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hoje!
"A corporalidade do acto” é um momento recorrente no livro “Se numa noite de Inverno um viajante” de Italo Calvino, cuja dinâmica é em torno do leitor. Em sequência, deu-se corpo ao leitor. Este é livre enquanto homem, mas refém de si mesmo enquanto parte do livro, e ambos, são afinal um só.
O peso que se pretende transmitir é o do processo de vivências – paixão/ódio, e tentativas de fuga - retorno, do homem quando percebe que afinal é o livro que lê, e vê nele todos os silêncios, até os impossíveis. O livro tem o olhar do vazio sobre o homem e este procura o reflexo no reflexo – e palavras para construir ideias.
“vivemos num mundo de histórias que começam e não acabam.”
No cúmulo, entenderá Calvino que “o sentido último para que remetemos todas as histórias tem duas faces: a continuidade da vida e a inevitabilidade da morte”, pelo que na busca da imortalidade e da particularidade de desejar ser deus, o homem entrega-se finalmente
a ser o livro.
Carlos Veríssimo
O peso que se pretende transmitir é o do processo de vivências – paixão/ódio, e tentativas de fuga - retorno, do homem quando percebe que afinal é o livro que lê, e vê nele todos os silêncios, até os impossíveis. O livro tem o olhar do vazio sobre o homem e este procura o reflexo no reflexo – e palavras para construir ideias.
“vivemos num mundo de histórias que começam e não acabam.”
No cúmulo, entenderá Calvino que “o sentido último para que remetemos todas as histórias tem duas faces: a continuidade da vida e a inevitabilidade da morte”, pelo que na busca da imortalidade e da particularidade de desejar ser deus, o homem entrega-se finalmente
a ser o livro.
Carlos Veríssimo
(exposição) Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino
Título Introdução Desenvolvimento Conclusão
«Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa que o mundo que te rodeia se esfume até se tornar indistinto. A porta é melhor que a feches; (…) (p.21)
(…) Mas depois prossegues e dás-te conta de que o livro se deixa ler apesar de tudo, independentemente daquilo que esperavas do autor, é o livro em si que te desperta curiosidade, e pensando bem até preferes que seja assim, encontras-te perante qualquer coisa que ainda não sabes muito bem o que é. (p.26)»
Italo Calvino in Se numa noite de Inverno um viajante
Trad. Mª de Lurdes Sirgado Ganho & José Manuel de Vasconcelos
col. provisórios e definitivos, Vega, 1985
1ª ed.
Concepção Por vezes fazemos batota, corremos de olhos fechados do princípio para o fim, sem olhar o meio (ou será aos meios?).
.
Distraio-me a espaços. Voltei a atrasar os meus recados pelo que percebi que não leria o livro. No outro dia li: Uma constitucional perturbação da vontade e uma ânsia, paralelamente paralisante, de sobre tudo dizer tudo, sem falha, falta ou fraqueza, fazem com que eu ponha em tudo o que faço uma demora que acaba por me apavorar até à acção, e que comece essa acção por um pedido de desculpas de tanto ter demorado.*
Não li o livro para a feitura do trabalho. (não esquecer: ter um livro em detenção de leitura é uma requintada forma de suplício) Eis-me então perante um autor que estimo, peguei na sua obra e li apenas inícios e fins de romances, deixei-me cometer deduções. Cogitei acerca da origem e da conclusão do título. Li sem remorso primeiras e últimas frases. Fiz desenhos e cálculos auxiliares; fiz corte e cose. Assim, sem mais nem menos: saltei da introdução para a conclusão. [deixando por preencher o desenvolvimento – não sei encaixar esta ideia]
Pensei “Sou uma viajante nesta hora de Inverno.” e muitas outras coisas que narrei para mim como se fora eu própria a leitora.
Amanhã inicio a leitura.
