A editora TEA FOR ONE tem o prazer de convidar V. Exa. para o lançamento da 2ª edição do livro "Onde não estou, tu não existes", de Marta Chaves, que terá lugar na Galeria Santa Clara, em Coimbra, dia 28 de Novembro (sábado), pelas 18h00.
DOMINGO. ] velocidades e repetição [
Domingo. Silencio e a música de Sassetti. Ascent. Miranda July. Uma citação estúpida: Quão maravilhosas são as pessoas que não conhecemos bem. E uma pergunta: Are You The Favorite Person of Anybody ? E o sentimento. Na 6ª feira ouvi uma pessoa improvável falar de velocidade, de aceleração. Chorei tudo o que pude, aproveitei, pois tinha aqui pranto adiado que por descuido guardara. Anteontem, no meio dos meus pensamentos e dores entaramelados quis sentir-me só na solidão toda. Ninguém morre sozinho, repetia. Sou feita de repetições. Entrei em acelerada evocação de referências. Ninguém morre sozinho. Recado. Me you and everyone we know. Burnout. Ninguém morre sozinho. Respeitosa repetição. Karma police. Fitter Happier. No alarms & no surprises. All that numbs you. E a palavra Anywhen. Arrepio na tarde. Mercy seat. Monsters ball. …a darkness. Hurt. You can have it all. Só mais uma para o caminho. Sou velha, disse. Sou uma velha que se agarrou a meia dúzia de referências. Uma velha cansada a repetir alimentos, acelerada. Desacelerei num instante.
Isto tem relação directa com o amor e a capacidade de amar rodeando as condições e condicionantes com que nos deparamos ao amar e nos deixarmos amar.
Desenvolvi uma capacidade admirável de variação de velocidades em tempos recorde. Consigo recuperar com rapidez. É trabalho de mérito próprio mas realizado ao lado daqueles que são na realidade os autores de todas as obras que acima repeti: aqueles com quem partilho formas de amor.
refªs no texto: Ninguém morre sozinho; Are You The Favorite Person of Anybody?;Recado;Me and You and Everyone We Know; Respeitosa Repetição;Radiohead - Karma Police - fitter happier - No Surprises;Thomas Feiner & Anywhen - All That Numbs You;Arrepio na Tarde;Nick Cave & The Bad Seeds - Mercy Seat;Monster's Ball; Bonnie 'Prince' Billy - I See a Darkness;Johnny Cash - Hurt;Yo La Tengo - You can have it all; Só mais uma para o caminho.
Isto tem relação directa com o amor e a capacidade de amar rodeando as condições e condicionantes com que nos deparamos ao amar e nos deixarmos amar.
Desenvolvi uma capacidade admirável de variação de velocidades em tempos recorde. Consigo recuperar com rapidez. É trabalho de mérito próprio mas realizado ao lado daqueles que são na realidade os autores de todas as obras que acima repeti: aqueles com quem partilho formas de amor.
refªs no texto: Ninguém morre sozinho; Are You The Favorite Person of Anybody?;Recado;Me and You and Everyone We Know; Respeitosa Repetição;Radiohead - Karma Police - fitter happier - No Surprises;Thomas Feiner & Anywhen - All That Numbs You;Arrepio na Tarde;Nick Cave & The Bad Seeds - Mercy Seat;Monster's Ball; Bonnie 'Prince' Billy - I See a Darkness;Johnny Cash - Hurt;Yo La Tengo - You can have it all; Só mais uma para o caminho.
(exposição) Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino
Título Introdução - Desenvolvimento – Conclusão
Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa que o mundo que te rodeia se esfume até se tornar indistinto. A porta é melhor que a feches; (…) (p.21)
(…) Mas depois prossegues e dás-te conta de que o livro se deixa ler apesar de tudo, independentemente daquilo que esperavas do autor, é o livro em si que te desperta curiosidade, e pensando bem até preferes que seja assim, encontras-te perante qualquer coisa que ainda não sabes muito bem o que é. (p.26)
Italo Calvino in Se numa noite de Inverno um viajante
Trad. Mª de Lurdes Sirgado Ganho & José Manuel de Vasconcelos
col. provisórios e definitivos, Vega, 1985
1ª ed.
