sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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please handle gently





photo dente-de-leão de Lisa Russo

livros na herança

Comecei a escrever este texto que é apenas uma nota biografico-confessional, que acabou por se alongar, por três razões: o fim-de-semana que está aí; a minha sobrinha Sara; um post da Sara Figueiredo Costa que me levou de volta a Enid Blyton.
Aqui fica :)

O fim-de-semana está aí à porta e o que mais me vem à cabeça é esta imagem: um canto confortável e livros.
Penso no lugar que os livros ocupam na minha vida, lembro-me da Sara e sinto um calorzinho tão bom cá dentro. Por saber que também ela já tem este prazer, por ficar com a certeza de que, não obstante o seu percurso de vida, também ela já sabe onde fica este refúgio – o livro.
A Sara, minha sobrinha de 9 anos, já anda com uma sacola consigo onde traz sempre um livro. Há dias, trazia um da colecção Uma Aventura. Já não fiz parte dessa geração. Fui herdeira de um exemplar de Os Cinco na Ilha do Tesouro e todos os outros que li foram requisitados na "Biblioteca Fixa Calouste Gulbenkian nº1" (o orgulho que tínhamos por dizer que a biblioteca lá da terrinha era a número um da Gulbenkian "fixa"!). Nunca pedi muitos livros aos meus pais porque entendia que não podíamos e percebia que não lhes era fácil dizer-nos "não".
Lá em casa havia: uma enciclopédia canadiana, actualizada até 1981; uma biografia do J.F. Kennedy; A Sibila, nunca soube como e porque foi lá parar; uma colecção de seis livros de Jacques Cousteau, oh, foram tão (tão) folheados. Estes eram os livros da família, os que estavam na estante da sala de estar.
Depois, havia os da minha irmã, lembro-me particularmente de um exemplar de The Catcher in the Rye de J.D. Salinger, mas não consigo evocar outros; já que estamos aqui, também posso confessar que fiquei com inveja por ela ter ficado com a colecção do Cousteau, vá, pronto, já passou.
Adiante, depois havia os meus livros, começando pelos que vieram do Canadá: uma colecção de seis livros da Rua Sésamo; The Please and Thank You Book de Richard Scarry; e os meus livros de leitura da escola, da 1ª e 2ª classe, Magic and Make-Believe, eram ma-ra-vi-lho-sos; não tenho mais porque a minha mãe me pediu para fazer uma selecção de “preferidos” para trazer para cá, pelo que deixei lá muitos livros e brinquedos com amigos.
Cá em Portugal tive: três AnitaAnita na Festa das Flores, Anita na Cozinha e Anita Mamã (amei tanto estes livros); o ABC dos Pintaínhos e o ABC dos Animais; um livro-enciclopédia sobre aves, que também foi muito folheado; um livro cujo título me escapa, com ilustrações muito ao estilo Sarah Kay e que tinha como personagem um menino chamado Estêvão; ah, A Verdade Sobre os Bebés, oferecido por uma das minhas tias paternas, que também me deu A Bíblia Juvenil, passei horas e horas com ambos; mais à frente continuo com outros livros, os que me levaram a começar a escrever esta a que chamo “primeira parte” da minha história com os livros.

Lá em casa nunca houve muitos hábitos de leitura (senão de jornais e revistas) nem de nos levar à biblioteca, quando cresci comecei a ir sozinha.
A biblioteca lá da terrinha tinha como funcionários um “par de jarras” e, não, não os considero bibliotecários. Ambos muito sisudos e sem alguma vez ter feito um comentário que fosse, um aconselhamento, nada. Sempre me fez espécie que vissem ali uma miúda que, na mesma leva, requisitasse Os Cinco e os Diários da Virgínia Woolf sem terem com ela uma palavra sobre livros. Enfim, a única explicação a que cheguei, anos mais tarde, é que a número um (fixa!) tinha como funcionários pessoas que não eram, pasme-se, leitores. Não é que os hábitos de leitura sejam um requisito para respirarmos o ar que respiramos, são apenas incongruências que me confundem.