* Excerto de carta de Fernando Pessoa a Jaime Cortesão, in "Obra essencial de Fernando Pessoa, Cartas"
(lido em http://welcometoelsinore.blogspot.com/2009/02/se-alguem-houve-que-disse-tudo-foi-ele.html
acedido a 18/FEV/2009)
acedido a 18/FEV/2009)
Sandra Cruz (margarete)
Cálculos auxiliares: P__________(…)____________ F
Se numa noite de névoa de Inverno El Rei Dom Sebastião um viajante numa estação de caminho-de-ferro
Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)
fotografia p&b de impressão de imagem digital do
Retrato de D. Sebastião de Cristóvão de Morais*
* 1571, óleo sobre tela, 99 x 85 cm
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal
Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)
Espelho, cola, cartolina, tu
O teu reflexo - a risível questão do todo
Especulação e geometrias - espaço reflexo
pormenor de
Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)
«Especular, reflectir: toda a actividade do pensamento me remete para os espelhos.»
[Primeira frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 159 ]
«Agora parece-me que tudo aquilo que me circunda é uma parte de mim mesmo, que eu consegui tornar-me o todo, finalmente…»
[Última frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 165]
Numa rede de linhas que se intersectam especular reflectir
(aquilo que me circunda, consegui tornar-me o todo)
«Especular, reflectir: toda a actividade do pensamento me remete para os espelhos.»
[Primeira frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 159 ]
«Agora parece-me que tudo aquilo que me circunda é uma parte de mim mesmo, que eu consegui tornar-me o todo, finalmente…»
[Última frase do romance “Numa rede de linhas que se intersectam“ p. 165]
Inauguração 7/11 - SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE

INAUGURAÇÃO SÁBADO 7/11
PROGRAMA
19H > JANTAR HOTEL BRAGANÇA
22:15 > ESTAÇÃO DE COIMBRA A > Concentração
22:22 > partida > CITAC & MANÉS
22:30 > chegada ESTAÇÃO DE COIMBRA B
Colectivo ERRORISTA > instalação sonora
MIGUEL JANUÁRIO > graffiti [live act]
23:00 – 04:00 > ESTAÇÃO DE COIMBRA B > OFICINAS - CP
23:00
JOSEF B + QIP > massa sonora > execução mecânica aleatória
JOÃO MARQUES FERNANDES/IRENE GONÇALVES> performance
JOÃO VAZ > textos sonoros
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOÃO VASCO PAIVA > vídeo
24:00
BOIALVO [Live act] + LISBON WINTER BLUES [VJ set]
0:30
QUARTETO PAULO PIMENTEL [Jazz]
1:30
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOSEF B + QIP
MAU FEITIO> uma muda de roupa
2:00
LAETITIA MORAIS [Visuais] + BOIALVO [Live act]
2:30 - 4:00
AFONSO MACEDO [DJ Set]
19H > JANTAR HOTEL BRAGANÇA
22:15 > ESTAÇÃO DE COIMBRA A > Concentração
22:22 > partida > CITAC & MANÉS
22:30 > chegada ESTAÇÃO DE COIMBRA B
Colectivo ERRORISTA > instalação sonora
MIGUEL JANUÁRIO > graffiti [live act]
23:00 – 04:00 > ESTAÇÃO DE COIMBRA B > OFICINAS - CP
23:00
JOSEF B + QIP > massa sonora > execução mecânica aleatória
JOÃO MARQUES FERNANDES/IRENE GONÇALVES> performance
JOÃO VAZ > textos sonoros
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOÃO VASCO PAIVA > vídeo
24:00
BOIALVO [Live act] + LISBON WINTER BLUES [VJ set]
0:30
QUARTETO PAULO PIMENTEL [Jazz]
1:30
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOSEF B + QIP
MAU FEITIO> uma muda de roupa
2:00
LAETITIA MORAIS [Visuais] + BOIALVO [Live act]
2:30 - 4:00
AFONSO MACEDO [DJ Set]
o que tu queres sei eu bem: festa! :) estão todos convidados
...fica o convite para a festa do ano!
Coimbra A - Coimbra B
07 de Nov às 22.15
O viajante
O viajante é um projecto multidisciplinar, centrado no cruzamento de diversas leituras fotográficas de um romance de Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante. Nele, Calvino propõe construir um romance a partir de diferentes começos, fragmentos narrativos que conduzem o leitor a lugares distintos, construindo tipologias que organiza segundo categorias que funcionam numa lógica simbólica e interpretativa que vai da névoa, da atmosfera ao apocalipse.
