sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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(Mantém o equilíbrio.)

Todos os dias digo, sussurrando,
mantém o equilíbrio. Tudo espreita,
tudo assusta, a vida inteira pende-te
de um frágil fio e de uma sorte injusta.
A tua vontade não pode muito.
Não percas pé. Mantém o equilíbrio.

Amalia Bautista, Estou Ausente
Averno
quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolvendo-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza

e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta o coração
esse
solitário caçador

Al Berto in O Medo

o fulgor do metal entorpece as promessas
                           dos amantes
fundes todos
e manejas essa espada
como a última garrafa de gin
e emborcas tudo num trago

Carlos Veríssimo
Outro Corpo Cru
Edições Besouro, 2013

You are welcome to Elsinore

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim, 1957

SÚMULA


Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Hélder
in Ou o Poema Contínuo
Assírio e Alvim, 2001

2.

tombo as carnes – sinto-as escorrer dos ossos
e o mar ressoa na minha cabeça como uma imensidão
de noites: Ah, as noites pétreas e pesadas
que impossíveis nuvens não sustentam
e dunas que dormem à noite ao luar
quando gostaria de anunciar a vaga toda
que rompe dentro de mim violenta
como todas as vagas, mesmo as mansas
e brandas que trazem a persistência da erosão.

Carlos Veríssimo
A fuga do peixe melancólico
edição de autor, 2012

Apanhado em fragrâncias

cinzelar a burrice juvenil
entontecido na melancólica bicicleta
percorrias

os frios provinciais cuidando
distinguir uma pontinha já de Primavera; em vez dela tombavas
no incalculável prejuízo dos versos, moléstia à parte
e na estação errada

sempre as laranjeiras flóreas, cúmplices
caladas na incumbência de produzir a imperceptível alegria
que recendia sem parar na fiada odorífera das ruas
também o lumaréu dos limoeiros

desprendendo
cheiros que portões de ferro, caiados muros
puderam nunca aquartelar

e em Lisboa, apeado no imaturo homem
bárbaro, barbado em que te mudaste, a fumarada das sardinhas
avioletou na doçura dos jacarandás; o sexo
agora vezo e hálito, exala a ácida variedade
que nunca te nauseou

depois os europeus odores, centrais
ou varado nos velhos comboios do Leste
porcos, gastos, alvoroçados

lavatórios do mundo onde lavaste as cuecas
evitando tocar nos ralos

tudo para chegar hoje a uma ideia de Índia
suposta, sonhada, odor infindável de um sem-fim
perfumado, onde pudesses compreender

a colorida arquitectura do ar
a suave dimensão da espessura
a girar no vazio um dia inteiro


Miguel Manso
livro em preparação, 2012

Paraíso Perdido

É o bibe é a trança
a lisura da anca
a doçura da pele a pastel de nata

Os dedos erguidos num aceno
de esperança
o sonho onde o lince lhe devora a ilharga

É a mãe sem saber
quanto o belo lhe pesa
a avó a arranjar o pão com marmelada

O sino que ao longe
diz da missa e da reza
na igreja onde sempre entrará aterrada

É a gola de renda a picar
no pescoço
o livro lido às escondidas

As histórias escritas no caderno
e o osso
do corpo voraz onde a vida se afirma

É o medo do escuro
porque o quarto vacila
uma noz uma nau no peito em alvoroço

A paixão de organdi
quando a rosa retira
o espinho envenenado do avesso suposto

É o gosto do verso
seduzindo a insónia
alinhavo da alma com bastante amargura

O sabor derramado
a gardénia e no bolso
o cheiro a glicínia ou a coisa nenhuma

É o nervo à flor
de um suor resguardado
debaixo dos braços ou então nas virilhas

Os pulsos estreitos
os joelhos suaves
frutos de uma magreza talvez doentia

É a história inventada
que a culpa condena
o poço da morte só de madrugada

A febre que a toma
e valseia com ela
a aperta nos braços e a deixa quebrada

É o som e o susto
a torpeza do hálito
a lâmina furtiva onde o gesto se afia

A cicatriz da fuga
porque o fio vem doendo
fazendo-a teimar como quem desafia

É o suco o vacilo
o caroço do cuspo
na palma das mãos que o tempo confirma

O sol da manhã a acordá-la de súbito
fazendo-a recordar tudo aquilo
que queria

É o extremo vagar que a memória conhece
mais tarde o abandono
a deixá-la sozinha

Paraíso perdido
com a pressa onde cresce
a tornar-se mulher sendo ainda menina


Maria Teresa Horta
fonte
24.

agarro-me
ao trono

alguma coisa falta ainda

para sonhar ou esquecer
sob um manto de chuva
ácida

lá estarei
uma vez mais.