Bom, continuando com os meus livros e indo aos mais lidos e amados: 

A Mafalda, foi-me apresentada pela minha querida amiga Cristina, tínhamos dez ou onze anos, ainda hoje acho que somos incapazes de manter uma conversa sem evocar uma tira que seja da Mafalda (ou qualquer outra do Quino). Passámos horas, no quarto dela, de volta daqueles livros.
E eis que surge a necessidade de pedir os livros à minha mãe, e ela não disse “não”, foi-me dando o dinheiro para os comprar, não me lembro bem, mas acho que eram a trezentos e cinquenta escudos cada, um a um, comprei todos. Já crescida, comprei também Toda a Mafalda, é muito gosto num livro só.

Ontem, ao ler o tal post (os scones da vida real nunca foram tão saborosos quanto os que comi-lia com os cinco) da Sara Figueiredo, lembrei-me d’O Colégio das Quatro Torres.


Foram tantas as horas passadas a ler esta colecção. Emociona-me a memória dos momentos passados a ler aqueles livros.
Apaixonei-me pela "ideia" da Cornualha e até as descrições das horas de estudo me eram atractivas, a mim - que detestava fazer trabalhos de casa.
A ambiência da leitura não era idílica, afinal de contas, li a maior parte dos livros na pastelaria dos meus pais, sentada a uma das mesas destinadas aos clientes da tarde que, no Verão, eram escassos. Tratava-se de um estabelecimento que sobrevivia à custa do calendário escolar (pela proximidade do Liceu) e dos bolos de aniversário, casamentos, etc., aos fins-de-semana, e não dos clientes das tardes de Verão duma vila desertificada. Era eu e os livros e os bolos. Nunca tive muita força contra apetites e ler Enid Blyton sem comer era como que anti-natura, com a condicionante de que estava numa pastelaria.
Não me lembro quem me terá oferecido o primeiro livro da colecção Quatro Torres, talvez tu, Cristina, ou as gémeas, ou o Fred (?), não sei, mas não me pude ficar por ali e pedi mais à minha mãe, e ela lá me foi dando o dinheiro e eu ia à livraria. Completei a colecção.
Emprestei o número um à Ana Zé, a minha sobrinha agora com 20 anos (sim, oh, meu deus, vinte – anos) mas ela nunca se adiantou muito sobre o assunto e eu fiquei-me por ali, para não correr o risco de ouvir "não gostei". Devolveu-me a alegria quando me disse que amou o seu primeiro livro de poesia, que lhe ofereci, da Sophia.

Agora, sinto receio de os oferecer à Sara, será que vai gostar? Imagino tudo isso que me possam responder, mas o que fica é este desejo muito forte de que ela  receba deles tanto quanto eu recebi.

A Sara fez anos a semana passada e ofereci-lhe o que me pediu: uma roupa às flores. Ainda bem que não me lembrei desta colecção antes, hei-de dar-lhe o número um num dia qualquer, sem pompa (pelo meu lado de fora, pois) para tentar diminuir a importância que tem para mim.
É verdade que já passei por isto com a Ana Zé, mas primeiras vezes são sempre primeiras vezes.

Ficarei à espera da sua reacção, em pulgas.
É isto, e não me passaria pela cabeça que ser tia fosse algo mais da razão.

Sara, 8 anos

recebido por email com a seguinte msg: 
estava eu a pôr as mochilas das meninas em ordem e dei com isto na mochila da Sara

coração aconhegadinho...

ah! e para que fique registado: nunca vi a minha mãe a dar palmadas ao manjerico :)

de 2011 para 2012 [checklist] [ah e tal as listas são um absurdo... e tal ]

Porque isto não é só fazer as listas, olhando para trás:

