sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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dar-te uma prenda de calor e água


e dizer-te de tudo, como tu és o dia porque tu és

Tree House

... e pássaros, e uma árvore, papéis, lápis, e os livros teus, e o teu filho
dar-te uma prenda após outra...após outra...


actualização em bloco de notas

#1 Sentámo-nos a beber cerveja que servi nas canecas de barro. Queixei-me dos acufenos e inventámos cenários sem modéstia comparados a Woddy Allen. Acho lógico tornar-me hipocondríaca. Para mais que não fazia parte dos meus planos. E como os planos saem sempre furados…
#2 Bem, nem sempre, ripostou cheio de razão após um segundo de silêncio.
Este plano está a sair conforme os ditames dos nossos desejos.
(Pessoalmente, não sei para onde me hei-de virar.)
#3 Arranjei um novo bloco de notas (moleskine®) ao qual me afeiçoei de imediato.
#4 Falta-me arranjar uma caneta. Direi que caneta irei comprar, mas não sem antes sublinhar que não é por influência de Sócrates (o português). Considerando que me podem incomodar os juízos de valor, fica a ressalva. A caneta: uma Parker®, daquelas baratinhas.
#5 Completo o kit de bloco e caneta, avanço. Hoje ainda não porque quero saborear a angústia. Uma pessoa em afeiçoando-se à angústia custa a largar.
#6 Amanhã completarei uma série interminável de projectos. Depois posso ir embora. E vou. Vou mesmo.
#7 Vou embora e não sei se digo para onde.
#8 Quiçá enterrarei mais a cabeça na areia ou, surpresa das surpresas, saio dos armários.
#9 Ainda não decidi para qual das colónias irei: se para a colónia dos que estão cheios de razão e ensinam isso aos outros; ou se para a colónia dos que mostram que os outros não estão cheios de razão e cheios de razão ensinam isso aos outros. Estou sinceramente indecisa.
#10 Pena ainda não ter comprado a caneta, espero não me esquecer de anotar a urgência em tomar esta decisão no meu bloco de notas.
#11 Como vêem, é uma alegria, tantas e tantas coisas para anotar com a minha caneta Parker® no meu bloco de notas moleskine®! Um mundo no meu bloco de notas.
#12 O mundo.
#13 Meta-anotarei os meus pensamentos de pessoa profundamente impressionável e depois lerei vezes sem conta. Em voz alta ou em surdina, consoante o estado de espírito. Já imagino as folhas com aspecto manuseado. O papel encardido do suor das minhas mãos.
#14 Que excitação!
#15 Resta-me decidir se comprarei uma caneta Parker® de tinta azul ou de tinta preta, e sob que ortografia utilizarei a caneta.

botânica

Durante 1 ano, mais coisa menos coisa, escrevi textos que se assemelham a poemas. Devo dizer que penso que não eram más imitações, fingiam bastante bem. E digo mais: muitos leigos podem ter acreditado que estavam a ler poemas. Cada qual tem aquilo que merece. Não é difícil escrever uma imitação de poema. Houve vezes em que senti aproximações de calafrio. Não sou insensível como uma besta embora pese que na grande maioria das horas sou insensível q.b.. Dizia sobre os calafrios que por vezes senti, enfim não se pode dizer que me envergonho, mas também não me orgulho. Sem mais rodeios, confesso que houve dias em que senti desconcerto por estar a usar palavras, digamos… nobres, em imitações de poemas. Está dito. Agradeço que não vá alguém incorrer no erro de pensar que esta confissão seja uma declaração de sensibilidade ou, pior, de respeito. Adiante.
Engendrei uma fórmula, que jamais tornarei pública, para que me caiam as mãos e queimem os olhos se eu voltar a usar as palavras sono cozinha tremocilha pássaro pele fome cerejeira magnólia amendoeira palavra tu verde água pão mãe corda terra filho filha filhas filhos silêncio pomar corda mãos útero cama raiz árvore árvore árvore em imitações de poemas.
Eu tinha obrigação de não ludibriar as pessoas. Atenção, não é uma obrigação qualquer, é obrigação profissional. Fui treinada em Linguagem. E ficam a saber que frequentei uma escola prestigiada. Ah pois!
Imagino o que diriam alguns dos meus professores se soubessem desta vida dupla que levo com as palavras. Tenho saudades deles. Já agora, aproveito este momento para dizer que nunca concordei com a troça que faziam da professora E. nas aulas de Linguística. Sempre me deliciei à volta das árvores de palavras que ela desenhava no quadro.