Concepção Por vezes fazemos batota, corremos de olhos fechados do princípio para o fim, sem olhar o meio (ou será aos meios?).
.
Distraio-me a espaços. Voltei a atrasar os meus recados pelo que percebi que não leria o livro. No outro dia li: Uma constitucional perturbação da vontade e uma ânsia, paralelamente paralisante, de sobre tudo dizer tudo, sem falha, falta ou fraqueza, fazem com que eu ponha em tudo o que faço uma demora que acaba por me apavorar até à acção, e que comece essa acção por um pedido de desculpas de tanto ter demorado.*
Não li o livro para a feitura do trabalho. (não esquecer: ter um livro em detenção de leitura é uma requintada forma de suplício) Eis-me então perante um autor que estimo, peguei na sua obra e li apenas inícios e fins de romances, deixei-me cometer deduções. Cogitei acerca da origem e da conclusão do título. Li sem remorso primeiras e últimas frases. Fiz desenhos e cálculos auxiliares; fiz corte e cose. Assim, sem mais nem menos: saltei da introdução para a conclusão. [deixando por preencher o desenvolvimento – não sei encaixar esta ideia]
Pensei “Sou uma viajante nesta hora de Inverno.” e muitas outras coisas que narrei para mim como se fora eu própria a leitora.
Amanhã inicio a leitura.
* Excerto de carta de Fernando Pessoa a Jaime Cortesão, in "Obra essencial de Fernando Pessoa, Cartas"
(lido em http://welcometoelsinore.blogspot.com/2009/02/se-alguem-houve-que-disse-tudo-foi-ele.html acedido a 18/FEV/2009)
Sandra Cruz (margarete)
Cálculos auxiliares: P__________(…)____________ F
Se numa noite de névoa de Inverno El Rei Dom Sebastião um viajante numa estação de caminho-de-ferro
Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)
fotografia p&b de impressão de imagem digital do
Retrato de D. Sebastião de Cristóvão de Morais*
* 1571, óleo sobre tela, 99 x 85 cm
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal
(Nikon D80)
Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)
Espelho, cola, cartolina, tu
O teu reflexo - a risível questão do todo
Especulação e geometrias - espaço reflexo
pormenor de
Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)
[ Especular, reflectir: toda a actividade do pensamento me remete para os espelhos.
Primeira frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 159 ]
Agora parece-me que tudo aquilo que me circunda é uma parte de mim mesmo, que eu consegui tornar-me o todo, finalmente…
Última frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 165
Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)
[ Especular, reflectir: toda a actividade do pensamento me remete para os espelhos.
Primeira frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 159 ]
Agora parece-me que tudo aquilo que me circunda é uma parte de mim mesmo, que eu consegui tornar-me o todo, finalmente…
Última frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 165
La tigre e la neve ~ Roberto Benigni ~~ You Can Never Hold Back Spring ~ Tom Waits
serve apenas como teaser para quem (como eu) não seja um utilizador da Língua Italiana ;)
Tratto dal film "La tigre e la neve"
Su su.. svelti, veloci, piano, con calma...
Poi non v'affrettate, non scrivete subito poesie d'amore, che sono le più difficili, aspettate almeno almeno un'ottantina d'anni.
Scrivetele su un altro argomento... che ne so... sul mare, il vento, un termosifone, un tram in ritardo... che non esiste una cosa più poetica di un'altra!
Avete capito?
La poesia non è fuori, è dentro... Cos'è la poesia, non chiedermelo più, guardati nello specchio, la poesia sei tu...
..e vestitele bene le poesie, cercate bene le parole... dovete sceglierle!
A volte ci vogliono otto mesi per trovare una parola!
Sceglietele...che la bellezza è cominciata quando qualcuno ha cominciato a scegliere.
Da Adamo ed Eva... lo sapete Eva quanto c'ha messo prima di scegliere la foglia di fico giusta!!!
"Come mi sta questa, come mi sta questa, come mi sta questa.." ha spogliato tutti i fichi del paradiso terrestre!
Innamoratevi, se non vi innamorate è tutto morto... morto!
