sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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sim, sou muito ladrona

surripiado a irmão karamazov


fotografia de Paola de Grenet 


«Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá, decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deveriam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável? Simplesmente para, num determinado dia, morrer de boa saúde?» 


Robert Walser, "O Salteador", Relógio d'Água, 2003

depois cheguei [ esbracejei sem etiqueta ao longo dos atalhos ]

Sentença
Por Isabela Figueiredo
Nunca tomei uma estrada principal, e esbracejei sem etiqueta ao longo dos atalhos e desvios pelos quais transportei aqueles que amei, mas eles não sabem.
Depois cheguei a esta clareira e há sol e sombra sobre a terra, e eu saio, e sei - e mais ninguém - que não há estradas principais. Se isso não estava escrito, escrevi-o eu.



[para ti, para nós]

meeting... eu!

I became insane, with long intervals of horrible sanity.

Edgar Allan Poe

"Não sinto que tenha de pedir desculpa aos portugueses"

«A propósito da primeira página do Expresso de hoje, não posso deixar de explicar ao sr. primeiro-ministro:

Eu trabalho. Trabalho muito. Nem sempre com vontade, mas trabalho. Muito.
Eu não tenho outro remédio senão pagar os meus impostos, porque tenho o privilégio de trabalhar por conta de outrem. Sou paga com dinheiro do orçamento geral do estado. Mas não me sinto em dívida.
Eu pago as taxas e as contribuições. As que, mais uma vez, não tenho outro remédio senão pagar. Mas as outras também. A tempo. E não estrebucho.
Eu consumo. Faço mexer a economia.
Eu, sem contar com o corte no próximo subsídio de natal e sem pensar no que mais gasto quando consumo, ganho menos 150€ que no ano passado. Desde Janeiro. É só fazer as contas.
Eu gerei um nadinha menos que o 1,3 filhos da média portuguesa, portanto estou apenas ligeiramente abaixo da média.
Eu voto. Sempre. Mesmo quando dói.
Eu não votei, nem nunca votaria em si ou em pessoas que pensam a sociedade como o senhor pensa.
Eu já vai para uns 30 anos que não acredito que, se nos sentarmos sempre na cadeira em frente ao professor, apagarmos sempre o quadro e levarmos o livro dos sumários para a sala dos professores, passamos de ano de certezinha.

Portanto, não que me tivesse ocorrido a necessidade, mas, já que fala nisso, a mim sim, tem de pedir desculpa.»

por menina alice

A VIDA QUE NÃO VIVI

Quando, à minha volta, as pessoas se envolvem em discussões mais ou menos inflamadas sobre quem é quem, quem foi o quê, lembro-me sempre de Jesus Cristo na cruz e de Lenine na tumba. Mortos, nada mais que mortos, vamos todos tentando justificar a vida com altercações inconsequentes. Daqui a nada estamos enterrados. E depois ninguém poderá queixar-se da vida que não viveu.

por Henrique n'Antologia do Esquecimento

quando ler nos deixa "bem ca puta da vida"

isto tudo surripiado ao


Nem sempre a lápis (195)

Terminava assim:
29
«Gostava que este livro, se vier a ser um livro, soubesse a pão e a sal, a peixe frito e a harira, a água fresca e a chá, que as páginas ofuscassem como a prata do mar de Asilah e os dias luminosos do Rif, cegassem como os campos do baixo, em Agosto, e acendessem trilhos no mar como a Lua Cheia na Fortaleza; fossem impressas a buril nas encostas xistosas das Laceiras e apagadas pelos cascos do gado afugentado por um velho Land-Rover; falassem várias línguas comuns, sem idade nem sotaques, apátridas e abrangentes, que nelas se ouvissem várias vozes numa só voz e ribombassem as trovoadas secas de Maio e de Setembro e os relâmpagos iluminassem as páginas de um rosto apresentado como figura tutelar e exemplar, sem exigências nem cedências recíprocas; fossem rasgadas pelo estertor primário da matança de um porco numa aldeia de Mortágua, pela sinfonia da água a correr de um bica de metal para uma pia de granito, em Salgueirais, pelo silêncio frio da serra do Caramulo e pelo silêncio calcinado dos cerros algarvios; fossem interrompidas pelo canto das popas e abelharucos, riscadas pelo voo rápido das andorinhas, mas sustentando bem alto um predador atento ao mínimo movimento da presa que se protege da canícula; gostava que nelas fumegassem fogareiros de barro e lareiras de sobro e de giesta, cheirassem a forragem cegada e a tagine, a chuva e a cães molhados regressados da caça, a pomares devassados pelas abelhas e a vinhas vindimadas, como cheira o teu cabelo quando sais do mar.
Gostava que este livro, se tiver de ser um livro, ao folheá-lo sentisse o toque da tua pele e ouvisse a tua respiração enquanto dormes; permanecesse secreto e inacabado, escrito e reescrito como o livro que me recuso a escrever, onde não houvesse lugar para lugares-comuns e, à falta de melhor, o silêncio se impusesse à previsível conclusão de cada período; fosse um palimpsesto onde latejam outras páginas, em branco e decifráveis, sobrepostas como sucessivas camadas de cal dos montes do Sul, como escamas de ardósia dos derradeiros telhados da Beira, comunicativas e arejadas como açoteias de Tânger e de Asilah; memória amnésica, fronteira de fronteiras derrubadas.»
30
(de Setembro)
Já arrumei a mochila e atestei o Land-Rover. Esta madrugada arranco até Jajouka.
[até Jajouka, Monte Alto / Mortágua, Maio / Setembro de 2006]

me too :)

via http://www.postsecret.com/