Repare-se na expressão: .á r v o r e. .de. .p a l a v r a s.. Notável. Absolutamente notável.

Rigor: Uma pessoa que se comova com árvores de palavras deve ter mais acatamento.

Photobucket

Árvore de outono com brincos de princesa
de Egon Schiele
1909

mini é sagres


Cá dentro o vento é apenas som. Estou quente, não estou quentinha, estou quente. Não estou aconchegada, pois estou sentada numa das cadeiras da mobília de sala de jantar que os meus pais compraram por altura do seu casamento com o dinheiro que lhes deu um padrinho, ou uma madrinha, não me lembro. A mobília que agora é minha, aquela que nunca mais me ponho a restaurar, qualquer dia as cadeiras partem-se e já não as consigo arranjar sem ter de pagar a quem. Se é que ainda tenham arranjo… O vento é som, afinal não é apenas. Trago as toadas ainda a escaldar, por isso escrevo. Penso muitas vezes: pudesse escrever a trabalhar...; ou trabalhar a escrever... Penso: seria mais feliz. E penso questões: se descobrisse que escrevo pior do que trabalho; se descobrisse que escrevo banalidades entediantes sem escapatória e que o meu desempenho no trabalho se assemelha a essa escrita; penso questões destas. Continuando o ambiente doméstico, informo que de seguida me levanto e dirijo à cozinha para buscar uma mini. Repare-se que, por sorte, acabo de escrever uma escrita sincera como mais não poderia ser. Pois que fica bem dizer “uma mini” ao invés de pura e simplesmente “uma cerveja”, parece-me. E se eu disse que ia buscar uma mini, não foi para dar um ar mais neo-realista à coisa poética, é porque tenho mesmo minis no meu frigorífico! E está mesmo vento lá fora. Cá dentro só se ouve o som, não se sente. Não trouxe amendoins porque não me apetece, pois também tenho amendoins. A bem dizer da verdade, talvez comesse uns quantos, mas não me apetece descascá-los. A mini está geladinha no ponto! Daqui a pouco estrago tudo porque inventei esta estupidez de não fumar dentro de casa. Portanto, daqui a pouco vou rapar frio e finalmente sentir o vento que me vai ajudar a fumar um cigarro. Já volto. Voltei. Ainda trago o diabo das toadas a tremer-me. Há 4 anos que tenho este hábito de escrever coisas que não servem para minha escritura exclusivamente. Há 4 anos que meia dúzia de gatos-pingados se engana e dá por si a ler o que escrevi. Há cerca de 4 anos ouvi pela primeira vez, a sério, o Zé Mário Branco. É verdade. Que é que querem? Que eu diga que andei a dormir? Pois bem, faço melhor, digo: ando a dormir. Não gosto de contrariar as pessoas, depois tenho de discutir os assuntos e isso dá muita maçada, prefiro dar-lhes logo razão, vão embora mais felizes e eu fico sossegada. Graças a mim. Os dias não têm sido amenos, urge continuar a dormir. Hoje, Miro Casabella, JP Simões, José Mário Branco e O Leo i Arremecaghona ajudaram à festa. O gato está outra vez irrequieto, suspeito saber os seus motivos. Há 4 anos que tenho este hábito de escrever coisas que não servem para minha escritura exclusivamente. São experiências, diria. Hoje passei nova revista ao "Teatro de Sabbath" do Philip Roth. Poder-se-á dizer que sou algo repetitiva. Mastigo devagar. E regurgito obstinada e em repetição. Hoje fiz algumas coisas. Um dia destes, não bebo uma mini apenas, bebo duas, de penalti. Talvez me faltem outras vivências. Penso questões: deverei saber o que é a embriaguez. Vou fumar outro cigarro, daqui a 6 horas estou a pegar ao trabalho. Penso nas mulheres que conseguem manter activo o cheiro dos perfumes. E penso numa das minhas maiores convicções, que vem apegada a outra grande convicção: eu gaguejo (convicção nº1); as pessoas que me amam dizem que estou enganada, que não gaguejo "coisa nenhuma" e rematam com "estás tola?" ou "sua pateta" (porque me amam; imagino ser esse o motivo da mentira que julgo encaixar-se na categoria das mentiras piedosas) (convicção nº2); as outras pessoas todas não me dizem nada porque pouco lhes interessa gastar o seu tempo a informar-me (convicção nº3, tinha esquecido que eram 3). Vou fumar o tal cigarro.

