvantagem. Nós
até podemos ser bons
”com”
jogos,                                      não somos bons
é a jogar
propriamente,                                      no campo de batalha
somos uns nabos
mas isso                                  não quer dizer que não sejamos
        bons
na análise do jogo, por exemplo.          Ou seja,
e indo
ao cerne da questão:
sou boa a analisar jogos, e provavelmente
só não sou boa a jogar porque é enfadonho.
Medir forças é chato, é uma seca.

          (e ninguém é bom juiz em causa própria) 

V.  Abstracção
Confesso que até o entretenimento de observar

pessoas a medir            forças
se tornou demasiado    batido.
E é verdade que        encontro
poucas       zonas    humanas
isentas            de competição.

VI.  Ciúme
Começando pelo fim:
até nas artes,                ladies and gentlemen,
até nas artes,                se medem forças.
Ou antes:                      ladies and gentlemen,                       
começando pelas artes.

VII.  Ciência
Dirão os teóricos das medições
de forças
que estas são               o mote da evolução,                            do seu crescendo.

Mas ‘inda não cheguei
a uma lógica                 que sinta
nas peles do meu

corpo. Quando muito, sinto
na minha mesquinhez, mas passa
tão rápido. É tão efémera a vitória.

VIII. Imaginários e cisma 
Ou seja, não quero ganhar – nada – a ninguém.

Ou, para ser mais                    honesta e menos                      hipócrita,
não quereria
ganhar
– nada
– a ninguém.

Sem ter
de estar
no meu canto
a evitar
o confronto,                 desejaria          poder   mover-me
sem ter de fazer           o silêncio         que faço
     quando alguém
tenta velar um triunfo                a que se declara.

Chega a ser
      cá
      duma canseira             ter de fingir
que sim,
que ganhaste
a tua batalha imaginária.

Tu ou ele, aqueloutro, daqui e dali. 

XIX.  Preferências
Enfim, tudo isto para explicar   porque             é          que,
tu – tu mesmo, exacto,
és a minha pessoa                    preferida: tu
tu mesmo, não jogas.

E isto sem falar dos      “porque”      que se podem ler
no poema da Sophia,
acrescido
de mais alguns
que logo te direi. Para o caso
de não saberes,
mais logo tos direi. 

E és a minha pessoa
         preferida.

Contigo            não tenho         de estar no canto
(nem,   muito menos, chutar     para canto).
Não se trata de baixar armas,
como quem fala de defesas. Não
é um baixar
da guarda
temporário,        onde                       jogos são logo-logo retomados.

Tu,       simplesmente,   não jogas.
E eu,    simplesmente,   divirto-me        a aprender-te.
É verdade
que fico embaraçada por ver o engano            nalguns
que até a palavra
“imberbe”        podem tentar
incluir nessa sintaxe. Por vezes, ficamos
embaraçados
pelos outros,                não é? É possível este exercício
de estimar dias                                 pelo embaraço
que outros causem em nós: 
se é um dia com poucos embaraços, esteve-se bem rodeado;
se é um dia com muitos embaraços, urge chutar para canto.

X. Feitio  
E esta inspiração toda a somar parágrafos
sobre os radicais          e os jogos        e os chutos,
onde muitos já se perderam, para dizer que não
há como:

chegar a casa ao final do dia,            mandar cantar um cego
e mandar calar os energúmenos
que se dão ao luxo de desprezar o conforto
garganteando o seu negócio cheio dele,
do ócio, afinal;

chegar onde me trazes uma casa
onde posso atentar
aos misóginos do sexo
aluado sem potência, por isso mesmo,
aluado;

chegar onde me trazes a inteligência
que ris para dentro das palavras
dos que gostam de dizer
“imberbe”,
e estar nessa casa onde me acordas
para dentro da verdade que, explicas-me,
os que dizem “imberbe” fazem-no
por feitio, não por defeito;

e depois, saber que é por isso
que não pode haver lugar
para o radicalismo
e peço desculpa à humanidade
por me distrair amiúde;

XI.  Um pouco mais de conciliação
peço desculpa;

desculpa-me;

e eu desculpo,                         em nome da humanidade;

eu desculpo;                                       (sem voltar a embaraçar-me
                                                           pelos outros, por outros, e, oh,
                                                           eis o embaraço por mim)
                                                           (que desculpo, me)

XII. Apelidar o lugar
não há como chegar a uma casa           e não ter de
acender um lume radical         
porque           
o fogo,
o fogo
é a fraternidade e,
sem saber se poucos,
haveremos de ser muitos
atentos
guardiães do fogo       

o seu nome:     confiança.

