sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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Não entendes aquelas parras largas a secar cobertas de poalha azul do sulfato


Eu trazia o livro comigo num dos nossos encontros, mas não foi dessa vez que te mostrei este excerto. Foi depois, online, evoco o quão maravilhado ficaste, estavas. E entusiasmaste-me. E talvez tenhamos brincado com a minha pergunta: Quantas vezes dissemos curriculum vitae?
Vou lendo e relendo a tua escrita, devagar como se fosse possível enganar-me.
E questiono-me acerca de alguns pressupostos da memória que vou lendo por aí. 
Não chego a conclusões nem a ideias com corpo, e fico de roda da sugestão de que as palavras são os últimos resíduos dos que um dia foram vida em nós. Mas distrai-me mais a vontade de ter como te enviar mensagens ou talvez seja o que me traz o coração a bater tão forte (?) ou talvez lhe chame apenas um dor "cerimoniosa". (não sei)

 ~


Tu vais por uma vinha afora, que é vinha grada por todos ao lados, pela tua frente, pelo teu detrás, pelos lados, até perder de vista. Não entendes aquelas parras largas a secar cobertas de poalha azul do sulfato, nada as rilhou e as uvas ainda pequenas e inteiriças mas secas, cachos mindinhos como que de amoras verdes gigantonas mas palha, os galhos que é uma força, o lenho escuro deles a mal distinguir-se da negrura das folhas ressequidas, dos bagos secos como semente de cânhamo. Por cima daquela terra sem água, bocarras pretas a abrir-se onde o zebrado das fendas é mais profundo, regos finos como os de palma da mão a abrir trilhos de abismo a abismo. E em cada pedaço inteiriço da terra barrosa, vermelha, morrões secos a rilharem debaixo dos teus pés descalços carmesins do pó dela, alevanta-se airoso e carregado de pó um novo pé de videira.

Maria Velho da Costa in Casas Pardas



Breve ensaio sobre “Breve ensaio sobre a potência” de Rui Costa, por Rui Lage.

via Henrique Fialho

img: ed. língua morta
Comecemos pelo começo. “Breve ensaio sobre a potência”, o título que o Rui Costa escolheu para este seu livro de poemas não é um título acidental, nem gratuito. A presença do termo “ensaio” indicia desobediência à compartimentação de géneros, ao mesmo tempo que convoca para junto do poético a modalidade do pensamento – um pensamento vadio, serpenteante, que lida com a diversidade e com o transitório. João Barrento apelidou recentemente o ensaio de “género intranquilo”. Intranquila é adjectivo que assenta bem à poesia de Rui Costa. Os seus poemas não são dóceis, nem submissos, o seu discurso não visa a normalidade, o bom comportamento, o estilo do período: a sua escola é uma escola de exigência, de trabalho, uma escola de amplos e variados recursos que visam a fulguração, quer dizer, visam mostrar o avesso das superfícies do mundo e dos relacionamentos humanos, e não decalcar essas superfícies. Este livro, tal como os anteriores, está cheio de fulgurações. O autor é daquela espécie de poetas que violenta a linguagem, que se compraz em torcê-la, em deslocá-la para os sítios que entende: para sítios que precisam de ser desafiados. Ele também foi, em vida, um semeador de desafios. Em livros anteriores, detectava-se uma vontade de conspurcar o visível e o finito com as heresias da linguagem. Diante deste livro, ainda podemos detectar essa vocação, mas há diferenças. O Rui escolheu aqui a brevidade (estrofes de sete versos formando um texto contínuo) e escolheu o ensaio, isto é, escolheu uma rota sem roteiro, intuitiva, tacteante, que investiga os sentidos possíveis da existência, não tanto para captá-los, como para fazer da investigação o sentido do que é investigado: “e assim ensaiamos o livro entre a/treva e a luz”, lê-se no último poema, em jeito de chave, de que faz eco a belíssima gravura de Maria João Worm reproduzida na capa desta primorosa edição da Língua Morta.

Que dizer da “potência” sobre que versa o “breve ensaio”? A física ensina que a potência é a energia dividida pelo tempo, ou, dito de outro modo, a rapidez com que a energia é transformada. A quantidade de energia diariamente consumida ou dissipada por um ser humano ronda, em média, os 100w. Um televisor transforma, em média, 120w. Nada que não soubéssemos: que a fonte luminosa do ecrã de televisão leva desde há muito a melhor sobre a fonte luminosa do espírito. Onde se lê televisão leia-se, por metonímia, tecnocracia, essa que “Breve ensaio sobre a potência” repudia em toda a linha: “acreditas mais num ficheiro/ Microsoft do que nas salmodias da tua avó” (26, p. 30).