A viagem é um tema eminentemente fotográfico e o fotógrafo tem sido, desde o início, um viajante, um observador e uma testemunha. Alguém que se desloca e ao deslocar-se altera o seu ponto de vista. As fotografias resultantes são fragmentos, vistas parciais, possibilidades de ponto de vista que nos dizem do lugar do fotógrafo e do que tinha em frente; não nos dizem nada. Mas são todas potenciais narrativos e por isso, quando se cruzam com o espectador, dizem tudo. Esta ambiguidade, que a natureza da fotografia lhe empresta, torna-a num instrumento privilegiado para pensar a nossa relação com o mundo, e construir a nossa própria narrativa. Tal como a pintura, a fotografia é una cosa mentale.
O que se apresenta é uma rede organizada a partir de um conjunto de pontos de vista de diferentes observadores-leitores-fotógrafos construídos a partir das possibilidades narrativas propostas por Calvino e esta rede é tecida a partir de leituras deste núcleo inicial envolvendo diversas práticas artísticas da palavra à escrita, do som à performance, da pintura ao vídeo.
O viajante é uma experiência colectiva proposta aos sentidos do leitor-espectador. Não por acaso, o romance começa numa estação de caminho de ferro…
Francisco Feio
O viajante é um projecto multidisciplinar, centrado no cruzamento de diversas leituras fotográficas de um romance de Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante. Nele, Calvino propõe construir um romance a partir de diferentes começos, fragmentos narrativos que conduzem o leitor a lugares distintos, construindo tipologias que organiza segundo categorias que funcionam numa lógica simbólica e interpretativa que vai da névoa, da atmosfera ao apocalipse.
A viagem é um tema eminentemente fotográfico e o fotógrafo tem sido, desde o início, um viajante, um observador e uma testemunha. Alguém que se desloca e ao deslocar-se altera o seu ponto de vista. As fotografias resultantes são fragmentos, vistas parciais, possibilidades de ponto de vista que nos dizem do lugar do fotógrafo e do que tinha em frente; não nos dizem nada. Mas são todas potenciais narrativos e por isso, quando se cruzam com o espectador, dizem tudo. Esta ambiguidade, que a natureza da fotografia lhe empresta, torna-a num instrumento privilegiado para pensar a nossa relação com o mundo, e construir a nossa própria narrativa. Tal como a pintura, a fotografia é una cosa mentale.
O que se apresenta é uma rede organizada a partir de um conjunto de pontos de vista de diferentes observadores-leitores-fotógrafos construídos a partir das possibilidades narrativas propostas por Calvino e esta rede é tecida a partir de leituras deste núcleo inicial envolvendo diversas práticas artísticas da palavra à escrita, do som à performance, da pintura ao vídeo.
O viajante é uma experiência colectiva proposta aos sentidos do leitor-espectador. Não por acaso, o romance começa numa estação de caminho de ferro…
Francisco Feio
discutir percentagens
3º sonho de Calvino
Com o seu sócio está tão envolvido na discussão das percentagens de algo, que não dá pelo que acontece: são engolidos por uma baleia. Dentro do estômago da baleia Calvino continua a discutir percentagens. Percebe, agora, qual o negócio, trata-se da venda de petróleo e de livros. Quem fica com o quê? A discussão está acesa e Calvino empenha-se nela cada vez mais; vira depois as costas ao seu sócio e sai para a rua: observa as pessoas a andarem de um lado para o outro. Os poucos que não estão com pressa, aqueles que param, discutem entre si, percentagens também: 30, não 37!, não, não, 32! Todos discutem, ele próprio não consegue deixar de repetir, para si próprio: 43%, pelo menos 43%!
Mas ao mesmo tempo existe aquela sensação de que estão todos dentro do estômago da baleia, de que aquelas pessoas que ele vê na cidade, cheias de pressa, de um lado para o outro, a discutir percentagens, e ele próprio, há muito foram comidos.