Depois agora

E depois?
Morram as vacas e morram os bois?

Na idade parva de não saber
apalavrar a limitação - do nosso entendimento,
respondíamos
que morriam
as vacas se ficavam os bois.

Hoje, continuamos a fazer
o mesmo, com o toque
da sobranceria incauta.

E depois? Depois?                Agora.

Sou cientista e filmei
pela primeira vez
a orca
branca
adulta.

Um feito inédito.

Nenhum homem,
nenhuma mulher,
até hoje

(agora)

tinha captado a orca
branca
adulta
 em filme.

E depois? Depois?

Agora, estou sempre

de regresso a casa, à vida,
na vida. Esta poesia           nova
– filmar        pela primeira vez a orca branca adulta,

não se basta.

É preciso dizer:    Mário, eu sei!
o nosso dever.                Entre nós          e as palavras.
E depois? Depois?        Fazemos uma festa

com poesia e comida
para os pobrezinhos
          e dormimos com um sorriso
estampado na tromba.
          E até podemos ir a África
          e ficar mais felizes
ainda.          Mais felizes,
cada vez mais       felizes.
Oh, como é bom
haver quem precise de nós.

Nós:  pessoas com bom fundo,
sem erros de cálculo ou precisão
     apenas,    um pouco distraídos
de Abril, em Abril.

{correspondência}

Meu querido querido,

Sei que sabes que não tenho escrito, nem sequer se trata da ausência do acto de me dirigir à estação dos correios. Trata-se antes de afonia, nada de novo como nunca o é. Sou eu, todos os dias, os dias todos, a viver a revisão da matéria do próprio dia dentro do dia. Não sei explicar como ainda não me encharquei. Um fenómeno.
Como estás? Como te encontra esta carta?
Viste o telejornal? Viste o que aconteceu lá na capital? Sabes que não comentarei, apenas fiquei preocupada, pensei: pronto, mais lenha. Preocupo-me.
Preocupo-me contigo.
Tens comido bem?
Falta pouco tempo para a minha chegada, já tenho a lista do que depois te deixarei preparado na arca congeladora. Sabes que vou ralhar se chegar e vir que não comeste nem metade. Ao menos dá ao cão, para disfarçar, olha que ele agradece.
Não são como os homens. Os cães não têm amizades de toca-e-foge.
É por isso que eu tenho um gato, para não me distrair, para ter sempre presente o condicionalmente limitado. O homem, a mulher, nós sabemos, são cada vez mais estreitos nas suas condições.
Fazem bem, é da liberdade.
Por falar em liberdade, tenho aqui alguns embrulhos para levar e não digo quantos são, mas não me aguento sem te dizer que um deles chegou de Benguela. Aposto que não tens nenhum à altura deste. O prémio “encomenda mais bonita” desta vez vai para mim e até já sei o que vou querer (não vale a pena dizer que o prémio são beijos, esses, vais dar-mos com ou sem concurso de encomendas). Também não adianto assunto sobre o prémio que vou pedir, e vamos a ver se consegues disfarçar a curiosidade.
Em duas idas à vila, entre as encomendas do correio e as lojas, trouxe tesouros, hei-de ver-te todo sorrisos quando nos sentarmos no chão da sala, em cima da manta, a abrir um-a-um. Brinquedos autênticos.
Ah, e comprei um vestido, não vais gostar da cor, ou antes, não costumas gostar. Adivinhaste: é vermelho. Fica-me bem. Mudei de ideias, acho que vais gostar.
Tanta escritura e ainda nem te contei as novidades cá da terra… Custa a dizer, mas emigraram mais duas famílias, emigram sempre dos que fazem cá falta, pelo menos é o que tem acontecido aqui. Não fiques triste, mas um deles foi o padeiro. Eu sei, eu sei. Foi-se a vida que a padaria dava ali ao largo. Resta a missa ao Sábado à tarde para juntar dois ou três gatos (gatas) pingados no largo. Não sei se já te tinha dito, mas, desde que morreu o padre “casado”, já só há missa aos Sábados às cinco da tarde. Não é pela falta que me faça a cerimónia, bem sabes, é pelo encontro da gente. Faz falta. Falei com o merceeiro e vamos organizar leilões ao Domingo à tarde. (mais uma desculpa para eu fazer bolos) Ainda não sabemos o que vamos fazer com o dinheiro, mas temos uma certeza e, quer acredites quer não, quem teve a ideia foi uma das beatas: o dinheiro não irá para a igreja. Ou doamos ou alugamos uma camioneta para irmos todos passar uma tarde ao Agroal no Verão.
Enfim, cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas, está a acabar o espaço e não gosto de encher mais do que uma folha com palavreado num só dia.

