Todos os dias digo, sussurrando,
mantém o equilíbrio. Tudo espreita,
tudo assusta, a vida inteira pende-te
de um frágil fio e de uma sorte injusta.
A tua vontade não pode muito.
Não percas pé. Mantém o equilíbrio.
Amalia Bautista, Estou Ausente
Averno
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quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolvendo-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta o coração
esse
solitário caçador
Al Berto in O Medo
You are welcome to Elsinore
Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim, 1957
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim, 1957
SÚMULA
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Hélder
in Ou o Poema Contínuo
Assírio e Alvim, 2001
2.
tombo as carnes – sinto-as escorrer dos ossos
e o mar ressoa na minha cabeça como uma imensidão
de noites: Ah, as noites pétreas e pesadas
que impossíveis nuvens não sustentam
e dunas que dormem à noite ao luar
quando gostaria de anunciar a vaga toda
que rompe dentro de mim violenta
como todas as vagas, mesmo as mansas
e brandas que trazem a persistência da erosão.
Carlos Veríssimo
A fuga do peixe melancólico
edição de autor, 2012
e o mar ressoa na minha cabeça como uma imensidão
de noites: Ah, as noites pétreas e pesadas
que impossíveis nuvens não sustentam
e dunas que dormem à noite ao luar
quando gostaria de anunciar a vaga toda
que rompe dentro de mim violenta
como todas as vagas, mesmo as mansas
e brandas que trazem a persistência da erosão.
Carlos Veríssimo
A fuga do peixe melancólico
edição de autor, 2012
Apanhado em fragrâncias
cinzelar a burrice juvenil
entontecido na melancólica bicicleta
percorrias
os frios provinciais cuidando
distinguir uma pontinha já de Primavera; em vez dela tombavas
no incalculável prejuízo dos versos, moléstia à parte
e na estação errada
sempre as laranjeiras flóreas, cúmplices
caladas na incumbência de produzir a imperceptível alegria
que recendia sem parar na fiada odorífera das ruas
também o lumaréu dos limoeiros
desprendendo
cheiros que portões de ferro, caiados muros
puderam nunca aquartelar
e em Lisboa, apeado no imaturo homem
bárbaro, barbado em que te mudaste, a fumarada das sardinhas
avioletou na doçura dos jacarandás; o sexo
agora vezo e hálito, exala a ácida variedade
que nunca te nauseou
depois os europeus odores, centrais
ou varado nos velhos comboios do Leste
porcos, gastos, alvoroçados
lavatórios do mundo onde lavaste as cuecas
evitando tocar nos ralos
tudo para chegar hoje a uma ideia de Índia
suposta, sonhada, odor infindável de um sem-fim
perfumado, onde pudesses compreender
a colorida arquitectura do ar
a suave dimensão da espessura
a girar no vazio um dia inteiro
Miguel Manso
livro em preparação, 2012
entontecido na melancólica bicicleta
percorrias
os frios provinciais cuidando
distinguir uma pontinha já de Primavera; em vez dela tombavas
no incalculável prejuízo dos versos, moléstia à parte
e na estação errada
sempre as laranjeiras flóreas, cúmplices
caladas na incumbência de produzir a imperceptível alegria
que recendia sem parar na fiada odorífera das ruas
também o lumaréu dos limoeiros
desprendendo
cheiros que portões de ferro, caiados muros
puderam nunca aquartelar
e em Lisboa, apeado no imaturo homem
bárbaro, barbado em que te mudaste, a fumarada das sardinhas
avioletou na doçura dos jacarandás; o sexo
agora vezo e hálito, exala a ácida variedade
que nunca te nauseou
depois os europeus odores, centrais
ou varado nos velhos comboios do Leste
porcos, gastos, alvoroçados
lavatórios do mundo onde lavaste as cuecas
evitando tocar nos ralos
tudo para chegar hoje a uma ideia de Índia
suposta, sonhada, odor infindável de um sem-fim
perfumado, onde pudesses compreender