Miranda July
1. Olhar o céu mais vezes e dizer que the stars look very different today!
2. Estudar
3. Rir
4. Experimentar a minha bicicleta!
5. Ressuscitar a minha escrita erm... adiantar item para 2012 :P
6. Fazer mais poesia
7. Ler mais poesia
8. Dizer mais poesia
9. Fotografar mais poesia
10. Agarrar os bois pelos cornos
11. Fazer voluntariado, isso, sim, no meu bairro, junto dos velhotes o 1º passo está dado...
12. Rir!
13. E sorrir.
14. Ter as minhas burocracias em dia (será?) (ambiciosa!!!) (estas listas descambam sempre nisto!)
15. Não ter medo do frio
16. Não ter medo do vento, voltar portanto a Sagres meio
17. Não ter medo das alturas erm, resumindo-me à minha insignificância, que tal "aprender a viver com o medo das alturas" :D
18. Escrever cartas de amor
19. Tocar o chão, com os pés descalços
20. Enviar as cartas de amor por correio de verdade erm :D
21. Continuar
22. Continuar a ser verdadeira comigo
23. Continuar assim
 24. E descontinuar
25. Sentir-me digna disto e daquilo :)
26. E dizer em voz alta “Eu não merecia iss(t)o!” ou, batendo os pés, repetir que não, que não merecíamos isto e não, não merecíamos, mas estamos aqui para o que der e vier :)
27. Gerar.
28. Gerar tempo do meu tempo
29. Ouvir mais música
30. Ir atrás de 1 concerto weeee, este ano já há mais!
31. Não poupar dinheiro num bilhete de teatro
32. Poupar dinheiro
33. Gastar o dinheiro
34. Fazer aquela viagem! Sim! :'(
35. Respeitar mais os meus objectos
36. Ser honesta com o meu jardim LOL!
37. Continuar assim – grata, com o peito cheio, sabendo que não é disto que ele vai rebentar
38. Ser mais curiosa (mais, pois claro) :)
39. Deixar ir. De coração ao alto, deixar ir quem precisa de ir. Deixar ir, quiçá esboçando um sorriso farewell! :)
40. Cozinhar mais e mais e mais
41. Rir!
42. Cantar mais e saber que os amigos (ainda assim) estão dispostos a ouvir-me porque faz parte da minha alegria
43. Convidar mais, festejar mais e mais e mais
44. Assinalar devidamente o 25 de Abril sim, sim, foi no hospital! :D hehehe
45. Voltar aos trapos – abrir a máquina de costura - a relíquia, e atrever-me… voltar... eu voltei, só não foi com a relíquia, foi com a fita-cola de tecidos do ikea! :D
46. Ver mais cinema juro que tentei, juro!... mas as pipocas, e as pessoas a enviar sms's e... argh, as pessoas! :S
47. Rever uma série de filmes, nomeadamente o UP! alguns, sim, menos o UP, esqueci-me! :D
48. Retomar (pelo menos) uma amizade que tenha ficado pelo caminho dos dias úteis, da geografia e do tempo que porventura deixámos fugir ;)***
49. Hmm… nadar? Nadar, pois claro! a modos que... não! :D
50. Ser cinto de segurança aos meus amores <3
51. Fazer uma lista de resoluções de ano novo para o trabalho
52. Fazer uma lista de resoluções de ano novo para a escola
53. Aprender a desenhar árvores e pássaros com lápis [blushing]
54. Aprender a pintar árvores e pássaros com aguarela [blushing]
55. Respirar fundo
56. Ir mais vezes à Nazaré nem sei bem... :)
57. Dar mais e mais abraços
58. Rir
59. Tricotar uma manta ou, pelo menos, fazer uma manta com camisolas velhas :P
60. Fazer presentes
61. Visitar a avó Palmira mais vezes, mais vezes, mais vezes
62. Ser mais compreensiva, parar e ser mais compreensiva (digo eu... :P)
63. Acudir, estar com os amores nas aflições
64. Dizer aos amigos, para que saibam, para que tenham certeza, assim mesmo, dizer aos amigos que são da minha família
65. Fazer bem as contas para o inevitável neste ano: comprar um carro(?) (snif-snif) love you, little jazz!
66. Preparar-me para o Verão, para que não surja de rompante como sem avisar
67. E dançar mais
68. Ter certeza de que ele saiba sempre que é muito amado
69. Sim. :)
70. Continuar a manutenção da casa, sempre assim a espaços e com tempo our lady of eternal maintenance :P
71. Arranjar um/a irmã/o para o manjerico… falemos doutro assunto...
72. Encaminhar e seguir encaminhamentos
73. Dormir nas férias digamos que, em 2011, as férias não tiveram tanto sono como em 2010, e ainda bem \o/
74. Não me esquecer recorrentemente de marcar as minhas consultas…
75. Preparar e deixar ficar todos os memoriais de que preciso para sobreviver :)
76. Respeitar os meus rituais :)
77. Ser menos totó quanto as intenções alheias (pois que das minhas intenções sei eu) :D
78. Ser espirituosa, aprender mais com o meu pai, a minha mana e o meu amor, e também com o pequeno amor 
79. Saber mais, conhecer mais coisas sobre o mundo, a natureza, os bichos
80. Seguir os meus instintos
81. Continuar a casar-me todos os dias
82. Rir hoje, não deixar para amanhã
83. Criar
84. Aprender a escrever dentro do novo acordo ortográfico oops!
85. Aprender a distinguir melhor do que devo e/ou não devo desistir erm, num sei dizer...
86. Ser mais persistente, contra o medo ser mais persistente
87. Retomar o mealheiro interrompido LOL!
88. Mais e mais, aprender e ensinar com os sobrinhos e ademais petizes da minha vida
89. Pedir desculpas
90. Aprender e/ou aperfeiçoar outra(s) línguas oui oui!
91. Rir
92. Ser ambiciosa, independentemente do alvo da ambição, ser ambiciosa por acaso... :)
93. Construir a minha árvore, com raízes
94. Comprar umas running-shoes!
95. Passar mais dias na Zambujeira
96. Banhar-me mais no mar e no sol foi tão bom! :D
97. Rezar. Usar as minhas orações.
98. Não dar esta lista por encerrada
99. Não stressar por não cumprir esta lista
100. Amar acreditando.