Vi dovete innamorare e tutto diventa vivo, si muove tutto... dilapidate la gioia, sperperate l'allegria e siate tristi e taciturni con esuberanza!
Fate soffiare in faccia alla gente la FELICITÀ! E come si fa? ...fammi vedere gli appunti che mi sono scordato... questo è quello che dovete fare...
non sono riuscito a leggerli!
Per trasmettere la felicità, bisogna essere FELICI e per trasmettere il dolore, bisogna essere FELICI.
Siate FELICI!!!
Dovete patire, stare male, soffrire.. non abbiate paura di soffrire, tutto il mondo soffre!
E se non avete i mezzi non vi preoccupate... tanto per fare poesie una sola cosa è necessaria... tutto.
Avete capito?
E non cercate la novità... la novità è la cosa più vecchia che ci sia...
E se il verso non vi viene, da questa posizione, né da questa, ne da così, buttatevi in terra! Mettetevi così!
Ecco... ohooo... è da distesi che si vede il cielo...
guarda che bellezza...perché non mi ci sono messo prima...
I poeti non guardano, vedono.
Fatevi obbedire dalle parole... Se la parola 'muro' non vi da retta, non usatela più...per otto anni, così impara! Che è questo, bhooo non lo so!
Questa è la bellezza, come quei versi là che voglio che rimangano scritti li per sempre...
forza, cancellate tutto che dobbiamo cominciare!
La lezione è finita.
Ciao ragazzi ci vediamo mercoledì o giovedì...
Ciao arrivederci
Só mais uma para o caminho [ horas pequeninas ]

Só mais uma para o caminho
uma taça de tempo encantado,
sortilégio das almas cansadas,
as que cantam com olhos vermelhos:
“Somos sombras pelos espelhos das cidades”.
Só mais uma para o caminho,
uma troca de beijos às cegas,
uma nova promessa gigante,
uma dança de urgências na branda violência deste amor alucinado.
Só mais uma, pede duas, pede tudo que tudo é de graça, faz o pino, tropeça na praça, esquece a raça, o governo:
o inferno é mais honesto, talvez mais terno, que a indiferença.
Fica um pouco mais que eu já estou quase bom, que hoje o dia doeu fundo, mas gosto ainda do mundo.
Mais uma pró caminho!
Quinteto Tati
-letra de JP Simões, música de Sérgio Costa
Inauguração 7/11 - SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE

INAUGURAÇÃO SÁBADO 7/11
PROGRAMA
19H > JANTAR HOTEL BRAGANÇA
22:15 > ESTAÇÃO DE COIMBRA A > Concentração
22:22 > partida > CITAC & MANÉS
22:30 > chegada ESTAÇÃO DE COIMBRA B
Colectivo ERRORISTA > instalação sonora
MIGUEL JANUÁRIO > graffiti [live act]
23:00 – 04:00 > ESTAÇÃO DE COIMBRA B > OFICINAS - CP
23:00
JOSEF B + QIP > massa sonora > execução mecânica aleatória
JOÃO MARQUES FERNANDES/IRENE GONÇALVES> performance
JOÃO VAZ > textos sonoros
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOÃO VASCO PAIVA > vídeo
24:00
BOIALVO [Live act] + LISBON WINTER BLUES [VJ set]
0:30
QUARTETO PAULO PIMENTEL [Jazz]
1:30
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOSEF B + QIP
MAU FEITIO> uma muda de roupa
2:00
LAETITIA MORAIS [Visuais] + BOIALVO [Live act]
2:30 - 4:00
AFONSO MACEDO [DJ Set]
19H > JANTAR HOTEL BRAGANÇA
22:15 > ESTAÇÃO DE COIMBRA A > Concentração
22:22 > partida > CITAC & MANÉS
22:30 > chegada ESTAÇÃO DE COIMBRA B
Colectivo ERRORISTA > instalação sonora
MIGUEL JANUÁRIO > graffiti [live act]
23:00 – 04:00 > ESTAÇÃO DE COIMBRA B > OFICINAS - CP
23:00
JOSEF B + QIP > massa sonora > execução mecânica aleatória
JOÃO MARQUES FERNANDES/IRENE GONÇALVES> performance
JOÃO VAZ > textos sonoros
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOÃO VASCO PAIVA > vídeo
24:00
BOIALVO [Live act] + LISBON WINTER BLUES [VJ set]
0:30
QUARTETO PAULO PIMENTEL [Jazz]
1:30
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOSEF B + QIP
MAU FEITIO> uma muda de roupa
2:00
LAETITIA MORAIS [Visuais] + BOIALVO [Live act]
2:30 - 4:00
AFONSO MACEDO [DJ Set]
o que tu queres sei eu bem: festa! :) estão todos convidados
...fica o convite para a festa do ano!