Como estás? Como te encontrou esta carta?

Fica bem, por favor, e espera por mim que estou quase a chegar, há-de ser para te abraçar e para te beijar, e para ser abraçada, por ti, meu querido
Querido

eu

azeite versus óleo

Comi um pastel de bacalhau
que me enganou. A sua imagem
fazia-me adivinhar um belo momento
a folhear o jornal
intercalando
pastel de bacalhau e café.
Mas não,
alguém colaborou para me estragar
o momento,
ao tocá-lo com os lábios, senti o óleo
velho, olhei-o de frente
reparei:
tinha bacalhau de verdade
(para além da batata, bem se vê).
Comi-o todo. Todo.
Se descubro quem me anda a encher
de óleo velho e rançoso,
respondo por mim.

nas horas em que te amo *

Isto é muito bonito.

Isto é bonito porque eu olho para isto e sinto o sol na pele, e o amarelo, digo amarelo quando olho para a fotografia, amarelo clarinho. E tenho a certeza de que amarelo clarinho não é piroso e penso que espero que não apareça aí um especialista da qualidade porque não me apetece aturá-los. E mais, tenho mais certezas. Por exemplo, tenho a certeza de que, ao dizer que isto é uma fotografia estou francamente em erro, pois isto é um fotograma.
Isto é um fotograma bonito, passo a explicar: 


enquanto olho esta imagem e à medida que vou sentindo o sol na pele vejo passar uma série de dias possíveis e a música mantém-se de pé e imagino que as minhas mãos cheiram a laranja duma laranja específica que tenhamos apanhado da árvore dois ou três metros atrás ou ao lado e a laranja soube tão bem soube tão bem e guardaste cascas no bolso das calças agora tingidas e vamos falando e com os dedos concentrados vamos partindo cascas em pedacinhos fazendo formas e rindo porque entretanto as formas deram para a risota e eu agora chego à casa bonita e exclamo que são brancas glicínias brancas e tu sorris eu sei que sorris a olhar e eu não meço a luz simplesmente faço passar o rolo e clique espero que saia dali uma fotografia que jamais será aquilo que acabei de ver mas antes uma surpresa afinal um fotograma de onde possamos tirar dias com sol na pele ou a chuva cá fora e quiçá a coragem da chuva mesmo na pele na língua nos nossos corpos a chuva e depois o sol depois da chuva e este fotograma com pingos a cair das folhas e eu a dizer que este amarelo é daquele amarelo clarinho que eu nunca consigo descrever com estas danadas das palavras e que as pessoas terão simplesmente de confiar em mim e fechar os olhos e pensar amarelo clarinho enquanto olham este fotograma e depois fomos embora mas não antes de vir o dono da casa conversar comigo acerca das glicínias e de roseiras de santa Teresinha e nos desejarmos um bom resto de Domingo e regressarmos à rua da casa da tua mãe dos teus pais a tua casa e almoçarmos alguma coisa bem deliciosa que a tua mãe tenha preparado para o nosso almoço com tanto amor com tanto amor que é preciso repetir com tanto amor não por razões de estilo mas de amor o amor de mãe como tenho a certeza de que a tua mãe terá incluído alguma coisa amarelo clarinho no teu enxoval e garanto que esse amarelo clarinho foi de certeza deste e tenho tanta certeza quanta aquela que é certa sem prova dos nove quando me respondes que dois mais dois são três ao mesmo tempo que ouvimos a canção cujo nome diz que dois mais dois são cinco e eu olho este fotograma e digo amarelo clarinho