Fronteiras

Nascida no Canadá, criada no Ribatejo, actualmente a viver em Coimbra, com fugas em datas certas ao Alentejo já me sinto também um pouco alentejana.
O Alentejo, pensava eu no Sábado, é outro país. Soubesse eu descrever por palavras o motivo de tal conclusão, fá-lo-ia, mas é preciso sentir um certo sentir que a minha escrita não vos sabe levar.
Tem de se entrar devagarinho e ir ficando (no gerúndio, claro, ir ficando... apreciando...). As estrelas são mais brilhantes. A luz tem véu próprio. As praias são céus. Até as azedas sabem diferente, são doce-azedo.

A imagem "http://farm3.static.flickr.com/2148/2255532315_18a205a60b.jpg?v=0" não pode ser mostrada, porque contém erros.

E as gentes? Não me vou arrogar falar das gentes. Sou privilegiada quanto às gentes com quem tenho privado, não generalizarei.
No entanto, penso que quando falamos das gentes do Alentejo, deve ser feita justiça quanto a uma coisa: as gentes do Alentejo são diferentes das de outras regiões do nosso país, são gentes habituadas a ter de se distanciar para o cumprimento das necessidades básicas. Existem situações pontuais de aldeias no Norte e Interior de isolamento, quando falamos de Alentejo, falamos de isolamento sem excepções.
Existem dois hospitais distritais entre o Algarve e Setúbal – o Hospital do Litoral Alentejano e o Hospital José Joaquim Fernandes, do Centro Hospitalar do Baixo Alentejo.

As maleitas parecem ignorar que Domingo é o 7º dia do Senhor, dia de descanso. Ontem, Domingo, não havia no Hospital de Santiago do Cacém, cuja extensão geográfica de atendimento está representada no mapa, um médico radiologista de serviço, nem disponível ou whatsoever...
Não sei escrever crítica social e económica. Poderia deixar para aqui duas ou três baboseiras sobre o que penso de gente que se queixa de barriga cheia e de governantes que têm a sorte de nunca ter tido um familiar necessitado num hospital tão bem equipado como o de Santiago do Cacém, porém tão carenciado de pessoal. Hoje digo: revolta e desalento.




fotografia das azedas surripiada à menina-alice

ring-around-a-rosie

Quando, de alguma forma, se é outsider, é natural (d'a natureza das tribos) o indivíduo ver-se negado de certas regalias de pertença à tribo; este facto pode mascarar-se e parecer um mal-maior. Sendo que a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer*, sucede-se o pensamento do dia: É importante mantermo-nos focados no declínio das regalias de tribo em favor da leveza da genuinidade.
Ring around a rosie!
Ring around a rosie, a pocket full of posies. Ashes, ashes, we all fall down!
We all fall down!

Children Playing "Ring around a Rosie", Edwin Rosskam
Chicago, 1941


*A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer de Stig Dagerman
Fenda ed., 1995