a colorida arquitectura do ar
a suave dimensão da espessura
a girar no vazio um dia inteiro
Miguel Manso
livro em preparação, 2012
Paraíso Perdido
É o bibe é a trança
a lisura da anca
a doçura da pele a pastel de nata
Os dedos erguidos num aceno
de esperança
o sonho onde o lince lhe devora a ilharga
É a mãe sem saber
quanto o belo lhe pesa
a avó a arranjar o pão com marmelada
O sino que ao longe
diz da missa e da reza
na igreja onde sempre entrará aterrada
É a gola de renda a picar
no pescoço
o livro lido às escondidas
As histórias escritas no caderno
e o osso
do corpo voraz onde a vida se afirma
É o medo do escuro
porque o quarto vacila
uma noz uma nau no peito em alvoroço
A paixão de organdi
quando a rosa retira
o espinho envenenado do avesso suposto
É o gosto do verso
seduzindo a insónia
alinhavo da alma com bastante amargura
O sabor derramado
a gardénia e no bolso
o cheiro a glicínia ou a coisa nenhuma
É o nervo à flor
de um suor resguardado
debaixo dos braços ou então nas virilhas
Os pulsos estreitos
os joelhos suaves
frutos de uma magreza talvez doentia
É a história inventada
que a culpa condena
o poço da morte só de madrugada
A febre que a toma
e valseia com ela
a aperta nos braços e a deixa quebrada
É o som e o susto
a torpeza do hálito
a lâmina furtiva onde o gesto se afia
A cicatriz da fuga
porque o fio vem doendo
fazendo-a teimar como quem desafia
É o suco o vacilo
o caroço do cuspo
na palma das mãos que o tempo confirma
O sol da manhã a acordá-la de súbito
fazendo-a recordar tudo aquilo
que queria
É o extremo vagar que a memória conhece
mais tarde o abandono
a deixá-la sozinha
Paraíso perdido
com a pressa onde cresce
a tornar-se mulher sendo ainda menina
Maria Teresa Horta
fonte
a lisura da anca
a doçura da pele a pastel de nata
Os dedos erguidos num aceno
de esperança
o sonho onde o lince lhe devora a ilharga
É a mãe sem saber
quanto o belo lhe pesa
a avó a arranjar o pão com marmelada
O sino que ao longe
diz da missa e da reza
na igreja onde sempre entrará aterrada
É a gola de renda a picar
no pescoço
o livro lido às escondidas
As histórias escritas no caderno
e o osso
do corpo voraz onde a vida se afirma
É o medo do escuro
porque o quarto vacila
uma noz uma nau no peito em alvoroço
A paixão de organdi
quando a rosa retira
o espinho envenenado do avesso suposto
É o gosto do verso
seduzindo a insónia
alinhavo da alma com bastante amargura
O sabor derramado
a gardénia e no bolso
o cheiro a glicínia ou a coisa nenhuma
É o nervo à flor
de um suor resguardado
debaixo dos braços ou então nas virilhas
Os pulsos estreitos
os joelhos suaves
frutos de uma magreza talvez doentia
É a história inventada
que a culpa condena
o poço da morte só de madrugada
A febre que a toma
e valseia com ela
a aperta nos braços e a deixa quebrada
É o som e o susto
a torpeza do hálito
a lâmina furtiva onde o gesto se afia
A cicatriz da fuga
porque o fio vem doendo
fazendo-a teimar como quem desafia
É o suco o vacilo
o caroço do cuspo
na palma das mãos que o tempo confirma
O sol da manhã a acordá-la de súbito
fazendo-a recordar tudo aquilo
que queria
É o extremo vagar que a memória conhece
mais tarde o abandono
a deixá-la sozinha
Paraíso perdido
com a pressa onde cresce
a tornar-se mulher sendo ainda menina
Maria Teresa Horta
fonte
A matéria das palavras [às portas de (mais) um novo dia]
Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.
O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.
Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.
Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.
Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.
Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.
Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.