* título repescado do baú

hoje não estou cá

Há dias deixei o meu lenço – aquele pareo que faço de lenço, aquele que parece uma pintura aborígene, esse, deixei-o na poltrona que era d'a minha avó. Hoje quis usá-lo porque sim. Saí de casa e estranhei o dia. Fiquei desconfiada quando cheguei ao local de combate, qualquer coisa batia certo demais. Eis que, num rompante de perspicácia invulgar, cheirei o lenço, inalei profundamente e fui embora para casa da minha avó. Está lá sol, cheira-se no cimento da eira (assim). Cheguei ao portão «’Vó? ‘Vóó?!» – fui entrando, lá estava ela. E eu a sentir. Ainda a apanhei a fazer a cama e ajudei, uma de cada lado, «Puxa aí essa ponta». Vasculhei as caixas de loiça que tem em cima da cómoda e fiz perguntas sobre a origem de algumas bijutarias. Depois fomos à D.ª Julieta lembrá-la dos ovos para a minha avó fazer um pão-de-ló para o leilão de Domingo que vem. Passámos à costureira para provar uma saia nova. Fico muito contente que tenha mandado fazer uma saia nova, hei-de comprar-lhe um lenço a condizer com o tecido da saia. O peixeiro passou há bocado, buzinou e lá fomos, as duas – eu e a minha avó, comprámos solha. Olhámos uma para a outra e rimos sorrateiras, estamos a marimbar para o colesterol, a solha vai ser frita e comida num naco de pão a pedaços que cada uma tira com a sua navalha e, vá, um copo de pinga. Vamos beber do branco, que é para comemorar o facto de nos termos juntado hoje, já não nos vemos desde que morreu em 2001. São muitos anos ‘vó, tinha tantas saudades do teu cheiro. Ah, se eu tivesse percebido mais cedo que tinha este tesouro lá em casa. A partir de agora, vou deixar a minha roupa todos os dias em cima da poltrona. E daí, é melhor não, ainda me habituo e depois não dou por ele. Vai ser uma coisa para dias de festa, ‘vó, em dias de festa: eu e o teu cheiro. Ou em dias de mágoa, isso, para me agarrares. Logo, depois de comermos o peixe frito com pão e bebermos vinho e rematarmos com queijo seco e uma maçã que vais descascar para nós, dormiremos a sesta na cama de ferro da casa da costura. Sei que irás buscar aquele cobertor macio, verde daquele verde rico, e terá o cheiro do teu guarda-fatos e eu vou ser tão feliz.
Vou ser tão feliz, ‘vó.

Não é como se tivesse sido ontem II

o corpo ausenta-se do espaço II, III e IV, Carlos Veríssimo
Doeu-me, mas não parei. Li-te até os meus olhos se esconderem. E vi-te. Via-te sempre na tua escrita. Não é um lugar comum nem é como se tivesse sido ontem. Fica já por aqui o assunto antes que resvale porque acabei de me lembrar de uma coisa e esta conversa ia para a maldade para aquilo para a risota. E hoje não estou a pender muito para ela, a risota, desculpa.
Sei lá porque é que estou a pedir desculpa, que pergunta.
Olha, por causa do delito vital que me traz corcovada, deste erro de se ser triste.
Sou, e depois?
Bom, é engraçado, agora que penso nisso: nunca fui triste ao pé de ti.
Sorriso.
Era curiosa, contente, de bem, assustada, meio-medrosa, mas não me recordo de tristesse. Ah, e desiludida, sim, por duas vezes, mas não sei se contam porque não estávamos ao pé um do outro, estávamos de cada lado do messenger.
A desilusão foi minha, de mim. Da vez em que te zangaste comigo, lembras-te? Não te zangaste assim como quem estava mau comigo mas de mal comigo, e tiveste um bocado de razão, toda não, mas um bom bocado. Estou quase a redimir-me dessa, tu sabes que sim (sabes?). Passaram quantos anos dessa discussão? Quatro. Cinco. Três. Não sei. O tempo nunca medra.
Houve a segunda vez, pois houve, sou exímia a desiludir-me comigo e a sabê-lo no exacto instante, para saborear tudo duma vez.
Fiquei com o sol todo na recordação da pele, que é para aprender.
Está o dito pelo não dito, para guardar segredos que esgravatem nas horas. Não tenho certeza de ser isto o que fazem as pessoas desconsoladas. 
Sou cheia das datas, e das cenas, guardo tudo. Ontem fiz tanta palermice, havias de ver. Começando por estar "incompreensivelmente" triste até ao sono imenso que bebi para dentro de não-sei-quantos cafés a tentar esconder essa tristesse. Cena marada. 
Isto agora ia bem era a escrever a negrito, em azul. Claro. Mas não posso, não mo permito. Sabes o que fiz ontem? Pois. Nada de mais, coisa habituée, afinal.
Olha, moço, funciono assim, não me levas a mal, sabes que seria um lapso da mecânica. Quando dei conta do que a minha terceira cabeça ia fazer, e depois de a inverter para evitar a todo custo ferir sensibilidades legítimas, amanhei a tal desculpa que procurei o dia todo. E entrei a ser assim como sou: profundamente triste e desiludida e a rir. 
Voilá.
Todo este estado a negrito, em azul. 
Fui ler-te, descansada, a magoar-me intensamente. Chupei feridas nos teus poemas. E engoli de lá tudo o que havia de nobre em ti.
Com o sol
ainda,
todo,
na invenção
da minha pele.