Coimbra A - Coimbra B
07 de Nov às 22.15
O viajante
O viajante é um projecto multidisciplinar, centrado no cruzamento de diversas leituras fotográficas de um romance de Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante. Nele, Calvino propõe construir um romance a partir de diferentes começos, fragmentos narrativos que conduzem o leitor a lugares distintos, construindo tipologias que organiza segundo categorias que funcionam numa lógica simbólica e interpretativa que vai da névoa, da atmosfera ao apocalipse.
A viagem é um tema eminentemente fotográfico e o fotógrafo tem sido, desde o início, um viajante, um observador e uma testemunha. Alguém que se desloca e ao deslocar-se altera o seu ponto de vista. As fotografias resultantes são fragmentos, vistas parciais, possibilidades de ponto de vista que nos dizem do lugar do fotógrafo e do que tinha em frente; não nos dizem nada. Mas são todas potenciais narrativos e por isso, quando se cruzam com o espectador, dizem tudo. Esta ambiguidade, que a natureza da fotografia lhe empresta, torna-a num instrumento privilegiado para pensar a nossa relação com o mundo, e construir a nossa própria narrativa. Tal como a pintura, a fotografia é una cosa mentale.
O que se apresenta é uma rede organizada a partir de um conjunto de pontos de vista de diferentes observadores-leitores-fotógrafos construídos a partir das possibilidades narrativas propostas por Calvino e esta rede é tecida a partir de leituras deste núcleo inicial envolvendo diversas práticas artísticas da palavra à escrita, do som à performance, da pintura ao vídeo.
O viajante é uma experiência colectiva proposta aos sentidos do leitor-espectador. Não por acaso, o romance começa numa estação de caminho de ferro…
Francisco Feio
O viajante é um projecto multidisciplinar, centrado no cruzamento de diversas leituras fotográficas de um romance de Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante. Nele, Calvino propõe construir um romance a partir de diferentes começos, fragmentos narrativos que conduzem o leitor a lugares distintos, construindo tipologias que organiza segundo categorias que funcionam numa lógica simbólica e interpretativa que vai da névoa, da atmosfera ao apocalipse.
A viagem é um tema eminentemente fotográfico e o fotógrafo tem sido, desde o início, um viajante, um observador e uma testemunha. Alguém que se desloca e ao deslocar-se altera o seu ponto de vista. As fotografias resultantes são fragmentos, vistas parciais, possibilidades de ponto de vista que nos dizem do lugar do fotógrafo e do que tinha em frente; não nos dizem nada. Mas são todas potenciais narrativos e por isso, quando se cruzam com o espectador, dizem tudo. Esta ambiguidade, que a natureza da fotografia lhe empresta, torna-a num instrumento privilegiado para pensar a nossa relação com o mundo, e construir a nossa própria narrativa. Tal como a pintura, a fotografia é una cosa mentale.
O que se apresenta é uma rede organizada a partir de um conjunto de pontos de vista de diferentes observadores-leitores-fotógrafos construídos a partir das possibilidades narrativas propostas por Calvino e esta rede é tecida a partir de leituras deste núcleo inicial envolvendo diversas práticas artísticas da palavra à escrita, do som à performance, da pintura ao vídeo.
