sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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não há política porque só há economia


Capricho nº 39: Hasta su abuelo
Francisco de Goya
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O que fará com que um governo perturbe, mesmo contra os seus objectivos, a naturalidade própria dos objectos que manipula e das operações que realiza? O que fará com que vá assim violar essa natureza, mesmo contra o êxito que procura? Violência, excesso, abuso, talvez, mas no fundo desses excessos, violências e abusos, não será simplesmente, não será fundamentalmente a maldade do príncipe que é posta em causa. O que é posto em causa, o que explica tudo isso é o facto de, no momento em que viola essas leis da natureza, ele as desconhecer. Desconhece-as porque ignora a sua existência, ignora os seus mecanismos, ignora os seus efeitos. Por outras palavras, os governos podem enganar-se. E o maior mal de um governo, o que faz com que seja mau, não é o facto de o príncipe ser mau, mas de ser ignorante.

Michel Foucault, em 1978

in Nascimento da Biopolítica
Edições 70, Lisboa, 2004 





título do blog da Joana Lopes:  [ No passado dia 29/12/2011, Ricardo Araújo Pereira fez parte do terceiro painel do ciclo «Desconferências», subordinado ao tema «O Fim da Crise», no Teatro S. Luiz, em Lisboa. Texto da sua intervenção (ou parte dele), recebido por mail]

discutir percentagens

3º sonho de Calvino



Com o seu sócio está tão envolvido na discussão das percentagens de algo, que não dá pelo que acontece: são engolidos por uma baleia. Dentro do estômago da baleia Calvino continua a discutir percentagens. Percebe, agora, qual o negócio, trata-se da venda de petróleo e de livros. Quem fica com o quê? A discussão está acesa e Calvino empenha-se nela cada vez mais; vira depois as costas ao seu sócio e sai para a rua: observa as pessoas a andarem de um lado para o outro. Os poucos que não estão com pressa, aqueles que param, discutem entre si, percentagens também: 30, não 37!, não, não, 32! Todos discutem, ele próprio não consegue deixar de repetir, para si próprio: 43%, pelo menos 43%!
Mas ao mesmo tempo existe aquela sensação de que estão todos dentro do estômago da baleia, de que aquelas pessoas que ele vê na cidade, cheias de pressa, de um lado para o outro, a discutir percentagens, e ele próprio, há muito foram comidos.

Gonçalo M. Tavares, O senhor Calvino
Editorial Caminho
2005


39. Asta su abuelo

Capricho nº 39: Hasta su abuelo
Francisco de Goya
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