Não é como se tivesse sido ontem


o corpo ausenta-se do espaço I, Carlos Veríssimo
Eu não estava lá
Nem cá

Muito menos
Pertenço ____Lá
Há quarenta anos
Hoje é onde se forma
O primeiro dia
em que Nunca mais
Voltas
A fazer anos
De vida
Nesta data

partida

Hei-de dizer-te coisas novas e entreter o nosso temor.
Orientei os fígados e estou com a espada em riste. As agudezas - nem sempre evidentes - habitam-nos.
O horror começou há muito tempo. Não é de anteontem a promessa das lutas inglórias mas há-de ser sempre dia de te "dizer coisas novas".
Hei-de ser comum ao companheirismo da farsa e operante conforme a circunstância. E, repara, não temos de lhe chamar cinismo.
Seremos (pois então!) o incondicional dia. Seremos senão o desdito.
Pois. 

https://www.brooklynmuseum.org/eascfa/feminist_art_base/archive/images/262.350.jpg
Hannah Wilke. 
So Help Me Hannah: What Does This Represent / What Do You Represent (Reinhart)
1978–1984.




EPÍGRAFE PARA A NOSSA SOLIDÃO
Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemporâneos

Ruy Belo

theoria poiesis praxis

adeus, Rui

Não estou a fazer esforços para espantar o frio, nem tão pouco o considero um castigo. É o que é. Os sentimentos eram nobres e não sobraram. Como nunca sobram, e agora está na hora de me recolher. Se der um trago no álcool certamente não será vinho, é preciso um bafo mais amarelo. Provavelmente ponderarei a cerveja, acabarei por recorrer ao uísque. Fico. Talvez me distraia a fingir medo das bruxas, do que é o incerto. Acabas de te tornar em mais um acto sólido da minha vida. Mais um jogo para inventar na minha memória, hei-de acrescentar-lhe os dias que não vivi contigo.











(em actualização)

Fernando Dinis #1 #2, Fernando Esteves Pinto, Henrique Manuel Bento Fialho #1 #2, Manuel A. Domingos, Maria João Lopes Fernandes

mensagem dos seus co-bloggers: Mantemos o blog Implantes de Ciclone activo, apenas com os textos do Rui.

eis que senão

Após o trago de vinho
Ris. Ris, e isso é de ti para
Mim. E tudo chegará
De cá para lá.

Daqui para acolá.
Do vinho, dirás, 
Copo em riste,
Do vinho para nós.


3 minutos durará a irmandade.
O que não carecia ser registado.

ainda assim

nada teu chegará
ao mundo. E tu,
nada sem enfim.

Tu, nunca surreal.

e depois

quando ganhares coragem
hás-de tirar a fotografia
do lado de fora da rua.