Com o seu sócio está tão envolvido na discussão das percentagens de algo, que não dá pelo que acontece: são engolidos por uma baleia. Dentro do estômago da baleia Calvino continua a discutir percentagens. Percebe, agora, qual o negócio, trata-se da venda de petróleo e de livros. Quem fica com o quê? A discussão está acesa e Calvino empenha-se nela cada vez mais; vira depois as costas ao seu sócio e sai para a rua: observa as pessoas a andarem de um lado para o outro. Os poucos que não estão com pressa, aqueles que param, discutem entre si, percentagens também: 30, não 37!, não, não, 32! Todos discutem, ele próprio não consegue deixar de repetir, para si próprio: 43%, pelo menos 43%!
Mas ao mesmo tempo existe aquela sensação de que estão todos dentro do estômago da baleia, de que aquelas pessoas que ele vê na cidade, cheias de pressa, de um lado para o outro, a discutir percentagens, e ele próprio, há muito foram comidos.
Gonçalo M. Tavares, O senhor Calvino
Editorial Caminho
2005

Editorial Caminho
2005

Capricho nº 39: Hasta su abuelo
Francisco de Goya
pub. 1799
Francisco de Goya
pub. 1799
Como aprender a estar morto, Italo Calvino
O senhor Palomar decide que, de agora em diante, fará como se estivesse morto, para ver como corre o mundo sem ele. Há já algum tempo que se apercebeu de que entre ele e o mundo as coisas já não correm como antigamente; se antes lhe parecia que esperavam ambos alguma coisa um do outro, ele e o mundo, agora já não se lembra do que havia de esperar, de mal ou de bem, nem porque é que este esperar o mantinha numa perpétua agitação ansiosa.
Portanto, agora, o senhor Palomar deveria experimentar uma sensação de alívio, não tendo que continuar a perguntar-se que coisa lhe prepara o mundo, e deveria igualmente sentir o alívio do mundo, o qual já não tem de se preocupar com ele. Mas é exactamente a expectativa de saborear esta calma que torna ansioso o senhor Palomar.
Em suma, estar morto é menos fácil do que perecer. Em primeiro lugar, não se deve confundir o estar morto com o não estar, condição que ocupa também a interminável extensão de tempo que antecede o nascimento, aparentemente simétrica da outra, igualmente ilimitada, que se segue à morte. De facto, antes de nascer fazemos parte das infinitas possibilidades às quais acontecerá, ou não acontecerá, realizarem-se, ao passo que, uma vez mortos, não podemos realizar-nos, nem no passado (ao qual pertencemos agora inteiramente mas sobre o qual já não podemos influir) nem no futuro que, apesar de influenciado por nós, nos permanece vedado. O caso do senhor Palomar é uma realidade mais simples, porquanto a sua capacidade de influir sobre alguma coisa ou sobre alguém foi sempre desprezível; o mundo pode muito bem passar sem ele e ele pode considerar-se morto com toda a tranquilidade, sem sequer alterar os seus hábitos. O problema é a modificação, não aquilo que ele faz, mas sim aquilo que ele é, e mais exactamente aquilo que ele é em relação ao mundo. Dantes, por mundo, ele entendia o mundo mais ele; agora, trata-se dele mais o mundo menos ele.
O mundo menos ele quererá dizer o fim da ansiedade? Um mundo no qual as coisas aconteçam independentemente da sua presença e das suas reacções, seguindo uma sua lei, ou necessidade, ou razão, que não lhe diz respeito? Bate a onda no escolho e escava a rocha, aparece uma outra onda, uma outra, ainda uma outra; quer ele esteja em acção quer não, tudo continua a acontecer. O alívio por estar morto deveria ser este: eliminada aquela mancha de inquietação que é a nossa presença, a única coisa que conta é o desenrolar e o suceder-se das coisas sob o sol, na sua serenidade impassível. Tudo é calma e tende para a calma, até mesmo os furacões, os terramotos, a erupção dos vulcões. Mas não era o mundo já assim quando ele lá estava? Quando cada tempestade trazia em si mesma a paz do depois preparava o momento em que todas as vagas se teriam abatido contra a costa e em que o vento teria esgotado a sua força? Talvez que o estar morto seja passar para o oceano das ondas que permanecem ondas para sempre, sendo portanto inútil esperar que o mar se acalme.
