sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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partida

Hei-de dizer-te coisas novas e entreter o nosso temor.
Orientei os fígados e estou com a espada em riste. As agudezas - nem sempre evidentes - habitam-nos.
O horror começou há muito tempo. Não é de anteontem a promessa das lutas inglórias mas há-de ser sempre dia de te "dizer coisas novas".
Hei-de ser comum ao companheirismo da farsa e operante conforme a circunstância. E, repara, não temos de lhe chamar cinismo.
Seremos (pois então!) o incondicional dia. Seremos senão o desdito.
Pois. 

https://www.brooklynmuseum.org/eascfa/feminist_art_base/archive/images/262.350.jpg
Hannah Wilke. 
So Help Me Hannah: What Does This Represent / What Do You Represent (Reinhart)
1978–1984.




EPÍGRAFE PARA A NOSSA SOLIDÃO
Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemporâneos

Ruy Belo

[ só tem de exterior a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço *] [ este cálice ]

Os produtos intermédios existem, portanto, esta realidade não é ócio. Não arrisco publicitar um produto final porque não é da morte que escrevo estas palavras. Esta composição nasce da minha vontade que é este desejo imenso de escrever os dias afora nos intervalos disso que não é ócio. Se o corpo permanecesse imóvel, a flacidez seria inanidade, mas o corpo arqueia, responde, recebe e responde-te. Dói-me este braço, e este também. Os cabelos ficam por escovar porque os movimentos são inibidos pela minha opção – prefiro a cabeça desgadelhada ao exercício desta dor que me nasce dos ossos, e, para o agravamento, esta dor ajusta-se a outra que lhe é independente - a dor tónica. Não quero exercitar tolerâncias e limiares, opto por descansar e isso não é uma confiança que ofereço às maleitas. A função que me falha é a que me proporciona uma presença polida mas não há feição a dar a um cabelo que não é esparguete nem caracol, deixo as normas do mundo de lado, imagino que estou a descansar a força que me falta nos galhos e escrevo. As mãos aliam-se para usar a menor genica possível e escrevo. Imagino que agora escrevo tanto quanto aspiro. Quero conversar sobre as indústrias que desejo fotografar e dos ossos e dos dias naquela casa de portas duplas abertas uma após a outra. Desejaria dizer um canto com as aberturas todas das portas daquela casa com girassóis a fazer de vizinhos à janela, em oposição à manifestação-nada-poética sempre-parca-em-literatura que eu possa fazer das salas-de-esperar não-ventiladas, as salas cuja indústria fotografo a cada passagem. Hoje doem-me os braços e há breves momentos durante os quais consigo esquecer.
* Ruy Belo (no post anterior a este)

[ viver e viver sem boca ] [ pintar a fuga do corpo ] [ os nomes - palavras ]

Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui.

Ruy Belo