sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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A VIDA QUE NÃO VIVI

Quando, à minha volta, as pessoas se envolvem em discussões mais ou menos inflamadas sobre quem é quem, quem foi o quê, lembro-me sempre de Jesus Cristo na cruz e de Lenine na tumba. Mortos, nada mais que mortos, vamos todos tentando justificar a vida com altercações inconsequentes. Daqui a nada estamos enterrados. E depois ninguém poderá queixar-se da vida que não viveu.

por Henrique n'Antologia do Esquecimento

rituais

Definitivamente, as coisas não estão bem quando, pela segunda vez, tenho de interromper o meu discurso para me desculpar diante dos clientes e da noviça pelo marasmo do meu tino. Dou por finda a manhã. Faço listas mentais com a palavra morte. Assim, evoco Annie Hall e a cena dos livros com a palavra morte no título; esqueço a palavra morte por instantes para me lembrar da história que Woody Allen conta no final: this guy goes to a psychiatrist and says, "Doc, uh, my brother's crazy; he thinks he's a chicken." And the doctor says, "Well, why don't you turn him in?" The guy says, "I would, but I need the eggs." Well, I guess that's pretty much now how I feel about relationships; y'know, they're totally irrational, and crazy, and absurd, and... but, uh, I guess we keep goin' through it because, uh, most of us... need the eggs. Entretanto já estou a entrar no refeitório.
Hoje tenho boa fortuna, encontro o meu canto livre. A sorte impera até ao final da refeição, ninguém veio sentar-se à minha beira. Poupei-me em socialização, porém a barreira ideológica que demarquei não me pareceu ser totalmente eficiente, pois de cada vez que me distraí e levantei o olhar cruzei-me com alguém que me acenou a cabeça sorrindo. Suspeito que o meu silêncio estivesse demasiado espalhafatoso. Damn. Caminhei de volta ao cubículo em marcha de caminhada fantasiando uma corrida. Não fumei.
Eu sei o que é que se passa. Sinto que cheguei à recta final. A uma recta final. Estou diferente. Atenção, não é todos os dias que percebemos mudanças em nós próprios ou nos outros. Estais a ler uma confissão de grande monta. Acabo de declarar o início de uma nova era. Uma era que começou faz algum tempo, mas da qual ainda não havia apontamento oficial por a sua instalação, até à data, não ser inteiramente certa. Assim seja dito: estou diferente, mudei, já não sou a mesma.
Tenho de chorar qualquer coisa que ficou para trás, e tem de ser hoje.
Tem de ser hoje.
Para amanhã planeio descansar a cabeça deste speed de canções ao sabor da estranha ideia de liberdade. E um gin.


descanse em paz [ mortalha azul ]

Andava a adivinhar que estaria para acontecer em breve um enterro.
... Tal foi, aconteceu esta noite. Fui eu quem fez a cova, outra coisa não seria de esperar. Confesso que ficou um pouco artesanal, formato oval e pouco profunda. Atenção, pouco profunda, mas profunda o suficiente (assim o espero).
A origem do óbito? Não interessa ao assunto que descrevo.
O corpo mantinha as últimas roupas de que o próprio se havia coberto nesse dia de manhã. Sem urna. Dei por mim a olhar cadáver e cova, indecisa. Não tinha coragem de o lançar à terra sem quaisquer rituais. Larguei a pá e corri até ao meu carro. Trouxe a manta azul, a minha linda manta azul. Enrolei o corpo denso da melhor forma em todo aquele azul. Empurrei e puxei o corpo para a sua morada final. Cobri todo o azul de terra. Fui embora.
Não sem antes virar-me para trás e dizer adeus. Adeus.

http://tvfiles.files.wordpress.com/2007/08/sfu.jpg
fotograma de Six Feet Under

dilúvio de sentimento genuíno

(…) e Sabbath deitou-se sobre a campa e soluçou como não tinha podido fazer no funeral.
Agora que ela desaparecera para sempre parecia-lhe incrível que, nem mesmo quando tinha sido o amante muito louco e enrabichado, antes de Drenka se ter tornado um absorvente passatempo para se divertir com ela, foder com ela, conspirar e tramar com ela, parecia-lhe incrível que nem mesmo então tivesse pensado em trocar a torturante chatice de uma Roseanna alcoólica e assexuada para casar com alguém cuja afinidade com ele não tinha paralelo com a de qualquer outra que conhecera fora de um bordel. Uma mulher convencional capaz de fazer tudo. Uma mulher respeitável suficientemente guerreira para contrapor à dele a sua audácia. (...) E ele nunca fizera a mínima ideia disso. Nunca, em treze anos, se cansara de olhar pela sua blusa abaixo ou pela sua saia acima, e mesmo assim nunca fizera a mínima ideia!
Agora esse pensamento arrasou-o. Ninguém acreditaria que o escandaloso conspurcador da cidade, o porcalhão do Sabbath, fosse capaz de um tal dilúvio de sentimento genuíno.

