sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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Autografia

Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
eu o pico do Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá
passaram.
E sou, no sentido mais enérgico da palavra
na carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-los semi-mortas à linha
>E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
Carlos Veríssimo por Carlos Veríssimo
em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!



Mário Cesariny
Pena Capital II
pena capital
2ª edição
Assírio & Alvim
1999

RX

(...) ao contrário do que geralmente se crê, por muito que se tente convencer-nos do contrário, as verdades únicas não existem: as verdades são múltiplas, só a mentira é global.

José Saramago, Questão de Cor

um gnomo! [ epifania do dia ]

é a prenda que eu quero quando, um dia, encontrar a casa dos meus sonhos - um gnomo para pôr no jardim!

tal e qual o da Amelie Poulain

http://img296.imageshack.us/img296/589/amelie247qv6.jpg

b'dia, gentes :)

actualização em bloco de notas

#1 Sentámo-nos a beber cerveja que servi nas canecas de barro. Queixei-me dos acufenos e inventámos cenários sem modéstia comparados a Woddy Allen. Acho lógico tornar-me hipocondríaca. Para mais que não fazia parte dos meus planos. E como os planos saem sempre furados…
#2 Bem, nem sempre, ripostou cheio de razão após um segundo de silêncio.
Este plano está a sair conforme os ditames dos nossos desejos.
(Pessoalmente, não sei para onde me hei-de virar.)
#3 Arranjei um novo bloco de notas (moleskine®) ao qual me afeiçoei de imediato.
#4 Falta-me arranjar uma caneta. Direi que caneta irei comprar, mas não sem antes sublinhar que não é por influência de Sócrates (o português). Considerando que me podem incomodar os juízos de valor, fica a ressalva. A caneta: uma Parker®, daquelas baratinhas.
#5 Completo o kit de bloco e caneta, avanço. Hoje ainda não porque quero saborear a angústia. Uma pessoa em afeiçoando-se à angústia custa a largar.
#6 Amanhã completarei uma série interminável de projectos. Depois posso ir embora. E vou. Vou mesmo.
#7 Vou embora e não sei se digo para onde.
#8 Quiçá enterrarei mais a cabeça na areia ou, surpresa das surpresas, saio dos armários.
#9 Ainda não decidi para qual das colónias irei: se para a colónia dos que estão cheios de razão e ensinam isso aos outros; ou se para a colónia dos que mostram que os outros não estão cheios de razão e cheios de razão ensinam isso aos outros. Estou sinceramente indecisa.
#10 Pena ainda não ter comprado a caneta, espero não me esquecer de anotar a urgência em tomar esta decisão no meu bloco de notas.
#11 Como vêem, é uma alegria, tantas e tantas coisas para anotar com a minha caneta Parker® no meu bloco de notas moleskine®! Um mundo no meu bloco de notas.
#12 O mundo.
#13 Meta-anotarei os meus pensamentos de pessoa profundamente impressionável e depois lerei vezes sem conta. Em voz alta ou em surdina, consoante o estado de espírito. Já imagino as folhas com aspecto manuseado. O papel encardido do suor das minhas mãos.
#14 Que excitação!
#15 Resta-me decidir se comprarei uma caneta Parker® de tinta azul ou de tinta preta, e sob que ortografia utilizarei a caneta.