O viajante é uma experiência colectiva proposta aos sentidos do leitor-espectador. Não por acaso, o romance começa numa estação de caminho de ferro…
Francisco Feio
Se numa noite de névoa de Inverno El Rei Dom Sebastião um viajante
Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa que o mundo que te rodeia se esfume até se tornar indistinto. A porta é melhor que a feches; (…) (p.21)
(…) Mas depois prossegues e dás-te conta de que o livro se deixa ler apesar de tudo, independentemente daquilo que esperavas do autor, é o livro em si que te desperta curiosidade, e pensando bem até preferes que seja assim, encontras-te perante qualquer coisa que ainda não sabes muito bem o que é. (p.26)
Italo Calvino in Se numa noite de Inverno um viajante
Trad. Mª de Lurdes Sirgado Ganho & José Manuel de Vasconcelos
col. provisórios e definitivos, Vega, 1985
1ª ed.
Título: Introdução - Desenvolvimento – Conclusão
Concepção: Por vezes fazemos batota, corremos de olhos fechados do princípio para o fim, sem olhar o meio (ou será aos meios?).
Cálculos auxiliares: P__________(…)____________ F
fotografia p&b de impressão do Retrato de D. Sebastião de Cristóvão de Morais*
* 1571, óleo sobre tela, 99 x 85 cm
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal
por Sandra Cruz aka margarete
trabalho de parto
Claro que podes!, disseste alegre. Prefiro vinho, respondi. Um privilégio. Já é Domingo, são zero horas e cinco minutos do dia 25 de Outubro. Comprei um livro, chama-se "A mãe"*. Ler-me-ás um texto depois de te servires de mais vinho, eu oiço os goles de vinho a descer no teu copo e desejo que te saiba bem.
Quando quiseres, começa a ler quando quiseres, eu oiço. Posso ir escrevendo, se necessitar. Trata-se da maternidade, o tema é a maternidade ela própria. E sabemos que é uma evidência. Geometria, afinal. E eu interrompo para dizer que tenho para mim que o ser sobrevive sem os seus objectos. Mas não sem dispneia. E exemplifico com um episódio real:
No emaranhado de cabelos que retiro diariamente da escova, hoje havia um cabelo branco, enorme. Fiquei sem saber se haveria de iniciar alguma arritmia respiratória ou apenas, com a naturalidade que se exige, receber o acontecimento. Um cabelo branco, longo, caiu. Agora, sobrevivo.
…E eu que pensava possuir apenas cabelos brancos na zona temporal esquerda, curtos. No máximo com 6 cm. Mas não, havia por aqui um cabelo branco longo. Agora a suspeita: quantos mais destes clandestinos haverá pelo meu couro cabeludo?
Quando quiseres, começa a ler quando quiseres, eu oiço. Posso ir escrevendo, se necessitar. Trata-se da maternidade, o tema é a maternidade ela própria. E sabemos que é uma evidência. Geometria, afinal. E eu interrompo para dizer que tenho para mim que o ser sobrevive sem os seus objectos. Mas não sem dispneia. E exemplifico com um episódio real:
No emaranhado de cabelos que retiro diariamente da escova, hoje havia um cabelo branco, enorme. Fiquei sem saber se haveria de iniciar alguma arritmia respiratória ou apenas, com a naturalidade que se exige, receber o acontecimento. Um cabelo branco, longo, caiu. Agora, sobrevivo.
…E eu que pensava possuir apenas cabelos brancos na zona temporal esquerda, curtos. No máximo com 6 cm. Mas não, havia por aqui um cabelo branco longo. Agora a suspeita: quantos mais destes clandestinos haverá pelo meu couro cabeludo?

Paula Rego
* Gorki
e ainda... uma pequena diferença que faz toda a diferença
texto do Moura da linha - Womenage a trois - reproduzido na íntegra
Do disparate e seus direitos
"Não concordo com nada do que você diz, mas lutarei até à morte pelo seu direito a dizê-lo" (Atribuído a Voltaire, mas certamente, e como quase sempre acontece nestas citações, apócrifo).