Carlos Veríssimo
O peixe melancólico
edição de autor, 2012

A matéria das palavras [às portas de (mais) um novo dia]


Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
                                                       perfeição

especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.


Ana Hatherly
Pavão Negro
Assírio & Alvim, 2003

Facto diverso


Discretamente fui ontem almoçar
ao lado do meu tumulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava lá em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)

Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito

Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma búlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença leal e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária

e sentámo-nos

à esquerda Cesariny
recém-chegado de beber uma cerveja no Inferno
à direita o Erol Isin
recém-fugido dos lobos de Istambul
onde para urinar se caminha entre a neve
com uma Luger na mão
e um aviso no sexo (PROIBIDO DEVORAR)

e olhámos
o elevador de Santa Justa parecia indicar
a verticalidade rápida de menos dois tostões
noticiando o Tejo e a sua ponte
(muito para mostrar aos do Brasil e de Lesoto)
Lisboa (António Maria) sentou-se ao nosso lado
Sentados
Todos sentados e continuando a respeitar as leis
ficámos
a ouvir o noticiário meteorológico
Campo de Ourique algumas nuvens com precipitação provável
Rua do Norte alta pressão isobárica
Rocio o costume
Cais do Sodré frente fria em evolução
com alguns barcos para o Barreiro e muitos nabos
abrimos
uma lata de enchovas
esfregámos os pés no azeite (enlatado de exportação)
e alimentámo-nos confortavelmente
enquanto escrevíamos cartas
à família mais próxima é evidente
e tentávamos absorver
através das palhinhas made in Japan
alguns tragos de vinho do Cartaxo
recém-desembarcado do vapor

Lembras-te menina
Como foram rigorosas
as nossas noites de amor?


É preciso não esquecer que o processo de crescimento
da humanidade
é metálico
daí os fornos crematórios
e os vários campos de concentração mais ou menos repelentes
Sentados olhávamos

Um gato sorriu atrás da porta e espreguiçou-se
escreveu taquigraficamente um salto no espaço
e propôs-nos um jogo de encontrar
depois seguiu a aventura de ser ele

A rua da Palma parecia uma mentira inesperada
enquanto assávamos sardinhas e pimentos na escada de pedra
e alguém dava um pontapé numa bola de trapos
que rolava para a praça seminocturna

Escrevemos mais cartas
desta vez aos amigos distantes
e a alguns membros das polícias excessivamente secretas
que tentam decifrar a grafia do voo dos pássaros

Lembras-te
quando partiste?
Levavas um casaco muito branco
e enquanto pisavas os degraus
sorrias
como uma navalha de Albacete

Os automóveis passavam com procissão obsessiva
anunciando apenas um dia febril
enquanto pessoas muito pessoas
pernas dedos dentes
traçavam no solo o diagrama
de mais uma tentativa simplesmente quotidiana

As ruas deslizavam calmas
como quem volta do teatro e vai dormir
Animoglu Sok
Gonçalves Crespo
New Oxford
Gorki
Gregoire-de-Tours
Animoglu Gonçalves Oxford Gorki-de-Tours

Só uma rua imensa possessive
mostrando caminho até ao fundo do espaço
com sinais cabalísticos em cada esquina
e cartazes ofertando maravilhas
cigarros congressos políticos preservativos requintados
sabonetes retratos de assassinos
circos de cavalinhos aguardentes antiquíssimas
máquinas de computar a morte
lutas de mulheres laxantes infalíveis
Sorrimos
O Cesariny levantou-se à minha esquerda
e partiu para mais uma cerveja no Inferno
o Erol Isin à minha direita ergueu-se
e lá se foi
voltando a um Bósforo cor de corno e mar
só o Lisboa
metendo um cágado no bolso
e dando a mão a um menino
ficou à minha espera

mas não me levantei
não tenho pernas

Lembras-te
como amei Fipsy?
Deves contar isso a alguém
Fica-te bem.




Novembro – 69

Poema de Mário Henrique Leiria a acompanhar carta enviada a Mário Cesariny em 1970
(primeira publicação do poema, na revista surrealista holandesa «Brumes Blondes», número 3, 1972, en versão francesa de Isabel Meyrelles)
in António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Henrique Leiria – Três Poetas do Surrealismo, Exposição Ícono-Bibliográfica,org. de Mário Cesariny
Biblioteca Nacional, Lisboa, 1981

[post surripiado na íntegra]

pessoa e local assaltado: no

Conversas

Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta à noite.
Muitos temem mais as suas fobias do que a própria morte.
O vítreo Rei de França temia quebrar-se.
Os eunucos chineses mantiveram os seus túbaros em espírito.