.

faz aqui um risco

começa um poema, este poema.
E acaba o outro. Diz-lhe assim:
fim.

aqui fica


o lugar ___________

dum                poema

                           para 

quando          voltares

silêncio esforçado

Tudo isto poderia ser escrito a azul sobre branco, daquele azul do meu vestido, o vestido que toda a gente que me conhece sabe qual é, portanto sabe de que azul falo. É aquele que acompanha a minha degradação. Um dia, um de vós dirá de mim aos outros, após reencontrar-me na rua: “her famous blue dress was torn at the shoulder”; seguir-se-á um silêncio curto.
Não escrevo a azul sobre branco porque não me apetece ser fácil, se é que me apeteça ter a ingenuidade de que controlo seja o que for. O tom com que escrevo, esse impus-mo quando me lembrei de levar o CD do L.Cohen para o carro, essa taciturnidade.
E tudo num profundo silêncio.
Não falo vai fazer cerca de 2 semanas, se quisera ser exacta (se-lo-ei, então) direi que não falo há (pausa para fazer contas) (um post-it): 10 dias e cerca de 18 horas. Sou afortunada pois, neste tempo, ninguém me pediu que fale. Enfim, se mo exigissem não sei que se seguiria, um tranquilo momento de afonia ou, pior, de tanto puxar pela goela talvez se rasgasse o meu vestido. Confesso que me custaria ver rasgado o vestido.
fotografia de Forced Labor (blue sand), Liliana Porter

ainda assim, sorrimos

Espero que me venhas buscar para almoçarmos todos juntos, uma raridade nos dias inúteis. Faço planos e sorrisos, este é o final do ano para gente como nós, working 9 to 5 (quem dera que assim fosse), what a weird way to make our living. E amo-te tanto.
E amo tanto tudo isto de que somos feitos e o que fazemos neste corta-mato, jogo de estafetas, contra o que nos coloca amiúde no medo do medo, nos tenta minar, mas não, nós não. É que: ainda assim, sorrimos. Gostamos disto.


O que tenho por certo sobre nós: gostamos de gostar.

Na senda da genuinidade

Pensei noutros lugares, e pensei no que esquecia. E depois acerca da liberdade e ainda assim não trouxe uma pasta com conclusões nem adendas. Senti sufoco. Trouxe a diversidade para dentro de casa, sentei-a e fiquei a olhar. Não me consegui decidir se o mais importante era fazer perguntas ou tentar responder a elas, é sempre uma decisão muito difícil. Olhei para trás e percebi que não conseguia ver tudo (tudo é como-quem-diz) fiquei um bocado decepcionada, confesso, contava com isto para fazer um balanço. Encontro-me estável agora, já não sufoco e devolvi a bandeja que me ofereciam com a oração: tomai estas regras e uni as mãos.

Tive de me obrigar a quietude. Senti-me acordar quando ouvi o hino sobre a família. Voltei à quietude quando me lembrei que alguém poderia solicitar-me a definição de família. Senti-me acordar de novo ao som desse tema, agora em repetição, que é assim que sinto, repetição-após-repetição, para conseguir atingir uma nota mediana na aprendizagem. Ao acordar, algo ainda sufocava cá dentro, evoquei coisas que pensei serem citações com direito a autor. Eis quando percebo que, ao sentir o alívio do sufoco, não se trata de citações com dono nem estas têm de estar de acordo com a sintaxe original, desde que rimem com o hino: Ser-se amado por alguém, é existir em segurança na sua liberdade.


A dor dos outros

Disse-lhe bonjour tristesse, depois compus-me de intelecto actuante e orientei a comoção. Não me derramei em sorrisos sem cessar, nunca foi disso que se tratou no assunto.
Olhei à minha volta e continuei a reconhecer que o caminho é este, sempre este. A nossa memória entra no meio desta jigajoga, esconde-se, e nós ao redol andamos, até encontrar as variações que nos acordam. Eu já havia escrito isto: a vida já valeu a pena, há muito tempo. Quero mais. A emoção tem razão, não se pode tolher a vida. A minha escolha é  sadia. Quero mais.
O saber: despite the music, you & I, we're gonna be alright. Hallelujah. 

Obrigada, à la rentrée.