O olhar dos mortos é sempre um tanto ou quanto deprecatório. Lugares, situações, ocasiões são grosso modo aquelas que uma pessoa já conhecia e reconhecê-las traz sempre uma certa satisfação, mas ao mesmo tempo notam-se muitas variações, pequenas ou grandes, as quais, por si só, se poderiam aceitar, se correspondessem a um desenvolvimento lógico e coerente, mas que, muito pelo contrário, surgem como arbitrárias e irregulares, e isto incomoda, sobretudo porque uma pessoa é sempre tentada a intervir, para introduzir aquela correcção que lhe parece necessária, e não o pode fazer porque está morta. Donde uma atitude de relutância, quase de embaraço, mas ao mesmo tempo de suficiência, como a de alguém que sabe que o que conta é a sua própria experiência passada e que a tudo o mais não vale a pena atribuir demasiado peso. Um sentimento dominante não tarda a apresentar-se em seguida, impondo-se sobre todo e qualquer pensamento: é o alívio por se saber que todos os problemas são problemas dos outros, que é tudo lá com eles. Aos mortos já não deveria interessar mais nada de nada, porque já não lhes diz respeito pensar em nada disso; e mesmo que isso possa parecer imoral, é nesta irresponsabilidade que os mortos encontram a sua alegria.
Quanto mais o estado de ânimo do senhor Palomar se aproxima daquele que foi aqui descrito, tanto mais a ideia de estar morto se lhe apresenta como uma ideia natural. É verdade que não encontrou ainda a sublime distanciação que pensava que fosse apanágio dos mortos, nem uma razão que vá além de toda e qualquer explicação, nem a saída para fora dos seus próprios limites, como se sai de um túnel que desemboca noutras dimensões. Há momentos em que tem a ilusão de se ter libertado, pelo menos, da impaciência que toda a vida o acompanhou, quando vê os outros errarem em todas as coisas que fazem e pensa que, no lugar deles, também teria errado não menos do que eles, mas que apesar de tudo teria dado por isso. Mas, afinal, de modo algum se conseguiu libertar, e percebe que a impaciência motivada pelos seus erros e pelos erros dos outros se perpetuará juntamente com os próprios erros, que nenhuma morte pode cancelar. Mais vale portanto habituar-se à ideia: para Palomar, estar morto, significa habituar-se à desilusão de se sentir igual a si próprio, num estado definitivo que já não pode esperar modificar.
Palomar não subavalia as vantagens que a condição do vivo pode ter sobre a condição do morto, não no sentido do futuro, onde os riscos são sempre muito fortes e os benefícios podem ser de curta duração, mas sim no sentido da possibilidade de melhorar a forma do nosso próprio passado. (A não ser que uma pessoa esteja já plenamente satisfeita com o seu próprio passado, caso esse que é demasiadamente pouco interessante para que mereça a pena ocuparmo-nos dele). A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o último poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, não porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez incluídos na vida, os acontecimentos dispõem-se segundo uma ordem que não é cronológica mas que corresponde a uma arquitectura interna. Uma pessoa, por exemplo, lê na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: «Como podia viver sem o ter lido!» e ainda: «Que pena não o ter lido quando era jovem!». Pois bem, estas afirmações não fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque até a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura.
Este é o passo mais difícil para quem aprende a estar morto: convencer-se de que a sua própria vida é um conjunto fechado, todo no passado, ao qual não se pode juntar nada, nem introduzir modificações de perspectiva na relação entre os vários elementos. É certo que os que continuam vivos podem, com base nas modificações por eles vividas, introduzir modificações inclusive na vida dos mortos, dando forma àquilo que a não tinha ou que parecia ter uma forma rebelde naquele que tinha sido vituperado pelos seus actos contra a lei, celebrando um poeta ou um profeta naquele que se tinha visto condenar à neurose ou ao delírio. Mas são modificações que contam sobretudo para os vivos. Eles, os mortos, dificilmente tiram delas qualquer proveito. Cada um é feito daquilo que viveu e do modo como o viveu, e isto ninguém lho pode tirar. Quem viveu sofrendo, fica feito pelo seu sofrimento; se pretendem tirar-lho, deixa de ser ele.
