sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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Azuliante

Helena Almeida



















Este poema é da AIdina


Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho ___e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome ___a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e___ ver no meio do deserto ___ o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito ___ eu sei choverá___ muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa
___cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente

Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabes tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz___ contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre___ o estado
segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente___ meu amor ___ de oriente a ocidente

Digo não___ Eu digo não
digo o teu nome que diz não

No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão
_______________________________________para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos

passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite ___ mil e uma noites de quem espera

Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir

No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase sobre a terra

tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua ___eu a tempestade
de coração a coração
Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos ___e este será o sinal



António José Forte
in Uma Faca nos Dentes

silêncio esforçado

Tudo isto poderia ser escrito a azul sobre branco, daquele azul do meu vestido, o vestido que toda a gente que me conhece sabe qual é, portanto sabe de que azul falo. É aquele que acompanha a minha degradação. Um dia, um de vós dirá de mim aos outros, após reencontrar-me na rua: “her famous blue dress was torn at the shoulder”; seguir-se-á um silêncio curto.
Não escrevo a azul sobre branco porque não me apetece ser fácil, se é que me apeteça ter a ingenuidade de que controlo seja o que for. O tom com que escrevo, esse impus-mo quando me lembrei de levar o CD do L.Cohen para o carro, essa taciturnidade.
E tudo num profundo silêncio.
Não falo vai fazer cerca de 2 semanas, se quisera ser exacta (se-lo-ei, então) direi que não falo há (pausa para fazer contas) (um post-it): 10 dias e cerca de 18 horas. Sou afortunada pois, neste tempo, ninguém me pediu que fale. Enfim, se mo exigissem não sei que se seguiria, um tranquilo momento de afonia ou, pior, de tanto puxar pela goela talvez se rasgasse o meu vestido. Confesso que me custaria ver rasgado o vestido.
fotografia de Forced Labor (blue sand), Liliana Porter

terapia

Quando me olhas enternecido. O gato à janela quando chego a casa. Caminhar no choupal ao Sábado de manhã. Também ao Sábado de manhã, ir ao mercado. As mãos das sobrinhas. Muffin de chocolate e leite frio. Pensar as raízes. Sushi. Ler poemas que me atiram contra a parede. A música. E Tom e Vinicius. Nós no nosso sofá, o dia todo. Sopas de verde. A tua costa Alentejana. A cor da parede do nosso quarto. A orquídea cuja cor é igual à cor da parede do nosso quarto. Eu e o teu filho, tu a fotografar-nos. Salmão fumado, ovas, ostras e vinho verde. Os passos em volta. As magnólias. As magnólias na baixa. Um concerto no Salão Brazil. Cozinhar para ele. O meu pai sem dores. A minha mãe sem dores. Toda a gente sem dores.  A expressão "uma palavra amiga". Palavras dos amigos. Cigarros e o meu dedal de Jameson. A tua escrita. A minha escrita. Escrever. Os nossos livros. Ir a Lisboa. Ir ao Porto. E voltar para a nossa casa no Bairro (o nosso bairro).  Quando o teu filho diz "a nossa casa". As perguntas dele, e generosidade dele. Klimt. Receber um email dos antípodas. Enviar emails para os antípodas. Paisagens de mar e eu sem medo do vento. 6ªfeira no Tropical. E os Sábados no BB. Os Domingos com os pescadas. Carapauzinhos fritos com arroz de tomate, vinho branco. Os jantares não planeados de 6ª-feira em nossa casa. Morcela com migas, vinho tinto. Ginginha e frutos secos. Romãs. Os jantares "residentes" chez Amélie ao Sábado. Jogar. Um blog novo. Ter sono, dormir. Vidros e luzes. As árvores. Estar,  e ficar, abraçada por ele. Fazer recuperações rápidas. Estar equilibrada. Fazer planos de fuga com ele. E ficar, sempre, ficar a sermos nós, a ser eu. Sim, para agora chega. Bom dia, mundo.

...inspirada pela Mónica Marques 

Bottles wall, Friedensreich Hundertwasser

(exposição) Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino



Título Introdução  Desenvolvimento  Conclusão



«Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa que o mundo que te rodeia se esfume até se tornar indistinto. A porta é melhor que a feches; (…) (p.21)

(…) Mas depois prossegues e dás-te conta de que o livro se deixa ler apesar de tudo, independentemente daquilo que esperavas do autor, é o livro em si que te desperta curiosidade, e pensando bem até preferes que seja assim, encontras-te perante qualquer coisa que ainda não sabes muito bem o que é. (p.26)»

Italo Calvino in Se numa noite de Inverno um viajante

Trad. Mª de Lurdes Sirgado Ganho & José Manuel de Vasconcelos
col. provisórios e definitivos, Vega, 1985
1ª ed.


Concepção Por vezes fazemos batota, corremos de olhos fechados do princípio para o fim, sem olhar o meio (ou será aos meios?).
.
Distraio-me a espaços. Voltei a atrasar os meus recados pelo que percebi que não leria o livro. No outro dia li: Uma constitucional perturbação da vontade e uma ânsia, paralelamente paralisante, de sobre tudo dizer tudo, sem falha, falta ou fraqueza, fazem com que eu ponha em tudo o que faço uma demora que acaba por me apavorar até à acção, e que comece essa acção por um pedido de desculpas de tanto ter demorado.*
Não li o livro para a feitura do trabalho. (não esquecer: ter um livro em detenção de leitura é uma requintada forma de suplício) Eis-me então perante um autor que estimo, peguei na sua obra e li apenas inícios e fins de romances, deixei-me cometer deduções. Cogitei acerca da origem e da conclusão do título. Li sem remorso primeiras e últimas frases. Fiz desenhos e cálculos auxiliares; fiz corte e cose. Assim, sem mais nem menos: saltei da introdução para a conclusão. [deixando por preencher o desenvolvimento – não sei encaixar esta ideia]
Pensei “Sou uma viajante nesta hora de Inverno.” e muitas outras coisas que narrei para mim como se fora eu própria a leitora.

Amanhã inicio a leitura.



* Excerto de carta de Fernando Pessoa a Jaime Cortesão, in "Obra essencial de Fernando Pessoa, Cartas"
(lido em http://welcometoelsinore.blogspot.com/2009/02/se-alguem-houve-que-disse-tudo-foi-ele.html 
acedido a 18/FEV/2009)


Sandra Cruz (margarete)


Cálculos auxiliares: P__________(…)____________ F




Se numa noite de névoa de Inverno El Rei Dom Sebastião um viajante numa estação de caminho-de-ferro

fotografia p&b de impressão de imagem digital do
Retrato de D. Sebastião de Cristóvão de Morais*
* 1571, óleo sobre tela, 99 x 85 cm
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal





Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)

Espelho, cola, cartolina, tu
O teu reflexo - a risível questão do todo
Especulação e geometrias - espaço reflexo



pormenor de
Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)

 «Especular, reflectir: toda a actividade do pensamento me remete para os espelhos.»
[Primeira frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 159 ]

«Agora parece-me que tudo aquilo que me circunda é uma parte de mim mesmo, que eu consegui tornar-me o todo, finalmente…»

[Última frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 165]