Ana Hatherly
Pavão Negro
Assírio & Alvim, 2003
Facto diverso
Discretamente fui ontem almoçar
ao lado do meu tumulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava lá em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma búlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença leal e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
e sentámo-nos
à esquerda Cesariny
recém-chegado de beber uma cerveja no Inferno
à direita o Erol Isin
recém-fugido dos lobos de Istambul
onde para urinar se caminha entre a neve
com uma Luger na mão
e um aviso no sexo (PROIBIDO DEVORAR)
e olhámos
o elevador de Santa Justa parecia indicar
a verticalidade rápida de menos dois tostões
noticiando o Tejo e a sua ponte
(muito para mostrar aos do Brasil e de Lesoto)
Lisboa (António Maria) sentou-se ao nosso lado
Sentados
Todos sentados e continuando a respeitar as leis
ficámos
a ouvir o noticiário meteorológico
Campo de Ourique algumas nuvens com precipitação provável
Rua do Norte alta pressão isobárica
Rocio o costume
Cais do Sodré frente fria em evolução
com alguns barcos para o Barreiro e muitos nabos
abrimos
uma lata de enchovas
esfregámos os pés no azeite (enlatado de exportação)
e alimentámo-nos confortavelmente
enquanto escrevíamos cartas
à família mais próxima é evidente
e tentávamos absorver
através das palhinhas made in Japan
alguns tragos de vinho do Cartaxo
recém-desembarcado do vapor
Lembras-te menina
Como foram rigorosas
as nossas noites de amor?
É preciso não esquecer que o processo de crescimento
da humanidade
é metálico
daí os fornos crematórios
e os vários campos de concentração mais ou menos repelentes
Sentados olhávamos
Um gato sorriu atrás da porta e espreguiçou-se
escreveu taquigraficamente um salto no espaço
e propôs-nos um jogo de encontrar
depois seguiu a aventura de ser ele
A rua da Palma parecia uma mentira inesperada
enquanto assávamos sardinhas e pimentos na escada de pedra
e alguém dava um pontapé numa bola de trapos
que rolava para a praça seminocturna
Escrevemos mais cartas
desta vez aos amigos distantes
e a alguns membros das polícias excessivamente secretas
que tentam decifrar a grafia do voo dos pássaros
Lembras-te
quando partiste?
Levavas um casaco muito branco
e enquanto pisavas os degraus
sorrias
como uma navalha de Albacete
Os automóveis passavam com procissão obsessiva
anunciando apenas um dia febril
enquanto pessoas muito pessoas
pernas dedos dentes
traçavam no solo o diagrama
de mais uma tentativa simplesmente quotidiana
As ruas deslizavam calmas
como quem volta do teatro e vai dormir
Animoglu Sok
Gonçalves Crespo
New Oxford
Gorki
Gregoire-de-Tours
Animoglu Gonçalves Oxford Gorki-de-Tours
Só uma rua imensa possessive
mostrando caminho até ao fundo do espaço
com sinais cabalísticos em cada esquina
e cartazes ofertando maravilhas
cigarros congressos políticos preservativos requintados
sabonetes retratos de assassinos
circos de cavalinhos aguardentes antiquíssimas
máquinas de computar a morte
lutas de mulheres laxantes infalíveis
Sorrimos
O Cesariny levantou-se à minha esquerda
e partiu para mais uma cerveja no Inferno
o Erol Isin à minha direita ergueu-se
e lá se foi
voltando a um Bósforo cor de corno e mar
só o Lisboa
metendo um cágado no bolso
e dando a mão a um menino
ficou à minha espera
mas não me levantei
não tenho pernas
Lembras-te
como amei Fipsy?
Deves contar isso a alguém
Fica-te bem.
Poema de Mário Henrique Leiria a acompanhar carta enviada a Mário Cesariny em 1970
(primeira publicação do poema, na revista surrealista holandesa «Brumes Blondes», número 3, 1972, en versão francesa de Isabel Meyrelles)
in António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Henrique Leiria – Três Poetas do Surrealismo, Exposição Ícono-Bibliográfica,org. de Mário Cesariny
Biblioteca Nacional, Lisboa, 1981
[post surripiado na íntegra]
pessoa e local assaltado: ana salomé no Pátio Alfacinha
Conversas
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta à noite.
Muitos temem mais as suas fobias do que a própria morte.
O vítreo Rei de França temia quebrar-se.
Os eunucos chineses mantiveram os seus túbaros em espírito.
O teu cérebro pode sangrar num único espirro.
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta quando se inclina,
o Donald Duck foi uma vez expulso da Finlândia
por não usar calças.