Ontem tive aquilo a que, se quisermos chamar os bois pelos nomes, se chama “Um dia de Merda”.
Fartei-me de rir, é verdade, à custa de lançar um repto aos amigos que acorreram a fazer-me gargalhar. Quase como um bebé a dobrar riso, juro. Cócegas no meu peito, à distância.
Ontem foi um dia só (só) como há muito não tinha. Que dor.
Na noite anterior não consegui pregar olho. Já fui informada de que o meu mal não é exclusivo, queixa-se o amor, queixam-se os clientes, queixam-se os colegas e os amigos, até o gato, vejam lá…
Pois é, e esta cachola começa a rodopiar com falta de descanso.
Depois... este sitio onde trabalho é verdadeiramente um sugador, mas, enfim, simultaneamente um injector de princípios e fins tão cheios de verdade que uma pessoa se vicia e acaba por decidir acatar com os males da sucção de vida a que nos sujeita só para poder estar aqui.
Ainda tenho a felicidade de ter quem me ature, é o que é. E ontem foi assim.
Não obstante, chorei que me desunhei. Assim que o ponteiro grande acertou no 12, corri a sujeitar-me ao controlo biométrico, desci à garagem, entrei no carro (que pus a trabalhar), cometi todas as manobras automóveis que me conduziram a casa, meti a chave na porta, rodei-a, disse “olá, bebé” ao gato (devo tê-lo beijado, não me lembro) e corri escadas acima, rodei a maçaneta da porta do quarto (que roda no sentido dos ponteiros dos relógios) e saltei para cima da cama. Adormeci a chorar e acordei a chorar.
Não é que me esteja a queixar. Não.
Foi assim.
A noite não me deu tréguas, não é ainda aqui que acabo a história do dia de ontem , um dia só (só). Tive um (o) pesadelo com a palavra mãe e mais uma vez acordei em pranto a molhar os cabelos. A minha cama outrora pequena estava agora enorme de novo. E eu só (só). Aconchego-me na almofada que não é minha e espero. Dói-me a barriga. Não tomo fármacos. Aguento. Chegam os braços todos do mundo a casa e partem-se à minha volta. Finalmente adormeço e acordo para mais um dia. Acordei com a dor do pesadelo neste peito que carrego cheio de voz (ao ser escrita a palavra, ainda me deixa de beicinho) mas acordo a cantar e a dançar - Vitor Espadinha - Recordar é Viver (já não é Agosto, eu sei, mas é sempre tempo para acordar com estes vaipes)
Lanço-me ao dia com pouca desconfiança pois já lhe conheço bastante as manhas. E dou com uma despedida? Sei que é um pedaço de gente (tão) bonito, tanto quanto anónimo, como eu:
Bem, eu não trato as minhas olheiras, tenho-lhes uma certa afeição, assim como aos cabelos brancos. Talvez por ter uma idade intermitente, não sei.
Sei que estou gira, pois sirvo muito de entretenimento a mim própria e isso deve significar que estou gira.
Estranho, estranhava (pois ando parada), também e naturalmente, essas coisas dos ditos acerca dos meus relatos. Sempre o espanto dentro do espanto!
Nunca escrevi um livro, nunca tive um filho, mas plantei árvores satisfatórias em compensação.
Viver intensamente é a única forma que conheço. Começo, desenvolvo, acabo. Tudo grande. É um vício? Não sei. (é). É o meu trejeito.

Ultimamente aprendi uma série de coisas:

- a pedir ajuda :) e dei por mim a recebê-la!
- a saber a recuperação, e coisas sobre ela em mim e eu nela
- a reconhecer velocidades (celeridades, será o termo correcto) acerca do equilíbrio (coisas da recuperação)
- a amar mais e mais e mais
- e aprendi também a continuar no espanto do amor recebido
- e que posso fazer parte também das feições do fazer bem, seja o que for “o préstimo”: eu também o sei fazer!

Terei saudades, Mónica.
Fiquei sentida quando escreveste um título triste sobre aquela que é agora a minha casa – Coimbra, mas sou agora uma menina grande, e não deixo cair dentes, faço beicinho mas recupero em celeridades razoáveis. Beijos e abraços a ti e a todos.  
O meu blog não acaba aqui, não sei. Sê feliz e faz o bem. (sim, fazer o bem, por cá tentarei o melhor, sim) Ele vem em dobro. Estou a rir. É a verdade.
Bom dia, Mónica Marques, bom dia, mundo. Estamos aqui para o que der e vier!
Estou a rir. É a verdade.