Deslocado da física para um livro de poemas, o conceito de potência convida a equacionar a existência individual em termos de repouso e actividade. Não no sentido mundano, antes no sentido de uma ética do repouso e da actividade, a maneira como se nos apresentam como opções existenciais, em complemento ou em alternativa uma à outra. E leva-nos ainda à questão do livre arbítrio e da liberdade: somos donos da nossa potência? As forças que nos envolvem e que nos dominam permitem orientar a nossa potência, a nossa energia, o nosso trabalho, para o bem comum e para a felicidade? Somos seres fadados para o repouso ou para a “eficiência económica” e para as “preocupações com a excelência” (24, p. 28)? Para o tempo da lentidão ou para o tempo da rapidez? Será esse o sentido último do ser humano: dissipar energia? Será, pelo contrário, consumi-la? Conservá-la? O livro responde: o sentido, o único sentido, é a partilha: “na serra aliamos as tendas, aquecemos/ música. A luz é da tribo, a Grande Pedra/ escuta” (30, p. 34).

Podendo ser definida como a rapidez com que o trabalho é realizado, a potência faz-nos ainda reflectir sobre o tempo. Hoje roubam-nos o tempo. Ou, se quiserem, o tempo foi amputado do tempo, porque estamos reduzidos ao instantâneo, ao imediato, à urgência, à velocidade, às oscilações de temperamento do NASDAQ, do Dow Jones, do PSI 20, da Moody’s. O tempo deixou de ter sentido: deixou de se medir pelo futuro (e em certa medida pelo passado), e tudo é escravizado ao presente, impossível de fixar, de reflectir, de ponderar: “Não tens tempo para saber o que andas/ a contar”, lemos no poema 25 (p. 29). Destituídos de tempo, ficamos destituídos de memória, de cabeça perdida, sem lugar para as imagens: o mundo arrumado num disco externo. Eis, na minha opinião, algumas questões fundamentais colocadas por Rui Costa neste livro que não chegou a segurar nas mãos, mas que pode auxiliar-nos a compreender o mundo que nos coube em sorte.

Uma vez que os interesses do autor deste livro iam muito além da poesia e da literatura, e entravam na ciência, na sociologia e na filosofia, não podemos esquecer a teoria aristotélica do acto e da potência que ressoa no título. Para Aristóteles, a potência é a capacidade de uma coisa se transformar em outra, porque não pode permanecer indefinidamente constante. A única coisa que pode existir sem ser transformada é, para o estagirita, o Bem. Claro que esse é também um predicado de Deus, totalmente acabado e perfeito, que não depende de mais nada a não ser de si mesmo. O contrário dessa perfeição auto-suficiente é o ser humano: somos nós. A semente é o exemplo paradigmático do objecto em potência, que pode, ou não, actualizar ou realizar uma árvore. O ser humano, como a semente, é sempre um ser em potência, um conjunto de possibilidades múltiplas e contraditórias.

A consciência de que o ser humano, sempre incompleto, sempre imperfeito, sempre indeterminado, tende constantemente a ser outro, a apresentar-se com novas características (sem que tenha de haver nisso infidelidade à sua substância), é algo que no meu entender está no cerne deste livro. Mas ensaiar a transformação e realização do ser exige uma incursão na floresta escura da existência, e pede um certo faro: o faro da luz.

Não há, salvo erro, poema deste “Breve ensaio sobre a potência” que dispense a palavra “luz”, símbolo por excelência do que nasce ou está para nascer, do que revela e do que se revela, do resgate, da redenção, da saída das trevas. Este livro começa por nos colocar debaixo das pálpebras o filme de um génesis mínimo e humilde. A luz começa por germinar a partir de coisas em repouso, de coisas elementares, de pequenos seres: água, peixes, plantas, pedras, nuvens. Mal se distinguem entre si os reinos animal, vegetal e mineral. A energia transformada e consumida ainda não é a das coisas complexas. Há uma espécie de nostalgia do momento inicial, do fio de luz originário, que, depois, ao atravessar a lente dos poemas, vai sendo desviado e desfocado. Não tardam a surgir indícios de impureza, primeiras tentações, primeiros desencantos com “caminhos isentos de afecto” (5, p. 9).