As suas patas eram só penas como as da Margarida
mas nenhuma avestruz enterrou a cabeça na areia.
A cura do escorbuto foi encontrada
para logo se perder ao longo das teorias médicas.
O Começo é um estático som branco.
A lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e lémures e macacos capuchinhos
dão uma centopeica volta até desaparecerem
nas suas poderosas secreções.
O coração de um esplendoroso cavalo abranda.
Um facto é uma pequena fé,
uma leve impressão sensorial para animais, poderosa para os homens
mesmo que seja verdadeira, mesmo quando verdadeira –
nós lemos estas leis em Isaac Neurónio.
Uma mulher teve sessenta e nove filhos.
Alguns leões acasalam cinquenta vezes ao dia.
Napoleão era viciado em vitórias.
Uma lua-cheia nasce sempre ao pôr-do-sol.
Os soldados podem agora seguir o caminho de casa.
Les Murray (Austrália, 1938)
in Taller When Prone (2010)
(tradução da Ana Salomé)
Conversas
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta à noite.
Muitos temem mais as suas fobias do que a própria morte.
O vítreo Rei de França temia quebrar-se.
Os eunucos chineses mantiveram os seus túbaros em espírito.
O teu cérebro pode sangrar num único espirro.
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta quando se inclina,
o Donald Duck foi uma vez expulso da Finlândia
por não usar calças.
As suas patas eram só penas como as da Margarida
mas nenhuma avestruz enterrou a cabeça na areia.
A cura do escorbuto foi encontrada
para logo se perder ao longo das teorias médicas.
O Começo é um estático som branco.
A lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e lémures e macacos capuchinhos
dão uma centopeica volta até desaparecerem
nas suas poderosas secreções.
O coração de um esplendoroso cavalo abranda.
Um facto é uma pequena fé,
uma leve impressão sensorial para animais, poderosa para os homens
mesmo que seja verdadeira, mesmo quando verdadeira –
nós lemos estas leis em Isaac Neurónio.
Uma mulher teve sessenta e nove filhos.
Alguns leões acasalam cinquenta vezes ao dia.
Napoleão era viciado em vitórias.
Uma lua-cheia nasce sempre ao pôr-do-sol.
Os soldados podem agora seguir o caminho de casa.
Les Murray (Austrália, 1938)
in Taller When Prone (2010)
(tradução da Ana Salomé)
Enquanto a meu lado dormes
![]() |
| Gustav Klimt, A Árvore da Vida, 1909 |
Enquanto a meu lado dormes e, como de hábito, tens pesadelos
da minha boca sobe um balão de ar quente por onde fugimos os dois até ser claro
e a noite ser brincadeira de espuma na rebentação dos cabelos
O sono pérfido, nocturna suppressio, não te inquietará mais
do que a infinitesimal passagem do insecto pelo tempo
Guardiã dos espelhos das tuas mãos
conto-te coisas que minha mãe já ouviu contar
Damas pé-de-cabra e um ancinho aplanando as terras jardinadas
a vez em que me abriram uma cova e prestes a morrer
fui descalça correndo em tua direcção
ainda tu não existias
e o amor era um cavalo de muitas cores.
Pátio alfacinha
para ti :)*
Cat People
Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:
quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo
ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei
julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.
Margarida Vale de Gato
Mulher ao Mar, Mariposa Azual
Lisboa, 2010.
a pessoa e divindades num tempo, num espaço, numa forma
(estar atenta, ou, porque não estou sozinha: estarmos atentos)
I. Teorias
O emergir de grupos radicais em
tempos de tumulto
é um fenómeno esperado,
óbvio, de fácil
implementação. Ao
contrário das dúvidas
que nos assolam em provérbios face às
bruxas,
estes existem. Sempre
existiram,
mais ou menos assumidos, são nossos vizinhos. Todos
sabemos disso. Eu, por
vezes, gosto de ficar
a um canto a brincar à
infância, sem fingir
preciso de me distrair deles. Para
sobreviver
a uma existência zangada, coisa que não é para mim,
pois cansa sem consumir
as energias devidas, de
vidas
leva os restos de dia pelo cano abaixo.