(…)
E assim, de adiamento em adiamento, chega-se ao momento em que será o tempo a gastar-se e a extinguir-se num céu vazio, quando o último suporte material da memória do viver se tiver degradado numa labareda de calor, ou tiver cristalizado os seus átomos no gelo de uma ordem imóvel.
«Se o tempo tem de se acabar, podemos descrevê-lo, instante a instante — pensa Palomar — e cada instante, ao ser descrito, dilata-se tanto que deixa de se lhe ver o fim.» Decide que se vai pôr a descrever cada instante da sua vida e que, enquanto não os tiver descrito a todos, deixará de pensar que está morto. Naquele momento morre.
in PalomarPortanto, agora, o senhor Palomar deveria experimentar uma sensação de alívio, não tendo que continuar a perguntar-se que coisa lhe prepara o mundo, e deveria igualmente sentir o alívio do mundo, o qual já não tem de se preocupar com ele. Mas é exactamente a expectativa de saborear esta calma que torna ansioso o senhor Palomar.
Em suma, estar morto é menos fácil do que perecer. Em primeiro lugar, não se deve confundir o estar morto com o não estar, condição que ocupa também a interminável extensão de tempo que antecede o nascimento, aparentemente simétrica da outra, igualmente ilimitada, que se segue à morte. De facto, antes de nascer fazemos parte das infinitas possibilidades às quais acontecerá, ou não acontecerá, realizarem-se, ao passo que, uma vez mortos, não podemos realizar-nos, nem no passado (ao qual pertencemos agora inteiramente mas sobre o qual já não podemos influir) nem no futuro que, apesar de influenciado por nós, nos permanece vedado. O caso do senhor Palomar é uma realidade mais simples, porquanto a sua capacidade de influir sobre alguma coisa ou sobre alguém foi sempre desprezível; o mundo pode muito bem passar sem ele e ele pode considerar-se morto com toda a tranquilidade, sem sequer alterar os seus hábitos. O problema é a modificação, não aquilo que ele faz, mas sim aquilo que ele é, e mais exactamente aquilo que ele é em relação ao mundo. Dantes, por mundo, ele entendia o mundo mais ele; agora, trata-se dele mais o mundo menos ele.
O mundo menos ele quererá dizer o fim da ansiedade? Um mundo no qual as coisas aconteçam independentemente da sua presença e das suas reacções, seguindo uma sua lei, ou necessidade, ou razão, que não lhe diz respeito? Bate a onda no escolho e escava a rocha, aparece uma outra onda, uma outra, ainda uma outra; quer ele esteja em acção quer não, tudo continua a acontecer. O alívio por estar morto deveria ser este: eliminada aquela mancha de inquietação que é a nossa presença, a única coisa que conta é o desenrolar e o suceder-se das coisas sob o sol, na sua serenidade impassível. Tudo é calma e tende para a calma, até mesmo os furacões, os terramotos, a erupção dos vulcões. Mas não era o mundo já assim quando ele lá estava? Quando cada tempestade trazia em si mesma a paz do depois preparava o momento em que todas as vagas se teriam abatido contra a costa e em que o vento teria esgotado a sua força? Talvez que o estar morto seja passar para o oceano das ondas que permanecem ondas para sempre, sendo portanto inútil esperar que o mar se acalme.
O olhar dos mortos é sempre um tanto ou quanto deprecatório. Lugares, situações, ocasiões são grosso modo aquelas que uma pessoa já conhecia e reconhecê-las traz sempre uma certa satisfação, mas ao mesmo tempo notam-se muitas variações, pequenas ou grandes, as quais, por si só, se poderiam aceitar, se correspondessem a um desenvolvimento lógico e coerente, mas que, muito pelo contrário, surgem como arbitrárias e irregulares, e isto incomoda, sobretudo porque uma pessoa é sempre tentada a intervir, para introduzir aquela correcção que lhe parece necessária, e não o pode fazer porque está morta. Donde uma atitude de relutância, quase de embaraço, mas ao mesmo tempo de suficiência, como a de alguém que sabe que o que conta é a sua própria experiência passada e que a tudo o mais não vale a pena atribuir demasiado peso. Um sentimento dominante não tarda a apresentar-se em seguida, impondo-se sobre todo e qualquer pensamento: é o alívio por se saber que todos os problemas são problemas dos outros, que é tudo lá com eles. Aos mortos já não deveria interessar mais nada de nada, porque já não lhes diz respeito pensar em nada disso; e mesmo que isso possa parecer imoral, é nesta irresponsabilidade que os mortos encontram a sua alegria.