O teu cérebro pode sangrar num único espirro.
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta quando se inclina,
o Donald Duck foi uma vez expulso da Finlândia
por não usar calças.

As suas patas eram só penas como as da Margarida
mas nenhuma avestruz enterrou a cabeça na areia.
A cura do escorbuto foi encontrada
para logo se perder ao longo das teorias médicas.
O Começo é um estático som branco.

A lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e lémures e macacos capuchinhos
dão uma centopeica volta até desaparecerem
nas suas poderosas secreções.

O coração de um esplendoroso cavalo abranda.
Um facto é uma pequena fé,
uma leve impressão sensorial para animais, poderosa para os homens
mesmo que seja verdadeira, mesmo quando verdadeira –
nós lemos estas leis em Isaac Neurónio.

Uma mulher teve sessenta e nove filhos.
Alguns leões acasalam cinquenta vezes ao dia.
Napoleão era viciado em vitórias.
Uma lua-cheia nasce sempre ao pôr-do-sol.
Os soldados podem agora seguir o caminho de casa.

Les Murray (Austrália, 1938)
in Taller When Prone (2010)

(tradução da Ana Salomé)


Enquanto a meu lado dormes

Gustav Klimt, A Árvore da Vida, 1909
por


Enquanto a meu lado dormes e, como de hábito, tens pesadelos
da minha boca sobe um balão de ar quente por onde fugimos os dois até ser claro
e a noite ser brincadeira de espuma na rebentação dos cabelos
O sono pérfido, nocturna suppressio, não te inquietará mais
do que a infinitesimal passagem do insecto pelo tempo
Guardiã dos espelhos das tuas mãos
conto-te coisas que minha mãe já ouviu contar
Damas pé-de-cabra e um ancinho aplanando as terras jardinadas
a vez em que me abriram uma cova e prestes a morrer
fui descalça correndo em tua direcção
ainda tu não existias
e o amor era um cavalo de muitas cores.






para ti :)*

Cat People


Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.


Margarida Vale de Gato
Mulher ao Mar, Mariposa Azual Lisboa, 2010.

a pessoa e divindades num tempo, num espaço, numa forma

(estar atenta, ou, porque não estou sozinha: estarmos atentos)

I. Teorias
O emergir de grupos radicais em tempos         de tumulto
é          um fenómeno               esperado,         óbvio,              de fácil
implementação.                        Ao contrário das dúvidas
que nos assolam                     em provérbios face às bruxas,
estes existem.                                      Sempre existiram,
mais ou menos assumidos,     são nossos vizinhos.                 Todos
sabemos disso.            Eu,       por vezes,                    gosto de ficar  

a um canto       a brincar          à infância,                    sem fingir
preciso de me distrair   deles.               Para sobreviver
a uma existência                     zangada,          coisa que não é para mim,
pois cansa                              sem consumir
as energias       devidas,        de vidas
leva os restos                         de dia              pelo cano abaixo.

Há já algum tempo,                 recusei as preposições
de passar pela vida                 de forma          incompatível
com o meu corpo.                   E não me confundo
com teorias      tortas              no hedonismo.

II. Crítica das Certezas
Em parecendo que estou cheia de certezas,
não estou,
e estou,                                   obviamente.
Faz parte         a contradição,
para que seja equilibrado
e seguro,
porque é mesmo de segurança que falo.

E da amabilidade         e da ideologia.
E de sinceridade          e da ideologia dela.
E do adormecimento                                     e da pretensão
                                                                       de se ser
                                                                       um ser              acordado.
E da mediocridade       que,                           obviamente,
tu
que lês
não tens.
E dos poetas, que também eles usam deus.
                                                                      

E, em exemplo de certeza: as teorias radicais
jamais
nos podem garantir deus,                                 pai,
também elas têm um buraco, e é                      um buraco
que vem tocar directamente, sem desvios,
nos nossos corpos.

E eu,
isso,                             não deixo
que aconteça.

III. Afirmação
Antes a morte.

E é uma pequena morte
que acontece
naquele momento                     em que, conversando
com alguém
que destapa                 o véu,
e, depois de uns segundos de impasse,
somos forçados           a optar
por uma das hipóteses:

fazermo-nos de parvos;
sorrir sem aceder;
marcar posição.

IV.  Ludo
Nunca fui muito boa com jogos.

Talvez me safe em jogos          de “palavras
      proibidas”

mas isso está justificado           pela deformação
profissional no que respeita uma certa    ginástica
   lexical.
Portanto,                     acreditem,        nunca fui muito boa
com jogos.