Há já algum tempo, recusei as preposições
de passar pela vida de forma incompatível
com o meu corpo. E não me confundo
com teorias tortas no
hedonismo.
II. Crítica das Certezas
Em parecendo que estou cheia de
certezas,
não estou,
e estou, obviamente.
Faz parte a contradição,
para que seja equilibrado
e seguro,
porque é mesmo de segurança que
falo.
E da amabilidade e da ideologia.
E de sinceridade e da ideologia dela.
E do adormecimento e da
pretensão
de
se ser
um
ser acordado.
E da mediocridade que, obviamente,
tu
que lês
não tens.
E dos poetas, que também eles usam
deus.
E, em exemplo de certeza: as
teorias radicais
jamais
nos podem
garantir deus, pai,
também elas têm um buraco, e é um buraco
que vem tocar directamente, sem
desvios,
nos nossos
corpos.
E eu,
isso, não deixo
que aconteça.
III.
Afirmação
Antes a morte.
E é uma pequena morte
que acontece
naquele momento em que, conversando
com alguém
que destapa o véu,
e, depois de uns segundos de
impasse,
somos forçados a optar
por uma das hipóteses:
fazermo-nos de parvos;
sorrir sem aceder;
marcar posição.
IV. Ludo
Nunca fui muito boa com jogos.
Talvez me safe em jogos de “palavras
proibidas”
mas isso está justificado pela deformação
profissional no que respeita uma
certa ginástica
lexical.
Portanto, acreditem, nunca fui muito boa
com jogos.
Acontece que nos exprimimos mal
– nós, os maus a jogar,
ao dizer
correntemente “não sou bom (ou boa)
com jogos”.
E creio
que, alguns jogadores não
entendem
isso,
o que os deixa em desvantagem. Nós
até podemos ser bons
”com”
jogos, não somos bons
é a jogar
propriamente, no campo de
batalha
somos uns nabos
mas isso não quer dizer que não sejamos
bons
na análise do jogo, por exemplo.
Ou seja,
e indo
ao cerne da questão:
sou boa a analisar jogos, e provavelmente
só não sou boa
a jogar porque é enfadonho.
Medir forças é
chato, é uma seca.
(e ninguém é bom juiz em causa própria)
(e ninguém é bom juiz em causa própria)
V. Abstracção
Confesso que até o
entretenimento de observar
pessoas a medir forças
se tornou demasiado batido.
E é verdade que encontro
poucas zonas humanas
isentas de competição.
VI. Ciúme
Começando pelo fim:
até nas artes, ladies and gentlemen,
até nas artes, se medem forças.
Ou antes: ladies
and gentlemen,
começando pelas artes.
VII. Ciência
Dirão os teóricos das medições
de forças
que estas são o mote da evolução, do seu crescendo.
Mas ‘inda não cheguei
a uma lógica que sinta
nas peles do meu
corpo. Quando muito, sinto
na minha mesquinhez, mas passa
tão rápido. É tão efémera a
vitória.
VIII. Imaginários e cisma
Ou seja, não quero ganhar – nada
– a ninguém.
Ou, para ser mais honesta e menos hipócrita,
não quereria
ganhar
– nada
– a ninguém.
Sem ter
de estar
no meu canto
a evitar
o confronto, desejaria poder mover-me
sem ter de fazer o silêncio que faço
quando alguém
tenta velar um triunfo a que se declara.
Chega a ser
cá
duma canseira ter de fingir
duma canseira ter de fingir
que sim,
que ganhaste
a tua batalha imaginária.
Tu ou ele, aqueloutro, daqui e
dali.
XIX. Preferências
Enfim, tudo isto para explicar porque é
que,
tu – tu mesmo, exacto,
és a minha pessoa preferida: tu
– tu mesmo, não jogas.
E isto sem falar dos “porque” que se podem ler
no poema da Sophia,
acrescido
de mais alguns
que logo te direi. Para o caso
de não saberes,
mais logo tos direi.
E és a minha pessoa
preferida.
Contigo não tenho de
estar no canto
(nem, muito menos, chutar para
canto).
Não se trata de baixar armas,
como quem fala de defesas. Não
é um baixar
da guarda
temporário, onde jogos são
logo-logo retomados.