in Teatro de Sabbath de Philip Roth
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção universal
2000

A imagem "http://galerias.escritacomluz.com/sandraf/albums/Prazeres/aba.jpg" não pode ser mostrada, porque contém erros.
fotografia de Salamandrine aka Sandra Ferrás



(curtas de Mickey Sabbath)

Porra, acontecia sempre alguma coisa para levar as pessoas a continuarem a viver!

in Teatro de Sabbath de Philip Roth
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção universal
2000

(curtas de Mickey Sabbath)

A incapacidade de morrer. Ir ficando, em vez disso. Este pensamento excitou intensamente Sabbath: a perversa insensatez de permanecer, de não ir.

in Teatro de Sabbath de Philip Roth
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção universal
2000

o sentido da vida

Estranho. A única coisa em que pensas é que ela morreu. Isso até se aplica aos mortos. Eu aqui em cima, na claridade e no quente e, quilhado como estou, com cinco sentidos, um cérebro e oito tipos de compotas – e os mortos mortos. A realidade imediata está do lado de fora daquela janela; é tão grande, é tanta, tudo enredado em tudo o mais… que grande pensamento se esforça Sabbath por exprimir? Está a perguntar: «Que aconteceu à minha própria vida genuína?» Estaria a ser vivida noutro lugar? Mas nesse caso como é possível olhar para fora desta janela seja tão colossalmente real? Bem, essa é a diferença entre o verdadeiro e o real. Nós não chegamos a viver na verdade. Foi por isso que Nikki fugiu. Era uma idealista, uma comovedora, inocente e talentosa ilusionista que queria viver na verdade. Bem, se a encontraste, miúda, foste a primeira. De acordo com a minha experiência, o sentido da vida vai na direcção da incoerência – precisamente o que nunca quiseste enfrentar. Talvez essa tenha sido a única coisa coerente que te ocorreu fazer: morrer para recusares a incoerência.

in Teatro de Sabbath de Philip Roth
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção universal
2000



fotografia de Carlos Veríssimo

This derangement.

Reclining Nude, Amadeo Modigliani
1919

Attachment creeps in. The eternal problem of attachment. No, not even fucking can stay totally pure and protected. And this is where I fail. The great propagandist for fucking and I can’t do any better than Kenny. Of course there is no purity the kind Kenny dreams of, but there is also no purity of the kind I dream of. When two dogs fuck there appears to be purity. There, we think, is pure fucking, among the beasts. But should we discuss it with them, we would probably find that even among dogs there are, in canine form, these crazy distortions of longing, doting, possessiveness, even of love.
This need. This derangement. Will it never stop? I don’t even know after a while what I’m desperate for. Her tits? Her soul? Her youth? Her simple mind? Maybe it’s worse than that – maybe now that I’m nearing death, I also long secretly not to be free.


in The Dying Animal de Philip Roth
Vintage Books, 2001

[ mortalha ]

Na força da hora da morte puxou o amigo pelos colarinhos para junto dos seus lábios e disse adeus.
Acrescentou de punhos encerrados:
– estou arrependida
tantas vezes me cansei
das coisas que não fiz.

[ assim inaugurou aquele que será o seu último Outono ]


Quando deu por si, já estava no exterior do edifício onde o bom doutor pratica a medicina, voltou atrás para se certificar de que pagara a consulta e respectivos exames. De novo no exterior, cumpriu o gesto habitual – a contemplação da fachada Arte Nova do edifício. Tirou da mala o bloco de esboços -A5 e um lápis (macio e escuro, muito). Deixou que o dia anoitecesse. O dia do decreto do fim da minha capacidade fisiológica, pensou. Sorriu sarcasticamente, quase como quem se quer magoar a si próprio. Amanhã vou à papelaria comprar uma caixa enorme de lápis de cor, decidiu. O seu escárnio nunca durava mais do que cerca de 5 ou 10 minutos. Ainda se lembrou que se desse demasiada importância à vida a sua mente já se concentraria nos pormenores a não descurar. Más novas, recebera más novas. Sabia da naturalidade de não se sentir desesperada. Durante o caminho de volta à vila, dedicou-se à condução e às sombras amarelo-torrado das árvores. Foi um grande suspiro que libertou quando fechou, por dentro, a porta de casa. Olhou à sua volta e deu passos ao mesmo tempo que despia do seu corpo, robusto mas findo, pedaços do traje de ir à cidade grande. A única coisa que continuava a intrigá-la era a solidão, há muito que se resignara mas nunca conseguira compreender. A tentativa de entendimento da solidão fora o grande objectivo, e simultaneamente distúrbio, da sua existência. Isto aconteceu em absoluto silêncio.