Já não há pachorra para ouvir dizer que "Saramago tem todo o direito de dizer o que quiser." Bolas, já toda a gente ouviu isso, e toda a gente sabe isso. Vamos lá a ver: quando eu digo que o sr. Saramago, ou quem quer que seja, diz imensos disparates, não estou a negar o seu direito a dizê-los. Estou apenas a fazer uso desse mesmo direito - o direito de dizer que o sr. Saramago, ou quem quer que seja, diz imensos disparates. É o meu direito de opinião, é a minha liberdade de expressão. Manifestar o desejo de que Saramago se cale não é o mesmo que manifestar o desejo de que Saramago seja calado. Pedir a alguém que se cale não é o mesmo que calá-lo. Eu tenho o direito de pedir a alguém que não diga disparates. Não tenho o direito de pedir que esse alguém seja impedido de dizer disparates. É uma pequena diferença que faz toda a diferença. Mas que é geralmente ignorada nos debates deste género, em que se faz uso e abuso desse irritante artifício dialético de confundir a contestação dos disparates com a negação do direito a dizê-los - acabando assim por negar o direito de expressão a quem os contesta.
É um jogo de espelhos que tem sido muito evidente nos últimos dias, com toda a gente a acusar o outro de "reflexos persecutórios", "tendências inquisitoriais" e coisas do género. Toda a gente adora fazer-se de vítima. Mas toda a gente acaba por ceder ao impulso do carrasco.
"Não concordo com nada do que você diz, mas lutarei até à morte pelo seu direito a dizê-lo" (Atribuído a Voltaire, mas certamente, e como quase sempre acontece nestas citações, apócrifo).
Já não há pachorra para ouvir dizer que "Saramago tem todo o direito de dizer o que quiser." Bolas, já toda a gente ouviu isso, e toda a gente sabe isso. Vamos lá a ver: quando eu digo que o sr. Saramago, ou quem quer que seja, diz imensos disparates, não estou a negar o seu direito a dizê-los. Estou apenas a fazer uso desse mesmo direito - o direito de dizer que o sr. Saramago, ou quem quer que seja, diz imensos disparates. É o meu direito de opinião, é a minha liberdade de expressão. Manifestar o desejo de que Saramago se cale não é o mesmo que manifestar o desejo de que Saramago seja calado. Pedir a alguém que se cale não é o mesmo que calá-lo. Eu tenho o direito de pedir a alguém que não diga disparates. Não tenho o direito de pedir que esse alguém seja impedido de dizer disparates. É uma pequena diferença que faz toda a diferença. Mas que é geralmente ignorada nos debates deste género, em que se faz uso e abuso desse irritante artifício dialético de confundir a contestação dos disparates com a negação do direito a dizê-los - acabando assim por negar o direito de expressão a quem os contesta.
É um jogo de espelhos que tem sido muito evidente nos últimos dias, com toda a gente a acusar o outro de "reflexos persecutórios", "tendências inquisitoriais" e coisas do género. Toda a gente adora fazer-se de vítima. Mas toda a gente acaba por ceder ao impulso do carrasco.
notícia de última hora:

Coimbra tem mil olhos - um magazine cultural de Coimbra e arredores, que é como quem diz do resto do mundo
um magazine com censura
visitem, comuniquem, divulguem, acima de tudo participem :)
melhor do que 71 virgens
Quis imaginar-te meu e o dia foi soberbo na generosidade. O palato foi mais forte, e nós. A cena é ordinária, esta expressão é ordinária, no entanto o espanto. (e o canto sem rima)
Tantos livros
à nossa beira
a sofreguidão.
Uma natureza morta.
(ai! que bom) Fecha tudo, tranca tudo e traz os víveres. De mãos húmidas, pegajosas, prepararei de dedos afunilados os alimentos necessários. E fluidos sedentos.
Sonha-nos, ébrios disto.
Oração: Sejam os dias tão generosos como hoje, marca aí na tua agenda. Sonha.
Tantos livros
à nossa beira
a sofreguidão.
Uma natureza morta.
(ai! que bom) Fecha tudo, tranca tudo e traz os víveres. De mãos húmidas, pegajosas, prepararei de dedos afunilados os alimentos necessários. E fluidos sedentos.
Sonha-nos, ébrios disto.
Oração: Sejam os dias tão generosos como hoje, marca aí na tua agenda. Sonha.

AS MULHERES QUE PERDI
Gustav Klimt
imagem referenciada ali
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