sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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post encriptado e cobardia(isto já vai passar, haja fé!) [ Loosing my religion ][ That's me in the corner ][ And I don't know if I can do it ]

Ontem fiz uma viagem de carro mais longa que o habitual, na rádio passaram esta canção, o volume subiu aos limites e dei por mim a cantar com afinco. A canção acabou e vociferei num lamento assumido: too much work and no fun makes Margerete a dull gal. Pois é. Doeu. Entrou uma pedrinha na minh’alma. Num instante, o cansaço veio espicaçar-me os olhos, distraindo da dor a fracção do meu ego que se dedica à pândega, que abri tanto quanto pude para continuar viagem, atenta e alinhada.
À noite, fiz a discriminação mental de cada uma das actuais fontes deste maldito que tem tomado conta de mim.
Pode haver (que há) aumento de trabalho e também de outras actividades extra-trabalho. Sim, isso ajuda bastante-muito ao cansaço que começa a sobejar. Depois, as naturais dificuldades de cada um que levam a certa angústia (eu sei, eu sei: trazer uma aflição dentro do peito, é da vida um defeito que se extingue com a razão*, mas que posso eu fazer se a minha razão começa tão longe da emoção?), no meu caso, por exemplo, a crescente dificuldade em manter-me organizada (quem me viu e quem me vê… ai ai [suspiro] era uma moça tão alinhadinha com as papeladas!).
Há também as variações esquizofrénicas das condições climatéricas que não ajudam, pois… A época do ano típica de esgotamentos pré-férias e tal e coisa…
E ouvimos dizer de fadigas crónicas, burnout e outras maleitas.

E vêm uns marmanjos falar-nos de coisas. E eu sei (eu tenho obrigação de saber, dizem-me algumas pessoas). Fala-se das milhentas vantagens de. E tal. E coisa. E o diabo a sete. Ah! (E o medo de ficar sem algo que não é.) Enfim, por agora, não me apetece diagnósticos, mas uma coisa é certa: puseram-me a pensar neste imbróglio como não pensava há muito tempo e acho que vou arranjar lenha para me queimar!

Dedicado: para o Pedro e para a Menina-Alice
… seus patifes! :)


enfim... cantemos, irmãos, que é fim de semana, weeeee!

Life is bigger
It's bigger than you
And you are not me
The lengths that I will go to
The distance in your eyes
Oh no I've said too much
I set it up

That's me in the corner
That's me in the spotlight
Losing my religion
Trying to keep up with you
And I don't know if I can do it
Oh no I've said too much
I haven't said enough
I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try

Every whisper
Of every waking hour
I'm
Choosing my confessions
Trying to keep an eye on you
Like a hurt lost and blinded fool
Oh no I've said too much
I set it up

Consider this
The hint of the century
Consider this
The slip that brought me
To my knees failed
What if all these fantasies
Come flailing around
Now I've said too much
I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try

But that was just a dream
That was just a dream


Loosing My Religion, R.E.M.



photo dali, via Lebre
* Caetano Veloso na canção Chuvas de Verão

[ Post-Scriptum ]