Acontece que nos exprimimos mal

– nós, os maus a jogar,

ao dizer
correntemente              “não sou bom (ou boa)
       com jogos”.
E creio
que,     alguns jogadores          não entendem
isso,
o que os deixa                         em desvantagem. Nós
até podemos ser bons
”com”
jogos,                                      não somos bons
é a jogar
propriamente,                                      no campo de batalha
somos uns nabos
mas isso                                  não quer dizer que não sejamos
        bons
na análise do jogo, por exemplo.          Ou seja,
e indo
ao cerne da questão:
sou boa a analisar jogos, e provavelmente
só não sou boa a jogar porque é enfadonho.
Medir forças é chato, é uma seca.

          (e ninguém é bom juiz em causa própria) 

V.  Abstracção
Confesso que até o entretenimento de observar

pessoas a medir            forças
se tornou demasiado    batido.
E é verdade que        encontro
poucas       zonas    humanas
isentas            de competição.

VI.  Ciúme
Começando pelo fim:
até nas artes,                ladies and gentlemen,
até nas artes,                se medem forças.
Ou antes:                      ladies and gentlemen,                       
começando pelas artes.

VII.  Ciência
Dirão os teóricos das medições
de forças
que estas são               o mote da evolução,                            do seu crescendo.

Mas ‘inda não cheguei
a uma lógica                 que sinta
nas peles do meu

corpo. Quando muito, sinto
na minha mesquinhez, mas passa
tão rápido. É tão efémera a vitória.

VIII. Imaginários e cisma 
Ou seja, não quero ganhar – nada – a ninguém.

Ou, para ser mais                    honesta e menos                      hipócrita,
não quereria
ganhar
– nada
– a ninguém.

Sem ter
de estar
no meu canto
a evitar
o confronto,                 desejaria          poder   mover-me
sem ter de fazer           o silêncio         que faço
     quando alguém
tenta velar um triunfo                a que se declara.

Chega a ser
      cá
      duma canseira             ter de fingir
que sim,
que ganhaste
a tua batalha imaginária.

Tu ou ele, aqueloutro, daqui e dali. 

XIX.  Preferências
Enfim, tudo isto para explicar   porque             é          que,
tu – tu mesmo, exacto,
és a minha pessoa                    preferida: tu
tu mesmo, não jogas.

E isto sem falar dos      “porque”      que se podem ler
no poema da Sophia,
acrescido
de mais alguns
que logo te direi. Para o caso
de não saberes,
mais logo tos direi. 

E és a minha pessoa
         preferida.

Contigo            não tenho         de estar no canto
(nem,   muito menos, chutar     para canto).
Não se trata de baixar armas,
como quem fala de defesas. Não
é um baixar
da guarda
temporário,        onde                       jogos são logo-logo retomados.

Tu,       simplesmente,   não jogas.
E eu,    simplesmente,   divirto-me        a aprender-te.
É verdade
que fico embaraçada por ver o engano            nalguns
que até a palavra
“imberbe”        podem tentar
incluir nessa sintaxe. Por vezes, ficamos
embaraçados
pelos outros,                não é? É possível este exercício
de estimar dias                                 pelo embaraço
que outros causem em nós: 
se é um dia com poucos embaraços, esteve-se bem rodeado;
se é um dia com muitos embaraços, urge chutar para canto.

X. Feitio  
E esta inspiração toda a somar parágrafos
sobre os radicais          e os jogos        e os chutos,
onde muitos já se perderam, para dizer que não
há como:

chegar a casa ao final do dia,            mandar cantar um cego
e mandar calar os energúmenos
que se dão ao luxo de desprezar o conforto
garganteando o seu negócio cheio dele,
do ócio, afinal;

chegar onde me trazes uma casa
onde posso atentar
aos misóginos do sexo
aluado sem potência, por isso mesmo,
aluado;

chegar onde me trazes a inteligência
que ris para dentro das palavras
dos que gostam de dizer
“imberbe”,
e estar nessa casa onde me acordas
para dentro da verdade que, explicas-me,
os que dizem “imberbe” fazem-no
por feitio, não por defeito;

e depois, saber que é por isso
que não pode haver lugar
para o radicalismo
e peço desculpa à humanidade
por me distrair amiúde;

XI.  Um pouco mais de conciliação
peço desculpa;

desculpa-me;

e eu desculpo,                         em nome da humanidade;

eu desculpo;                                       (sem voltar a embaraçar-me
                                                           pelos outros, por outros, e, oh,
                                                           eis o embaraço por mim)
                                                           (que desculpo, me)

XII. Apelidar o lugar
não há como chegar a uma casa           e não ter de
acender um lume radical         
porque           
o fogo,
o fogo
é a fraternidade e,
sem saber se poucos,
haveremos de ser muitos
atentos
guardiães do fogo       

o seu nome:     confiança.

