sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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o lado sombrio da vida

A doença é o lado sombrio da vida, uma cidadania bem pesada. Ao nascer, todos nós adquirimos uma dupla cidadania: a do reino da saúde e a do reino da doença. E muito embora todos preferíssemos usar o bom passaporte, mais tarde ou mais cedo cada um de nós se vê obrigado, ainda que momentaneamente, a identificar-se como cidadão da outra zona.
O meu propósito não é tanto descrever o que significa relamente emigrar para o reino da doença e aí viver, mas antes as fantasias punitivas ou sentimentais que se constroem acerca dessa situação: não uma geografia real, mas antes estereótipos de carácter nacional. O meu tema não é a doença física em si, mas o uso que se faz da doença como figura ou metáfora.
A minha tese é de que a doença não é uma metáfora, e o modo mais honesto de olhar a doença - e o modo mais são de estar doente - é o olhar mais depurado, mais resistente ao pensamento metafórico. Mas é praticamente impossível fixarmos residência no reino da doença incontaminados pelas sinistras metáforas que lhe desenharam a paisagem. Elucidar tais metáforas, sacudir o seu jugo, constitui o objectivo deste estudo.


Susan Sontag in A Doença como Metáfora e A Sida e as suas Metáforas
Quetzal Editores
1998

nota: este ensaio foi escrito em 1978, quando a autora convalescia de um cancro. 
Anos mais tarde, com o aparecimento da SIDA, Sontag escreveu A Sida e as suas Metáforas




e senti-me acordar
fiquei nesse sítio
movi o olhar
o meu olhar comum
mortal

(hei-de ser o teu cinto de segurança até ao fim das minhas forças)

deixando o “sentido literal” do vídeo de lado...
por vezes é assim mesmo, 
passamos pela vida a fazer de cinto uns aos outros... 
vamos conduzindo, olhamos a paisagem 
e subitamente quando voltamos a olhar a estrada
a vida está em modo de "despiste"

doença

Sinto-me adoecer. Os sintomas são claramente do físico. Arrepios e declínio da cabeça. Trago punhos antigos, folhos e rendas. Um anel azul cobalto, para não fugir da rotina. Tenho um envelope enorme à minha beira que aguarda a minha proficiência. Trago um atraso de datas que não consigo achar. Sinto-me adoecer enquanto sei que não faleço. Há muitas palavras nestas frases possíveis para descrever a doença que surge e eu quieta. Vi dois filmes desnecessários e outro filme também desnecessário. Slumdog Millionaire/ O leitor/ Quatro noites com Anna. Se insistir, adoeço desta decadência que me leva a abandonar caminhos passados. A ideia de um passo procedente doutro é demasiado forte, há exposições desnecessárias quando determinado corpo se encontra à beira da doença.
Começamos por sentir arrepios…