tão jeitosinha que ela era. tão boa rapariga. nunca deu dores de cabeça aos pais. chegou sempre a horas a casa. era para aí a 2ª ou 3ª melhor aluna da turma. acabou nos anos devidos um curso de status. empregou-se e comprou logo uma casinha (apartamento) muito jeitosinha (assim como ela). era assídua e pontual. tinha duas contas no banco – numa depositava o cheque do ordenado e orientava-se para, na outra conta, depositar um montante certo todos os meses, esse montante seria o seu pé-de-meia. era mesmo uma rapariga muito atiladinha. os vizinhos dos pais perguntavam-lhes sempre pela Gracinha. "então… ? como está a nossa Gracinha?" o tempo foi passando e a Gracinha conheceu um moço. nem por isso mal-jeitoso. mas nada jeitosinho da vida dele. assim para o desorientadito. a Gracinha achou-lhe graça, o que se há-de fazer? as coisas do coração são assim mesmo. não se manda nos sentimentos. lamentou a possibilidade de dar um desgosto aos pais quando oficializou que o seu coração pertencia ao moço. espantou-se da ausência de espanto dos pais. o namoro era a modos que um namoro. o moço parecia ter boas intenções a até lhe dizia que o seu coração era dela. não falava em casamento. Gracinha, por vezes, à noite, na sua cama de lençóis devidamente engomados, arriscava-se lamentar o atraso no pedido de sua mão. mas tanto que gostava do rapaz nem por isso mal-jeitoso, mas nada jeitosinho da vida dele, assim para o desorientadito, tanto, que não arriscava o tema - casamento. mais vale um pássaro na mão do que nenhum a voar. deixou-se andar e manteve-se assídua e pontual no trabalho. as contas bancárias sempre orientadinhas. lamentavelmente, um mal-fadado dia, o moço, o tal rapaz nem por isso mal-jeitoso, mas nada jeitosinho da vida dele, assim para o desorientadito, disse-lhe que seguia para a Nova Zelândia num projecto musical que não podia deixar escapar da sua existência. orientou-se à sua maneira, o moço. Gracinha, assim, viu-se sozinha, sem passarito na mão. Gracinha pensou nos seus pais, eram sexagenários. sexagenários... avançados! despediu-se. vendeu a sua casinha (apartamento) muito jeitosinha, levantou o dinheiro da conta pé-de-meia e voltou para a Vila onde nasceu. chegara o tempo de tomar conta dos papás. chegou a casa. abriu a porta com a sua chave (ainda possuía uma chave de casa dos seus pais, nunca a entregara de volta). encontrou um bilhete que dizia “Gracinha, se vieres cá a casa, deverás reparar que não estamos, fomos numa excursão. voltamos por altura do Natal”. decorria o mês de Julho! o bilhete continha uma nota à laia de Post-Scriptum “não, não é uma excursão para a terceira idade. evidentemente. beijinhos.”. Gracinha meteu-se no carro, decidiu rumar a Marrocos. ao parar nos semáforos, gemeu. um AVC. morreu instantaneamente. não sofreu.



ouro de tolo, Caetano Veloso

[ palavra-chave: quase ]

foi por isso que vim para casa, pintei os lábios, arrastei os móveis de modo a parecer ter um palco no meio da sala e canto agora à medida que sou público. não faz sentido. não cabe na cabeça de ninguém! tudo começou quando o dia começou. não gostei. confesso que não gostei. mesmo. que o sol esteja ausente, enfim, é uma realidade a que temos de nos sujeitar. portanto, vejo-me obrigada a aceitar o dia sem sol. mas que o dia nasça a horas tardias. que a distância tenha a ousadia de ser real. e que eu ainda não tenha sequer uma pista de que existo. não aceito. ora! se senti na pele as cinzas que restam das bandeiras. se tenho a certeza de que vi o velho do rio a fazer jogadas com o cubo mágico. se estou quase certa de que cumprimentei devidamente a mulher que vende tremoços e pevides à porta da igreja. seria lógico que descobrisse uma ou outra pista. porém, não estou tão certa de ter sido uma alucinação o dia em que me sujeitei ao crisma. tenho uma vaga ideia de ter proferido a confirmação de fé. não devo existir. é uma ninharia o espírito que experimento. nem mundo tenho aqui. os jornais parecem brancos de notícias. quase juraria que é uma alucinação. tenho quase a certeza de que estão recheados de boas novas. mas não posso jurar. nem opinar. não vou usar opiniões. fico aqui e canto. farei a vida a cantar. quase juraria. mas não posso jurar. juraria que a pista da minha existência é um som que percepciono. por isso canto. nem por isso me agarro a existir. escrevo estas palavras a cantar. posso cantar.


partido alto, Caetano Veloso