POEMA CONSTITUINTE


(Escrito em 1979 para o 3º Aniversário da Constituição)
por E. M. de Melo e Castro
in Revista Vértice 59 / Março -Abril 1994
via Carlos Veríssimo, no Facebook

A Constituição constitui-se de homens e mulheres
cidadãos com a mesma
dignidade social
iguais perante a lei

A Constituição constitui-se de homens e mulheres
antes de se estruturar
em Títulos
Capítulos
Artigos
Alíneas

A Constituição constitui-se pela vontade popular
Empenhada livremente
na transformação da sociedade portuguesa
numa sociedade sem classes

A Constituição constitui-se por dentro dos braços
e das cabeças
dos homens e das mulheres livres
que constroem o socialismo
dia a dia
antes de ele ser o Artigo 2º da Constituição
pela via democrática

A Constituição constitui-se de avanços projectos e lutas
no coração
que não admite recuos
nem abdica
do futuro

A Constituição constitui-se da força organizativa
dos que acordam
todos os dias
com um novo intento de viver
porque possuem em si próprios
a soberania
una
indivisível

A Constituição constitui-se dos direitos dos trabalhadores
não distinguindo
idade raça religião
ideologia
com direito ao trabalho
e à retribuição
sem aviltamento
sem exploração
com direito
à existência condigna
à realização pessoal
à higiene e à saúde
à organização
à segurança
à educação e à cultura
ao repouso
às comissões suas
de trabalhadores
defendendo esses seus interesses
e outros

A Constituição constitui-se de consciências livres
antes de se cristalizar
nas palavras e nas frases
num documento lei

A Constituição constitui-se da liberdade de escrever
essas palavras
da obrigatoriedade de cumpri-las
porque longos anos circularam
interditas
no sangue livre
do povo soberano

A Constituição constitui-se das palavras
com que se escrevem os poemas
(como este)
que todos têm direito
de produzir
exprimir
divulgar
já que pela palavra
são a criação do pensamento
pela imagem
são a materialização da comunicação
por todos os meios
são a circulação da informação
a que todos os homens e mulheres
têm direito
sem impedimentos
nem descriminações

E porque
todos esses direitos
não podem ser impedidos
por qualquer tipo
de censura

a voz soberana do povo
digno e verdadeiro
far-se-á ouvir
defendendo
e
constituindo a Constituição!

Depois agora

E depois?
Morram as vacas e morram os bois?

Na idade parva de não saber
apalavrar a limitação - do nosso entendimento,
respondíamos
que morriam
as vacas se ficavam os bois.

Hoje, continuamos a fazer
o mesmo, com o toque
da sobranceria incauta.

E depois? Depois?                Agora.

Sou cientista e filmei
pela primeira vez
a orca
branca
adulta.

Um feito inédito.

Nenhum homem,
nenhuma mulher,
até hoje

(agora)

tinha captado a orca
branca
adulta
 em filme.

E depois? Depois?

Agora, estou sempre

de regresso a casa, à vida,
na vida. Esta poesia           nova
– filmar        pela primeira vez a orca branca adulta,

não se basta.

É preciso dizer:    Mário, eu sei!
o nosso dever.                Entre nós          e as palavras.
E depois? Depois?        Fazemos uma festa

com poesia e comida
para os pobrezinhos
          e dormimos com um sorriso
estampado na tromba.
          E até podemos ir a África
          e ficar mais felizes
ainda.          Mais felizes,
cada vez mais       felizes.
Oh, como é bom
haver quem precise de nós.

Nós:  pessoas com bom fundo,
sem erros de cálculo ou precisão
     apenas,    um pouco distraídos
de Abril, em Abril.

vês o que acontece se tento aproximar-me da poesia?



Nudez

A pressa
com que te despes

Nem na alma te apetece
qualquer veste

A pressa
com que te despes

Até da carne e da pele
se pudesses


David Mourão-Ferreira

azeite versus óleo

Comi um pastel de bacalhau
que me enganou. A sua imagem
fazia-me adivinhar um belo momento
a folhear o jornal
intercalando
pastel de bacalhau e café.
Mas não,
alguém colaborou para me estragar
o momento,
ao tocá-lo com os lábios, senti o óleo
velho, olhei-o de frente
reparei:
tinha bacalhau de verdade
(para além da batata, bem se vê).
Comi-o todo. Todo.
Se descubro quem me anda a encher
de óleo velho e rançoso,
respondo por mim.