Ora, a partir do poema 9, “há um homem que pede para nascer”. Há, neste “Breve ensaio sobre a potência”, um homem a transformar-se, a sair do repouso, a manifestar-se, um homem em trabalho de parto. O que nos primeiros poemas se ensaia é a possibilidade de um novo ser, ou do renascimento num novo modo de ser. Ainda provisório, quase o efeito de uma evaporação, muito anterior à literatura, “este homem/ é um fantasma calmo descansando/ na margem. ainda não é o sonho” (9, p. 13), “por sobre a erva comove-se e/ os bichos escutam-no” (10, p. 14), “entretém-se/ com uma luz que lhe sai da barriga” (10, p. 14). Um homem ainda puro. E já ameaçado, vulnerável, surpreendido no centro da roda (12, p. 16). A partir do poema 13, a luz começa a desfocar, surge uma trama de destruição. A civilização do artifício, despossuída de alma, as ladainhas da eficiência e do “Sucesso” (24, p. 28), procuram abortar o nascimento, fazem adivinhar uma metamorfose violenta e dolorosa: os homens “refugiaram-se da sua própria/ condição de seres predestinados ao amor./ Inventaram mapas e destinos” (14, p. 18), queixam-se da alma que nunca souberam onde fica (17, p. 21), “fabricam-se punhais para matar/ com menos requinte do que as mãos” (19, p. 23). Instala-se a descrença: nas instituições, nas finanças, nos bancos, na tecnologia, na informação, nas universidades: porque só a dor ensina (22, p. 26). A luz que “provoca a primeira/ nostalgia”, do segundo poema do livro, dá lugar, num dos últimos, a“bolinhas de luz com expertise multimédia” (25, p. 29), e “ser adulto é quase impossível no mundo/ só imberbe” (26, p. 30).

Voltando às interrogações. Somos mais livres quando nos arrancamos ao repouso e nos transformamos, a nós e ao mundo, em energia, ou somos mais livres quando escolhemos o repouso, a imobilidade, quando nos furtamos aos ditames colectivos e às metas impostas, quando legitimamente optamos por desistir? “Ser dono dos homens ou escravo de mim”, como se lê no poema 13? Não é segredo que se pode resistir desistindo. Um objecto imóvel possui outro tipo de energia: a energia potencial, e é sempre, por isso, reserva de futuro, promessa de movimento. Temos aqui, apesar de tudo, uma poética da esperança, bem explícita no carpe diem do poema 30: “Vamos aprender a fabricar-nos alimentos,/ esquecer digitalmente o Sucesso, renascer as/ mãos na utopia. Neste mundo deus vai dançar” (p. 34).

É tentador afirmar que todas as misérias e alegrias humanas, toda a energia consumida ou dissipada, cessam com a morte. Na morte, ou em face dela, apenas há impotência. A energia deixa de ser dividida e repartida no tempo, porque o tempo deixa de existir. Quando se esgota a potência de um ser humano, quando toda a sua energia foi transformada, ele não é senão puro acto: na morte, o ser não depende de mais nada, é, de certa forma, algo totalmente acabado e perfeito. Como Deus.

Aqui estamos nós, depois da perda de um amigo, a transformar ainda a sua energia em tempo e em luz.


