sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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o tamanho das coisas

Menti-te ao responder “Está.” às perguntas “Está tudo bem por aí? Estás bem?”. A ligação telefónica era boa mas preferi ouvir interferências. Podes imaginar interferências durante a nossa conversa. Menti-te, é verdade.
Tentando explicar-me, o caso é exactamente este: posso dizer um mundo de minudências e nem por isso esquecer o tamanho das coisas.

NOTA#1 Posso dizer o que tantos dizem - o cansaço; porém insisto em acrescentar o primor, o tempo, as exclamações e a vontade (talvez gasta), o passado, dia, lugar, eu.
[Temas: verdade e mentira, coisas e centros.]
NOTA#2 As coisas e os centros podem ser ditas cheias de lugares comuns e sem pausas predefinidas
NOTA#3 É escusado confundir poesia com coisas ditas dos centros.
NOTA#4 Posso, poderia, dizer um mundo das minhas cogitações acerca dos centros.

Neste instante, recolho temas já submersos e faço uma primeira explicação - comparativa, grosseira e certeira sobre um centro: tiróide – verdade; voz – mentira; luz eléctrica – coisas e centros.

Tiróide, voz e luz eléctrica

Façamos analogias.
A voz é luz.
O nervo
recorrente é o fio
eléctrico.

O cérebro é o interruptor.

O pescoço é a parede
Com cordas
vocais são as lâmpadas.

A electricidade é pois o impulso nervoso.

Quando existe intenção de vozear, o interruptor envia a electricidade, através do fio, até à lâmpada onde finalmente se produz a luz. Não é simples mas é corriqueiro.

Notas auxiliares:
NOTA AUXILIAR #1 Repare-se na hipótese 1 “A voz reside na vontade, na intenção e na consciência e é independente da glândula tiróide”.
NOTA AUXILIAR #2 Outras hipóteses poderiam (deverão mesmo) considerar a deglutição.
NOTA AUXILIAR #3 De momento, interessa-me informar-te do alívio que é poder usar esta informação sem interferências e sem um alvo familiar. Tivesse de tomar o caso em registo pessoal e deixaria de ser um tema corriqueiro e tomaria importância, quiçá até seriedade. Nós não queremos isso, gostamos de estar nesse sítio dos temas que se localiza algures entre o banal e o cínico.

Assim e por hoje, não aprofundarei mais este tema pois encaro que este tipo de informação deve ser recebido a espaços.

NOTA AUXILIAR #4 São muito intensas estas coisas da voz, senão vejamos: e o choro?


p.s. não deveríamos colocar a questão da mentira em cima da mesa


foto: Documentation of the work for "Tree" © 2007 Myoung Ho Lee

VOX

Hoje, 16 de Abril, comemora-se o Dia Mundial da Voz.
Eu até escrevia aqui umas coisas sobre a voz, mas estou francamente cansada e acho que não me merecem um copy-paste reles; agora apetece-me poesia, fui ao blog de uma poeta amiga e pesquisei na barra do blogger "voz Maria Sousa", publico os resultados:



~ ~ ~

para os lugares que me faltam no interior do sono
tenho metáforas

ao falar do sabor que o vento deixa nos lábios
quando a voz tropeça nas sílabas

eu serei sempre a que abre as palavras na garganta






Terça-feira, Abril 14, 2009



o modo súbito de ficar parada
quando às vezes há soluços no avesso da voz
aperto as mãos para dar cor à pele

sem te saber perguntar pela ausência
se estivesses aqui,
como quem fala do tempo,
não te iria dizer que
por cima da voz há relâmpagos



Quarta-feira, Outubro 22, 2008




O processo de contar histórias é sempre lento
começa-se pelo inicio
e há quem diga que chegar ao fim é simples

uma frase é a melhor medida
para juntar os fragmentos

e se a noite a subir pela voz
é um método de fazer silêncios
e o coração é um órgão que
espreita pelos buracos da gramática

no fundo é porque têm um corpo como fronteira


Quinta-feira, Outubro 09, 2008



com a garganta cheia de sombras
(sítios que antes sublinhavam a tua ausência)

quero dizer-te que a voz é um juntar de perdas
quando neste lado da fala não há janelas para o silêncio

fica um arrepio de insónia a escrever vazios



Domingo, Março 02, 2008



tenho-te na pele como voz
que ainda não tive tempo de despir

faço uma pausa, escolho um vestido novo
mas mesmo assim fico um adereço imperfeito
no teu esquecimento


Terça-feira, Maio 15, 2007



tudo o que não é voz são lençóis
onde me estendo como cicatriz

como quem arruma a noite numa cama estreita
os gestos pairam na sombra que
vai dos lábios ao primeiro silêncio

depois do vermelho atravessar as feridas
todas as cores são cortinas



Quinta-feira, Março 22, 2007



Em dias de sílabas que
talvez consigam dar sentido ao ontem
(é aí que te arrumo)

há sempre os primeiros sons quando do outro lado
da voz as palavras estão vagas

com o frio a roçar a garganta
tudo está destinado à fala

dizem que há métodos para abrir o resto da respiração


Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007



A mulher
organiza as sombras para evitar o escuro
na pele sente o medo

é prudente na batalha com as perguntas
que pousam no dia

sorriso

quando o som do telefone invade a sombra
nenhuma palavra lhe sai da voz
deverá falar como se fossem outras coisas a
respirar em vez do grito?

à janela, o vento e o sol, limpam-lhe as vozes
sobrepostas a dizer aquilo que a voz não diz.
mas não hoje

disse que não seria capaz de mudar
perdida no quarto, pequenino, onde utiliza os hábitos
como movimentos grosseiros

nenhuma palavra ali tem asas

fica apenas o silêncio onde a mulher fecha
as persianas e depois as cortinas
sem explicar o sentido do grito.


Quarta-feira, Dezembro 13, 2006



escrevo o que ainda conheço
nomes de ruas, pássaros, árvores
monólogos de quem ainda fala alto
é a minha voz ou a tua?
como se tudo fosse uma metáfora sem fim

lá fora a chuva confunde-se com gestos
falamos do tempo, ponte entre o silêncio e o nada

ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me


Sábado, Outubro 07, 2006



olha, cruzo os dedos como resto de um gesto
para marcar território sento-me no quarto
guardo as ilusões nos bolsos

recomeço onde outras bocas já colaram
legendas à cama vazia
(não te percas a revisitar o sono)
o musgo invade o quarto
sobram silêncios a espalhar vozes

na rua traseira há árvores e gestos lentos
em ecos feitos de pausas
metade de mim procura as palavras certas

para mover a voz uso espelhos
sem saber para que lado olhar
(parábola de movimento e respiração)

Quarta-feira, Setembro 27, 2006



~ encontram estes poemas, originais de Maria Sousa (aka lebredoarrozal) no blog there's only 1 alice ~