a menina dança... com o seu papi!

E com a sua mami e com a sua mana, e com o seu C, e com o seu B, e com a sua S, e com a sua A...
basicamente, hoje, a m’nina dança com todas as suas letras do alfabeto!

hip hip hurra!



e diz "obrigada" à boa gente do IPO de CoimbraO B R I G A D A!




e senti-me acordar
fiquei nesse sítio
movi o olhar
o meu olhar comum
mortal

(hei-de ser o teu cinto de segurança até ao fim das minhas forças)

deixando o “sentido literal” do vídeo de lado...
por vezes é assim mesmo, 
passamos pela vida a fazer de cinto uns aos outros... 
vamos conduzindo, olhamos a paisagem 
e subitamente quando voltamos a olhar a estrada
a vida está em modo de "despiste"

(segredo maior)

Desde que a madrugada vem
fico com o fôlego suspenso
a meio de ti.

Não há por agora
segredo maior do que este,
nenhum outro mistério
onde eu tenha lugar.


surripiado à Marta
um roubo para fazer uma oferta ao meu pai e à minha mãe

Bem-estar. Sensação de conciliação. Comoção.


A minha avó materna foi a última a partir. Sempre se disse que eu, dentre as sete netas, era a mais parecida com a avó. Sendo que eu a considerava uma pessoa dura, assustava-me essa comparação que carregava desde a infância. Viver próximo da minha avó dos 20 aos 24 anos, trouxe-me as provas da beleza dela. Beleza que não era acessível a todos, pelo que poderei dizer que fui privilegiada. Vimo-la partir demasiado cedo, como sempre se vê partir um ente querido. A partida da minha avó materna implicou a ascensão de todos nós na hierarquia familiar. Cada geração passou à instância seguinte.

Há mulheres na minha família materna que parecem ter sido inspiração do filme Volver. O meu avô, falecido há vinte e cinco anos, jaz numa campa que nunca deixou de ter flores frescas. Já me aconteceu chegar ao cemitério e não ter onde colocar as flores que levara de tão cheias as duas jarras. Agora, na mesma campa, jaz a minha avó há quase sete anos.
Sete anos volvidos, uma campa dupla sempre airosa e a casa intacta. A casa intacta. Nem uma teia de aranha, apenas um ligeiro odor a casa encerrada. Cada objecto no respectivo local onde a avó os deixara a última vez que lhes tocara. As molduras com as nossas fotografias, os bibelots, os naperons feitos pela avó. Apenas a ausência de dálias na jarra junto ao telefone.
Sabendo a família que eu precisava urgentemente de cadeiras novas, as minhas tias perguntaram-me se eu queria receber aqui em casa a mobília de sala de jantar dos avós. A resposta foi imediata: sim, claro, muito obrigada por terem pensado em mim. Lá se fez a visita ritual para observação do estado de conservação dos móveis. A tia F. ia dizendo “Se quiseres levar mais alguma coisa, diz, escolhe.”. Chegara o tempo de dar mais um passo no luto dos avós. Cada um contou as histórias de que se lembrou. Derramaram-se algumas lágrimas e disse-se que a vida não deveria ser assim.