Rui Lage

Não é como se tivesse sido ontem II

o corpo ausenta-se do espaço II, III e IV, Carlos Veríssimo
Doeu-me, mas não parei. Li-te até os meus olhos se esconderem. E vi-te. Via-te sempre na tua escrita. Não é um lugar comum nem é como se tivesse sido ontem. Fica já por aqui o assunto antes que resvale porque acabei de me lembrar de uma coisa e esta conversa ia para a maldade para aquilo para a risota. E hoje não estou a pender muito para ela, a risota, desculpa.
Sei lá porque é que estou a pedir desculpa, que pergunta.
Olha, por causa do delito vital que me traz corcovada, deste erro de se ser triste.
Sou, e depois?
Bom, é engraçado, agora que penso nisso: nunca fui triste ao pé de ti.
Sorriso.
Era curiosa, contente, de bem, assustada, meio-medrosa, mas não me recordo de tristesse. Ah, e desiludida, sim, por duas vezes, mas não sei se contam porque não estávamos ao pé um do outro, estávamos de cada lado do messenger.
A desilusão foi minha, de mim. Da vez em que te zangaste comigo, lembras-te? Não te zangaste assim como quem estava mau comigo mas de mal comigo, e tiveste um bocado de razão, toda não, mas um bom bocado. Estou quase a redimir-me dessa, tu sabes que sim (sabes?). Passaram quantos anos dessa discussão? Quatro. Cinco. Três. Não sei. O tempo nunca medra.
Houve a segunda vez, pois houve, sou exímia a desiludir-me comigo e a sabê-lo no exacto instante, para saborear tudo duma vez.
Fiquei com o sol todo na recordação da pele, que é para aprender.
Está o dito pelo não dito, para guardar segredos que esgravatem nas horas. Não tenho certeza de ser isto o que fazem as pessoas desconsoladas. 
Sou cheia das datas, e das cenas, guardo tudo. Ontem fiz tanta palermice, havias de ver. Começando por estar "incompreensivelmente" triste até ao sono imenso que bebi para dentro de não-sei-quantos cafés a tentar esconder essa tristesse. Cena marada. 
Isto agora ia bem era a escrever a negrito, em azul. Claro. Mas não posso, não mo permito. Sabes o que fiz ontem? Pois. Nada de mais, coisa habituée, afinal.
Olha, moço, funciono assim, não me levas a mal, sabes que seria um lapso da mecânica. Quando dei conta do que a minha terceira cabeça ia fazer, e depois de a inverter para evitar a todo custo ferir sensibilidades legítimas, amanhei a tal desculpa que procurei o dia todo. E entrei a ser assim como sou: profundamente triste e desiludida e a rir. 
Voilá.
Todo este estado a negrito, em azul. 
Fui ler-te, descansada, a magoar-me intensamente. Chupei feridas nos teus poemas. E engoli de lá tudo o que havia de nobre em ti.
Com o sol
ainda,
todo,
na invenção
da minha pele.

Não é como se tivesse sido ontem


o corpo ausenta-se do espaço I, Carlos Veríssimo
Eu não estava lá
Nem cá

Muito menos
Pertenço ____Lá
Há quarenta anos
Hoje é onde se forma
O primeiro dia
em que Nunca mais
Voltas
A fazer anos
De vida
Nesta data

a única linguagem possível

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do livro de Ana Marques Gastão, O Falar dos Poetas
Edições Afrontamento
2011

partida

Hei-de dizer-te coisas novas e entreter o nosso temor.
Orientei os fígados e estou com a espada em riste. As agudezas - nem sempre evidentes - habitam-nos.
O horror começou há muito tempo. Não é de anteontem a promessa das lutas inglórias mas há-de ser sempre dia de te "dizer coisas novas".
Hei-de ser comum ao companheirismo da farsa e operante conforme a circunstância. E, repara, não temos de lhe chamar cinismo.
Seremos (pois então!) o incondicional dia. Seremos senão o desdito.
Pois. 

https://www.brooklynmuseum.org/eascfa/feminist_art_base/archive/images/262.350.jpg
Hannah Wilke. 
So Help Me Hannah: What Does This Represent / What Do You Represent (Reinhart)
1978–1984.




EPÍGRAFE PARA A NOSSA SOLIDÃO
Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemporâneos

Ruy Belo

theoria poiesis praxis

adeus, Rui

Não estou a fazer esforços para espantar o frio, nem tão pouco o considero um castigo. É o que é. Os sentimentos eram nobres e não sobraram. Como nunca sobram, e agora está na hora de me recolher. Se der um trago no álcool certamente não será vinho, é preciso um bafo mais amarelo. Provavelmente ponderarei a cerveja, acabarei por recorrer ao uísque. Fico. Talvez me distraia a fingir medo das bruxas, do que é o incerto. Acabas de te tornar em mais um acto sólido da minha vida. Mais um jogo para inventar na minha memória, hei-de acrescentar-lhe os dias que não vivi contigo.











(em actualização)

Fernando Dinis #1 #2, Fernando Esteves Pinto, Henrique Manuel Bento Fialho #1 #2, Manuel A. Domingos, Maria João Lopes Fernandes

mensagem dos seus co-bloggers: Mantemos o blog Implantes de Ciclone activo, apenas com os textos do Rui.