Quanto mais o estado de ânimo do senhor Palomar se aproxima daquele que foi aqui descrito, tanto mais a ideia de estar morto se lhe apresenta como uma ideia natural. É verdade que não encontrou ainda a sublime distanciação que pensava que fosse apanágio dos mortos, nem uma razão que vá além de toda e qualquer explicação, nem a saída para fora dos seus próprios limites, como se sai de um túnel que desemboca noutras dimensões. Há momentos em que tem a ilusão de se ter libertado, pelo menos, da impaciência que toda a vida o acompanhou, quando vê os outros errarem em todas as coisas que fazem e pensa que, no lugar deles, também teria errado não menos do que eles, mas que apesar de tudo teria dado por isso. Mas, afinal, de modo algum se conseguiu libertar, e percebe que a impaciência motivada pelos seus erros e pelos erros dos outros se perpetuará juntamente com os próprios erros, que nenhuma morte pode cancelar. Mais vale portanto habituar-se à ideia: para Palomar, estar morto, significa habituar-se à desilusão de se sentir igual a si próprio, num estado definitivo que já não pode esperar modificar.
Palomar não subavalia as vantagens que a condição do vivo pode ter sobre a condição do morto, não no sentido do futuro, onde os riscos são sempre muito fortes e os benefícios podem ser de curta duração, mas sim no sentido da possibilidade de melhorar a forma do nosso próprio passado. (A não ser que uma pessoa esteja já plenamente satisfeita com o seu próprio passado, caso esse que é demasiadamente pouco interessante para que mereça a pena ocuparmo-nos dele). A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o último poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, não porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez incluídos na vida, os acontecimentos dispõem-se segundo uma ordem que não é cronológica mas que corresponde a uma arquitectura interna. Uma pessoa, por exemplo, lê na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: «Como podia viver sem o ter lido!» e ainda: «Que pena não o ter lido quando era jovem!». Pois bem, estas afirmações não fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque até a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura.
Este é o passo mais difícil para quem aprende a estar morto: convencer-se de que a sua própria vida é um conjunto fechado, todo no passado, ao qual não se pode juntar nada, nem introduzir modificações de perspectiva na relação entre os vários elementos. É certo que os que continuam vivos podem, com base nas modificações por eles vividas, introduzir modificações inclusive na vida dos mortos, dando forma àquilo que a não tinha ou que parecia ter uma forma rebelde naquele que tinha sido vituperado pelos seus actos contra a lei, celebrando um poeta ou um profeta naquele que se tinha visto condenar à neurose ou ao delírio. Mas são modificações que contam sobretudo para os vivos. Eles, os mortos, dificilmente tiram delas qualquer proveito. Cada um é feito daquilo que viveu e do modo como o viveu, e isto ninguém lho pode tirar. Quem viveu sofrendo, fica feito pelo seu sofrimento; se pretendem tirar-lho, deixa de ser ele.
(…)
E assim, de adiamento em adiamento, chega-se ao momento em que será o tempo a gastar-se e a extinguir-se num céu vazio, quando o último suporte material da memória do viver se tiver degradado numa labareda de calor, ou tiver cristalizado os seus átomos no gelo de uma ordem imóvel.
«Se o tempo tem de se acabar, podemos descrevê-lo, instante a instante — pensa Palomar — e cada instante, ao ser descrito, dilata-se tanto que deixa de se lhe ver o fim.» Decide que se vai pôr a descrever cada instante da sua vida e que, enquanto não os tiver descrito a todos, deixará de pensar que está morto. Naquele momento morre.
tradução de João Reis
estórias, editorial teorema
1985
texto lido, partilhado pela e para a Marta
Chambres, Rooms, Zimmers

Foram muitos os inquilinos
Foram muitos os proprietários
Foram muitos os espectadores
Que nos obrigaram a manter o
"Chambres, Rooms, Zimmers"
até 8 de Março!