Tu, simplesmente, não jogas.
E eu, simplesmente, divirto-me a aprender-te.
É verdade
que fico embaraçada por ver o
engano nalguns
que até a palavra
“imberbe” podem tentar
incluir nessa sintaxe. Por
vezes, ficamos
embaraçados
pelos outros, não é? É possível este exercício
de estimar dias pelo embaraço
que outros causem em nós:
que outros causem em nós:
se é um dia
com poucos embaraços, esteve-se bem rodeado;
se é um dia com muitos
embaraços, urge chutar para canto.
X. Feitio
E esta inspiração toda a somar parágrafos
sobre os radicais e os jogos e os chutos,
onde muitos já se perderam, para
dizer que não
há como:
chegar a casa ao final do dia, mandar cantar um cego
e mandar calar
os energúmenos
que se dão ao
luxo de desprezar o conforto
garganteando
o seu negócio cheio dele,
do ócio,
afinal;
chegar onde me trazes uma casa
onde posso atentar
aos misóginos
do sexo
aluado sem
potência, por isso mesmo,
aluado;
chegar onde me trazes a
inteligência
que ris para
dentro das palavras
dos que
gostam de dizer
“imberbe”,
e estar nessa
casa onde me acordas
para dentro
da verdade que, explicas-me,
os que dizem
“imberbe” fazem-no
por feitio,
não por defeito;
e depois,
saber que é por isso
que não pode
haver lugar
para o
radicalismo
e peço
desculpa à humanidade
por me
distrair amiúde;
XI. Um pouco mais de conciliação
peço desculpa;
desculpa-me;
e eu desculpo, em nome da humanidade;
eu desculpo; (sem
voltar a embaraçar-me
pelos
outros, por outros, e, oh,
eis
o embaraço por mim)
(que
desculpo, me)
XII. Apelidar o lugar
não há como chegar a uma casa e não ter de
acender um
lume radical
porque
o fogo,
o fogo
é a
fraternidade e,
sem saber se
poucos,
haveremos de
ser muitos
atentos
guardiães do
fogo
o seu nome: confiança.
POEMA CONSTITUINTE
(Escrito em 1979 para o 3º Aniversário da Constituição)
por E. M. de Melo e Castro
in Revista Vértice 59 / Março -Abril 1994
via Carlos Veríssimo, no Facebook
A Constituição constitui-se de homens e mulheres
cidadãos com a mesma
dignidade social
iguais perante a lei
A Constituição constitui-se de homens e mulheres
antes de se estruturar
em Títulos
Capítulos
Artigos
Alíneas
A Constituição constitui-se pela vontade popular
Empenhada livremente
na transformação da sociedade portuguesa
numa sociedade sem classes
A Constituição constitui-se por dentro dos braços
e das cabeças
dos homens e das mulheres livres
que constroem o socialismo
dia a dia
antes de ele ser o Artigo 2º da Constituição
pela via democrática
A Constituição constitui-se de avanços projectos e lutas
no coração
que não admite recuos
nem abdica
do futuro
A Constituição constitui-se da força organizativa
dos que acordam
todos os dias
com um novo intento de viver
porque possuem em si próprios
a soberania
una
indivisível
A Constituição constitui-se dos direitos dos trabalhadores
não distinguindo
idade raça religião
ideologia
com direito ao trabalho
e à retribuição
sem aviltamento
sem exploração
com direito
à existência condigna
à realização pessoal
à higiene e à saúde
à organização
à segurança
à educação e à cultura
ao repouso
às comissões suas
de trabalhadores
defendendo esses seus interesses
e outros
A Constituição constitui-se de consciências livres
antes de se cristalizar
nas palavras e nas frases
num documento lei
A Constituição constitui-se da liberdade de escrever
essas palavras
da obrigatoriedade de cumpri-las
porque longos anos circularam
interditas
no sangue livre
do povo soberano
A Constituição constitui-se das palavras
com que se escrevem os poemas
(como este)
que todos têm direito
de produzir
exprimir
divulgar
já que pela palavra
são a criação do pensamento
pela imagem
são a materialização da comunicação
por todos os meios
são a circulação da informação
a que todos os homens e mulheres
têm direito
sem impedimentos
nem descriminações
E porque
todos esses direitos
não podem ser impedidos
por qualquer tipo
de censura
a voz soberana do povo
digno e verdadeiro
far-se-á ouvir
defendendo
e
constituindo a Constituição!
