sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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(bom fim de semana)


Myoung Ho Lee
Tree #5, from the series Photography-Act, 2007


O coração é incapaz de dizer "tanto faz"
parte p'ra guerra com os olhos na paz

O Primeiro Dia



(...)

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida


Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.


Sérgio Godinho

Apocalipse

Novos máximos históricos. Oiço enquanto em paralelo cantarolo "O mestre-sala dos mares" tentando ignorar a minha voz. Oiço ao mesmo tempo que entrego a chave ao funcionário simpático e lhe peço gasóleo sem chumbo '95. Aconteceu em Londres esta tarde, um novo máximo histórico dos danados dos barris que fazem girar o globo. O lusco-fusco finda. Exercito-me, num instante estou dentro do azul de Yves Klein. Esta coisa resume-se quase todos os dias. Por vezes penso que jamais solucionarei a coisa. Quase todos os dias consigo completar o enigma. Hoje, por exemplo, fiz e refiz o quebra-cabeças. Estou cansada, pois. Amanhã marco férias. Amanhã vou à farmácia. Amanhã lavo as mãos. Lavemos as mãos. Estamos rodeados de filhos-da-puta. Este mundo está cheio de muitos os outros. Os inocentes são culpados de outros crimes.
Agora cantarolo "Nobody does it better" (versão Thom Yorke). Tentando ignorar a minha voz. Depois lembro "Into my Arms" e aguardo lágrimas. É o mínimo, chorar. Acho indecente não chorar. Tenho de resolver isto. Praticante do mal-menor estamos todos sós, acérrima defensora de que inocentes são culpados de outros crimes, agora lembro "É mais fácil um camelo…".
Oh - suspiro profundo - céus, mulher, desacelera!
Inspiro. Expiro. Inspiro. Expiro. Rio. Rio a brincar ao contrário de que o inferno são os outros. Rogo para que não contem comigo. Chama-se a isso: o preço.
Estamos sempre a atingir novos máximos. Históricos.

Zach Condon (Beirut) de Tony Nelson
[ canta para mim, toca, dá-me música ]



algumas referências ~ ring-around-a-rosie ~ É mais fácil um camelo ~ O Fugitivo ~ Beirut ~

para o início do fim-de-semana:

2 poemas de Eugénio, 1 canção de Sérgio e uma fotografia da noite num dos meus lugares


Photobucket
noite, Nazaré 2006

Era setembro
ou outro mês qualquer
propício a pequenas crueldades:
a sombra aperta os seus anéis.
Que queres tu ainda?
O sopro das dunas sobre a boca?
A luz quase despida?
Fazer do corpo todo
um lugar desviado do inverno?


* * *

Não oiças essas vozes que não param
de crescer a caminho do inverno,
os lugares onde o corpo de erro
em erro abdica de ser corpo
são mortais, não oiças essas vozes
onde o sol apodrece, nunca mais.



in O Peso da Sombra de Eugénio de Andrade
Obra de Eugénio de Andrade/16, Ed. Limiar, 1989




bom fim-de-semana...

[ imagens banais ] [ se te obrigam a fugir mais te obrigam a chegar junto de ti ]


to Mister B. who said...

«I write differently from the way I speak, I speak differently from the way I think, I think differently from the way I should think - and so it goes on into the darkest depths of infinity»
Franz Kafka, Letter to Ottla, July 10, 1914

e também porque sim ;)


o fugitivo, Sérgio Godinho
fica a letra para acompanhar, acho que vale a pena! :P
O Fugitivo
Um homem corre na noite
é uma imagem banal
podia ser em Madrid
ou Johanesburgo, ou em S. Paulo
ou Budapeste, Nova Iorque
ou Hollywood
ou é claro em Portugal
um homem corre na noite
é uma imagem banal
Porque foge? De onde vem?
porque olha para trás inquietado?
será soldado? vagabundo?
criminoso? ratoneiro?
será apenas o primeiro
dos que vão fugir com ele?
foge p'ra salvar a pele
só a sua? a pele dos outros?
a pele clara ou a escura?
quanto tempo vai durar a sua fuga?
quanto dura? o que espera?
o que espera o homem- fera
se chegar a quem o espera?
alguém o quer? alguém se acende
alguém o chora?
alguém por quem ele chorou
chorará por ele agora?
alguém que nunca o trairá
e se sim, onde será?
Um homem luta contra o sangue
que derrama
e diz: valeu a pena?
Que os barcos
voltem a subir o Guadiana
vindos de longe
do mar
Que os barcos
voltem a subir o Guadiana
descarregando à passagem
todo o trigo
que o cavalo esbaforido
chegue à relva, sua cama
que o fugitivo
encontre seu porto de abrigo
Um homem corre na noite
é uma imagem banal
esgueirado de holofotes
com a estrada que atravessa
se confunde
com o breu o seu corpo
se confunde
e se passa num muro branco
fica branco como a cal
tal e qual
o camaleão
é uma imagem banal
Um homem luta contra o sangue
que derrama
em que cama
terá ele o seu repouso?
está ansioso? e como não?
não estaria quem pisasse
um desconhecido chão?
não estaria de garganta afogueada
quem por nada
assim fugisse?
quem por tudo suplicasse
dai-me forças, dá-te forças
a ti próprio te confias
dá-te alento, dá-te tempo
dá-te dias
sobrevive de agonias
respirando sobrevives
sobrevive
Um homem vive
contra o sangue
que derrama
e diz: vale a pena?
Um homem corre na noite
é uma imagem banal
porque insiste? porque teima?

não há pânico na rua
não há fogo no quintal
labaredas? só nas camas
dos amantes
já distantes
chegam ruídos, utopias
quanto vale uma utopia?
vale tudo? quanto vale?
um homem corre na noite
é uma imagem banal
O que fez o fugitivo? porque corre?
se está vivo é porque morre
se morrer é porque o matam
se o matarem ,será justo?
inocentes são os culpados de outros crimes
de que culpa?
de paixão? de inconsciência?

será justo ou não será
desbaratar a inocência
tão a custo conquistada?
porque corre o fugitivo nessa estrada?
E agora para para agora
o homem para
para agora para agora
será que sente que chegou a sua hora?
É impossível
não é possível
correr tanto
e pensar tão
lucidamente
o coração
não aguenta
a cabeça também não
porque tenta
ultrapassar os seus limites?

provavelmente
é por vontade de viver

(quente quente ...)
que ultrapassa os seus limites
«Estamos quites!»
diz para o seu coração
« Ainda não, ainda não ...
sentes que valeu a pena?
se te obrigam a fugir
mais te obrigam
a chegar junto de ti
v a l e u .a. p e n a ? »