Dirija-se à Galeria Santa Clara receba um MP3 e a partir daí comece uma viagem à procura de "Chambres, Rooms, Zimmers".
Veja Coimbra a transformar-se num grande palco, com um percurso que cruza a procura de um quarto para partilhar, com os respectivos senhorios e as vozes que povoam a cidade construída através das memórias e espaços imaginários. E é da recolha destas memórias, histórias, personagens, imagens, sons e trajectos que nasce nesta cidade, território de exploração, o cenário para este teatro sonoro.
No final, regresse à Galeria Santa Clara e devolva o MP3.
Duração do percurso: 1h15m
De Segunda a Sábado entre as 14h e as 18h - Preço do bilhete: 4€
Direcção Artística: Ricardo Correia
Texto, Dramaturgia* e documentação Geográfica: Ricardo Correia, Hélder Wasterlain e Filipa Alves
Apoio Dramatúrgico: Jorge Louraço
Paisagem Sonora: Luís Pedro Madeira
Actores/Vozes: António Mortágua, Rita Moreira, João Paulo Janicas, Rui Damasceno, Fernando Taborda, Ricardo Correia, Filipa Alves, Helder Wasterlain, Mónica Gomes, Pedro Arinto, Marlise Gaspar, Maria Graça Polaco, Luís Pedro Madeira e Névia Vitorino.
Intervenção plástica: Carolina Santos, Andrêa Inocêncio e Filipa Alves
Produção executiva: Hélder Wasterlain, Marlise Gaspar, Mónica Gomes.
Co-produção: Associação Cultural Rio Contigo e a Casa da Esquina – Associação Cultural
*A partir de alguns fragmentos de textos de Ítalo Calvino, Miguel Torga, Eça de Queirós, Gil Vicente, Carlos de Oliveira, António Nobre.
Contacto para entrevistas: Ricardo Correia – 96.8360617
Contacto para reservas: 91.6814585 ou 963421452; ou através do e.mail: helder.wasterlain@gmail.com
Veja Coimbra a transformar-se num grande palco, com um percurso que cruza a procura de um quarto para partilhar, com os respectivos senhorios e as vozes que povoam a cidade construída através das memórias e espaços imaginários. E é da recolha destas memórias, histórias, personagens, imagens, sons e trajectos que nasce nesta cidade, território de exploração, o cenário para este teatro sonoro.
No final, regresse à Galeria Santa Clara e devolva o MP3.
Duração do percurso: 1h15m
De Segunda a Sábado entre as 14h e as 18h - Preço do bilhete: 4€
Direcção Artística: Ricardo Correia
Texto, Dramaturgia* e documentação Geográfica: Ricardo Correia, Hélder Wasterlain e Filipa Alves
Apoio Dramatúrgico: Jorge Louraço
Paisagem Sonora: Luís Pedro Madeira
Actores/Vozes: António Mortágua, Rita Moreira, João Paulo Janicas, Rui Damasceno, Fernando Taborda, Ricardo Correia, Filipa Alves, Helder Wasterlain, Mónica Gomes, Pedro Arinto, Marlise Gaspar, Maria Graça Polaco, Luís Pedro Madeira e Névia Vitorino.
Intervenção plástica: Carolina Santos, Andrêa Inocêncio e Filipa Alves
Produção executiva: Hélder Wasterlain, Marlise Gaspar, Mónica Gomes.
Co-produção: Associação Cultural Rio Contigo e a Casa da Esquina – Associação Cultural
*A partir de alguns fragmentos de textos de Ítalo Calvino, Miguel Torga, Eça de Queirós, Gil Vicente, Carlos de Oliveira, António Nobre.
Contacto para entrevistas: Ricardo Correia – 96.8360617
Contacto para reservas: 91.6814585 ou 963421452; ou através do e.mail: helder.wasterlain@gmail.com
Blog do projecto: chambresroomszimmers.blogspot.com
Apoios: Ministério da Cultura – Direcção Regional da Cultura do Centro | Galeria Santa Clara | Café Santa Cruz | Livraria XM | SMTUC | TEUC | RUC
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