sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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You are welcome to Elsinore

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim, 1957

Apanhado em fragrâncias

cinzelar a burrice juvenil
entontecido na melancólica bicicleta
percorrias

os frios provinciais cuidando
distinguir uma pontinha já de Primavera; em vez dela tombavas
no incalculável prejuízo dos versos, moléstia à parte
e na estação errada

sempre as laranjeiras flóreas, cúmplices
caladas na incumbência de produzir a imperceptível alegria
que recendia sem parar na fiada odorífera das ruas
também o lumaréu dos limoeiros

desprendendo
cheiros que portões de ferro, caiados muros
puderam nunca aquartelar

e em Lisboa, apeado no imaturo homem
bárbaro, barbado em que te mudaste, a fumarada das sardinhas
avioletou na doçura dos jacarandás; o sexo
agora vezo e hálito, exala a ácida variedade
que nunca te nauseou

depois os europeus odores, centrais
ou varado nos velhos comboios do Leste
porcos, gastos, alvoroçados

lavatórios do mundo onde lavaste as cuecas
evitando tocar nos ralos

tudo para chegar hoje a uma ideia de Índia
suposta, sonhada, odor infindável de um sem-fim
perfumado, onde pudesses compreender

a colorida arquitectura do ar
a suave dimensão da espessura
a girar no vazio um dia inteiro


Miguel Manso
livro em preparação, 2012
24.

agarro-me
ao trono

alguma coisa falta ainda

para sonhar ou esquecer
sob um manto de chuva
ácida

lá estarei
uma vez mais.


Carlos Veríssimo
O peixe melancólico
edição de autor, 2012

A matéria das palavras [às portas de (mais) um novo dia]


Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
                                                       perfeição

especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.


Ana Hatherly
Pavão Negro
Assírio & Alvim, 2003

Enquanto a meu lado dormes

Gustav Klimt, A Árvore da Vida, 1909
por


Enquanto a meu lado dormes e, como de hábito, tens pesadelos
da minha boca sobe um balão de ar quente por onde fugimos os dois até ser claro
e a noite ser brincadeira de espuma na rebentação dos cabelos
O sono pérfido, nocturna suppressio, não te inquietará mais
do que a infinitesimal passagem do insecto pelo tempo
Guardiã dos espelhos das tuas mãos
conto-te coisas que minha mãe já ouviu contar
Damas pé-de-cabra e um ancinho aplanando as terras jardinadas
a vez em que me abriram uma cova e prestes a morrer
fui descalça correndo em tua direcção
ainda tu não existias
e o amor era um cavalo de muitas cores.






para ti :)*

nas horas em que te amo *

Isto é muito bonito.

Isto é bonito porque eu olho para isto e sinto o sol na pele, e o amarelo, digo amarelo quando olho para a fotografia, amarelo clarinho. E tenho a certeza de que amarelo clarinho não é piroso e penso que espero que não apareça aí um especialista da qualidade porque não me apetece aturá-los. E mais, tenho mais certezas. Por exemplo, tenho a certeza de que, ao dizer que isto é uma fotografia estou francamente em erro, pois isto é um fotograma.
Isto é um fotograma bonito, passo a explicar: 


enquanto olho esta imagem e à medida que vou sentindo o sol na pele vejo passar uma série de dias possíveis e a música mantém-se de pé e imagino que as minhas mãos cheiram a laranja duma laranja específica que tenhamos apanhado da árvore dois ou três metros atrás ou ao lado e a laranja soube tão bem soube tão bem e guardaste cascas no bolso das calças agora tingidas e vamos falando e com os dedos concentrados vamos partindo cascas em pedacinhos fazendo formas e rindo porque entretanto as formas deram para a risota e eu agora chego à casa bonita e exclamo que são brancas glicínias brancas e tu sorris eu sei que sorris a olhar e eu não meço a luz simplesmente faço passar o rolo e clique espero que saia dali uma fotografia que jamais será aquilo que acabei de ver mas antes uma surpresa afinal um fotograma de onde possamos tirar dias com sol na pele ou a chuva cá fora e quiçá a coragem da chuva mesmo na pele na língua nos nossos corpos a chuva e depois o sol depois da chuva e este fotograma com pingos a cair das folhas e eu a dizer que este amarelo é daquele amarelo clarinho que eu nunca consigo descrever com estas danadas das palavras e que as pessoas terão simplesmente de confiar em mim e fechar os olhos e pensar amarelo clarinho enquanto olham este fotograma e depois fomos embora mas não antes de vir o dono da casa conversar comigo acerca das glicínias e de roseiras de santa Teresinha e nos desejarmos um bom resto de Domingo e regressarmos à rua da casa da tua mãe dos teus pais a tua casa e almoçarmos alguma coisa bem deliciosa que a tua mãe tenha preparado para o nosso almoço com tanto amor com tanto amor que é preciso repetir com tanto amor não por razões de estilo mas de amor o amor de mãe como tenho a certeza de que a tua mãe terá incluído alguma coisa amarelo clarinho no teu enxoval e garanto que esse amarelo clarinho foi de certeza deste e tenho tanta certeza quanta aquela que é certa sem prova dos nove quando me respondes que dois mais dois são três ao mesmo tempo que ouvimos a canção cujo nome diz que dois mais dois são cinco e eu olho este fotograma e digo amarelo clarinho


* título repescado do baú

Azuliante

Helena Almeida



















Este poema é da AIdina


Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho ___e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome ___a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e___ ver no meio do deserto ___ o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito ___ eu sei choverá___ muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa
___cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente

Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabes tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz___ contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre___ o estado
segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente___ meu amor ___ de oriente a ocidente

Digo não___ Eu digo não
digo o teu nome que diz não

No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão
_______________________________________para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos

passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite ___ mil e uma noites de quem espera

Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir

No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase sobre a terra

tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua ___eu a tempestade
de coração a coração
Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos ___e este será o sinal



António José Forte
in Uma Faca nos Dentes

Autografia

Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
eu o pico do Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá
passaram.
E sou, no sentido mais enérgico da palavra
na carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-los semi-mortas à linha
>E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
Carlos Veríssimo por Carlos Veríssimo
em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!



Mário Cesariny
Pena Capital II
pena capital
2ª edição
Assírio & Alvim
1999

melhor do que 71 virgens

Quis imaginar-te meu e o dia foi soberbo na generosidade. O palato foi mais forte, e nós. A cena é ordinária, esta expressão é ordinária, no entanto o espanto. (e o canto sem rima)
Tantos livros
à nossa beira
a sofreguidão.
Uma natureza morta.
(ai! que bom) Fecha tudo, tranca tudo e traz os víveres. De mãos húmidas, pegajosas, prepararei de dedos afunilados os alimentos necessários. E fluidos sedentos.
Sonha-nos, ébrios disto.
Oração: Sejam os dias tão generosos como hoje, marca aí na tua agenda. Sonha.


AS MULHERES QUE PERDI
Gustav Klimt
imagem referenciada ali

(a rainy morning in Coimbra)



...not singing for the future
...not dreaming of the past


...the measure of my dreams