Depois agora
E depois?
Morram as vacas e morram os bois?
Na idade parva de não saber
apalavrar a limitação - do nosso entendimento,
respondíamos
que morriam
as vacas se ficavam os bois.
Hoje, continuamos a fazer
o mesmo, com o toque
da sobranceria incauta.
E depois? Depois? Agora.
Sou cientista e filmei
pela primeira vez
a orca
branca
adulta.
Um feito inédito.
Nenhum homem,
nenhuma mulher,
até hoje
(agora)
tinha captado a orca
branca
adulta
em filme.
E depois? Depois?
Agora, estou sempre
de regresso a casa, à vida,
na vida. Esta poesia nova
– filmar pela primeira vez a orca branca adulta,
não se basta.
É preciso dizer: Mário, eu sei!
o nosso dever. Entre nós e as palavras.
E depois? Depois? Fazemos uma festa
com poesia e comida
para os pobrezinhos
e dormimos com um sorriso
estampado na tromba.
E até podemos ir a África
e ficar mais felizes
ainda. Mais felizes,
cada vez mais felizes.
Oh, como é bom
haver quem precise de nós.
Nós: pessoas com bom fundo,
sem erros de cálculo ou precisão
apenas, um pouco distraídos
de Abril, em Abril.
Morram as vacas e morram os bois?
Na idade parva de não saber
apalavrar a limitação - do nosso entendimento,
respondíamos
que morriam
as vacas se ficavam os bois.
Hoje, continuamos a fazer
o mesmo, com o toque
da sobranceria incauta.
E depois? Depois? Agora.
Sou cientista e filmei
pela primeira vez
a orca
branca
adulta.
Um feito inédito.
Nenhum homem,
nenhuma mulher,
até hoje
(agora)
tinha captado a orca
branca
adulta
em filme.
E depois? Depois?
Agora, estou sempre
de regresso a casa, à vida,
na vida. Esta poesia nova
– filmar pela primeira vez a orca branca adulta,
não se basta.
É preciso dizer: Mário, eu sei!
o nosso dever. Entre nós e as palavras.
E depois? Depois? Fazemos uma festa
com poesia e comida
para os pobrezinhos
e dormimos com um sorriso
estampado na tromba.
E até podemos ir a África
e ficar mais felizes
ainda. Mais felizes,
cada vez mais felizes.
Oh, como é bom
haver quem precise de nós.
Nós: pessoas com bom fundo,
sem erros de cálculo ou precisão
apenas, um pouco distraídos
de Abril, em Abril.
vês o que acontece se tento aproximar-me da poesia?
Nudez
A pressa
com que te despes
Nem na alma te apetece
qualquer veste
A pressa
com que te despes
Até da carne e da pele
se pudesses
A pressa
com que te despes
Nem na alma te apetece
qualquer veste
A pressa
com que te despes
Até da carne e da pele
se pudesses
David Mourão-Ferreira
azeite versus óleo
Comi um pastel de bacalhau
que me enganou. A sua imagem
fazia-me adivinhar um belo momento
a folhear o jornal
intercalando
pastel de bacalhau e café.
Mas não,
alguém colaborou para me estragar
o momento,
ao tocá-lo com os lábios, senti o óleo
velho, olhei-o de frente
reparei:
tinha bacalhau de verdade
(para além da batata, bem se vê).
Comi-o todo. Todo.
Se descubro quem me anda a encher
de óleo velho e rançoso,
respondo por mim.
que me enganou. A sua imagem
fazia-me adivinhar um belo momento
a folhear o jornal
intercalando
pastel de bacalhau e café.
Mas não,
alguém colaborou para me estragar
o momento,
ao tocá-lo com os lábios, senti o óleo
velho, olhei-o de frente
reparei:
tinha bacalhau de verdade
(para além da batata, bem se vê).
Comi-o todo. Todo.
Se descubro quem me anda a encher
de óleo velho e rançoso,
respondo por mim.
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