No final, trouxe uma carrinha cheia de móveis. Não fazia a mínima ideia de como os iria dispor cá em casa, pois se a casa já estava toda mobilada… mais umas horas de prazer e acabada a distribuição dos móveis pela casa, sentámo-nos a observar os vestígios de avós cá em casa. Já cá moravam: a cómoda dos meus avós paternos, junto com o chapéu dele e o xaile dela; o baú dos avós paternos dele e os paninhos da avó materna, que os continua a enviar a cada visita. Agora, acrescentados a mesa de jantar e as oito cadeiras devidas, as duas poltronas de napa, a mesinha de apoio com tampo marmoreado, os pequenos objectos como o relógio despertador verde-água e a candeia a petróleo, fica a casa completa. Cada objecto parece ter sido concebido a pensar na minha casa. Porém, o que trouxe de mais fantástico não foram os móveis ou os objectos que, de forma melhor ou pior, sobrevivem aos anos sem necessidade de cuidados. No pátio que serve de ligação da casa dos avós com as várias divisões de arrumo, há um espaço específico para as plantas da avó… volvidos sete anos, as plantas da avó mantêm-se vivas, graças aos cuidados da minha tia O.. Esta é uma das coisas que me faz estremecer por dentro. Eu não sabia que as plantas da avó lhe continuavam a sobreviver. Volvidos sete anos! Comoção. Que eu trouxesse as que desejasse. Todas, até, disse a tia F.. Trouxe 3 plantas enormes, duas estão aqui na sala comigo e uma está na varanda. Não existem palavras comuns para descrever esta espécie de sensação de conciliação com a ausência da minha avó ao olhar as plantas que foram criadas, envasadas e regadas por ela.

Bem-estar é: chegar à sala e confirmar que após estas semanas as plantas vingaram da mudança de casa; ver o verde misturado com esta maravilhosa luz da manhã; fazer um galão-margarete (leite aquecido com casca de limão, café tirado com mistura de canela no cachimbo); regar as plantas com um silencioso “bom-dia, '…” e o implícito “tenho saudades tuas”; beber o galão enquanto olho de novo o verde com a luz da manhã e o gato roça as minhas pernas ao som de Cinema de Rodrigo Leão.

Ora porra.

Venho, por este meio, desejar uma bela e prolongada diarreia aos energúmenos que roubaram o carro da minha família. Filhos duma grande mãe desgostosa ou igualmente energúmena como eles! O carro do meu pai! Como se atrevem?! O nosso carro. O carro dos nossos passeios. O carro em que eu viajava sempre apoiada entre os dois bancos da frente (para poder ouvir a conversa dos meus pais). A nossa banheira amarela. O badalado carro que foi da Alemanha, por encomenda especial, para o Canadá com extras XPTO. Jantes não-sei-quê e pára-choques-não-sei-que-mais. Mercedes Benz, ouvimos o meu pai repetir tantas vezes com a devida entoação de sonho... até que conseguiu realizá-lo. O nosso 240D especial com 30 anos. Para nós, um vintage. O carro do meu pai. O carro cuja colocação e acondicionamento no contentor para a longa viagem de barco para Portugal fez daquele um dia inesquecível. A nossa bombazita velhinha e amarela com a estrelita reluzente à frente.
Mom weeps and dad's on that silence. Não lhes (nos) roubaram um carro, roubaram o carro da família. O Carro da Praia, como dizem as minhas sobrinhas, pois o seu destino principal nos últimos anos tem sido a Nazaré. Queremos o carro da nossa família de volta. Porra.