sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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boas!

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a verdade é que as obras anunciadas neste blog são de tipo sta engrácia, estão em andamento-interrompidas

como não gostamos (eu e o gato) de ver o blog no aspecto interrupção não-anunciada, exibimos aqui provas do nosso ócio
até já, até sempre!

aviso à navegação


Este blog estará inactivo temporariamente para obras, entretanto vou estando por ali e por ali

Olá :)

ah! Deixo-vos esta photo que me tem povoado

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photo de Hyeyoung Kim, que encontrei via Alex

[ presentes envenenados ]



Hoje trouxeram-me um pouco das minhas crianças, estão todas longe. A minha vida é feita de distâncias.
Longe é sempre demasiado longe.
Não sei como explicar as emoções que me provoca cada uma das minhas crianças, seria até ridículo tentar. Muito para além das alegrias, dos medos, das preocupações, é esta coisa da biografia… a história individual de cada uma que me traz sempre em espanto.
Reconcilio-me com o mundo por momentos. Se digo que me reconcilio, não é porque ande danada com o mundo, mas porque tantas vezes me encontro abespinhada connosco.
Hoje inundou-me um belo estado de graça, foi resultado do pedaço das minhas crianças que me trouxeram.
Por momentos, envenenaram-me o presente, ao regressar a casa, na caixa do correio encontrei panfletos horrendos em campanha pelo “não” no referendo, 3 panfletos com dados mentirosos, sem o menor escrúpulo, de um desrespeito inqualificável. (não me prestarei o desprezo de descrever o conteúdo dos panfletos que nem referem a identificação da origem) Senti-me tão zangada. Passou-me pela cabeça aquele sentimento confuso de impotência: não poderei proteger as minhas crianças disto. Quis reuni-las todas no meu regaço. Quis correr. Quantos de nós não tiveram já daquelas urgências de correr e nos fecharmos numa casa só com os nossos? Sou convicta de que já aconteceu a toda a gente, confesso que a mim acontece frequentemente.
Acalmei. Lembrei-me que isto é assim mesmo e que, enfim, perco-me numa certa ingenuidade quando me esqueço de que a protecção não é negar a realidade às nossas crianças, mas oferecer-lhes o que vamos sabendo sobre como aqui estar. Acalmei.
Regressei à minha lavra que é esta embriaguez acordada e a barriga dessincronizada a manter-me os pés de pé. É o frio das mãos frias arrasado pelo calor real destas ideias. Os nossos. São estas coisas a ferir os medos.
Revolvido de novo cada susto, nenhum se melindrou. Deve ser esta a notícia a espalhar.





E sim, sim à vida que a canção exalta e reconhece. Espalhem a notícia.
Sérgio Godinho
via Daniel Oliveira "Como podem tornar bandeira política uma coisa tão imensa, tão pessoal, tão intima? Como?" no blog Sim no refrendo


photo de Sandra Ferrás

CÓDIGOS CRIMINAIS, CÓDIGOS MORAIS E CÓDIGOS ÉTICOS

Não assisti aos anteriores prós e contras sobre esta questão do referendo, vi na passada 2ªfeira e valeu pelo testemunho da Dra. Ana Lourenço.
Lamento ter tido a oportunidade de ver cientistas como a Dra. Jerónima Teixeira distorcer dados dos seus próprios trabalhos para defender uma posição num referendo (que se refere ao tempo limite de 10 semanas de gravidez para a interrupção despenalizada) utilizando a frase pronta-a-comover “para a mãe portuguesa ter conhecimento daquilo que o seu bebé sente no útero antes de tomar uma decisão” referindo, posteriormente, que “existe dor a partir das 20 semanas” mas que, enfim, está a tentar provar a dor antes das 10 semanas (tempo de gestação convenientemente estabelecido neste contexto de referendo?!). É preciso explicar quão baixo foi este golpe à ciência e às grávidas (não mães)? Também foi lamentável ver o Professor Manuel Antunes mostrar dois gráficos, comparando o aborto na Inglaterra, entre 1969 e 2002 sem qualquer contextualização.
Desalento, é o sentimento que fica quando se vê um cientista actuar assim, mas isto sou eu que acho que a medicina é uma ciência nobre e tenho a mania de pensar que se deve respeitar a ciência separando-a de crenças pessoais.
Acrescento, ainda, o que muito bem citou a Dra. Heloísa Santos e infelizmente foi ignorado durante todo o debate:

Organização Mundial da Saúde

“Os governos têm de avaliar o impacto dos abortos inseguros, reduzir a necessidade de abortar e proporcionar serviços de planeamento familiar alargados e de qualidade, deverão enquadrar as leis e políticas sobre o aborto tendo por base um compromisso com a saúde das mulheres e com o seu bem-estar e não com base nos códigos criminais e em medidas punitivas."


Deixo aqui o post do blog médicos pela escolha. Os bolds são meus.

O testemunho de Ana Lourenço

"Blowing in the wind"… Lembrei-me da famosa canção de Bob Dylan ao acabar de ler o último comentário da Ana Matos Pires. "Quantas mais vidas de jovens serão necessárias perder para percebermos que já se perderam vidas demais?" (tradução livre...). E gostava de deixar aqui uma mensagem para todos os meus colegas médicos, e aos ginecologistas e obstetras em particular. Não é uma mensagem "técnica" nem especialmente bem sistematizada. Antes de mais é uma mensagem simples mas franca.

Há fundamentalmente duas razões para se votar Sim no dia 11 de Fevereiro:

1) fazer parar o aborto clandestino e as mortes e sequelas dele decorrentes;

2) entendermos que a mulher tem uma palavra a dizer e o direito de decidir no que diz respeito ao seu próprio corpo e à sua vida futura.

Poderão existir divergências de opinião em relação ao ponto 2) mas não é admissível que, enquanto médicos, fechemos os olhos aos crimes que se vão praticando diariamente, aos quais uma alteração da lei poderia pôr um ponto final, o que reporta para o argumento apresentado no primeiro ponto.

Uma alteração da lei (se ela se concretizar) implicará alterações nas atitudes e no funcionamento de muitos médicos. Mas mesmo que a lei seja alterada é preciso mudar as práticas no nosso cantinho a que chamamos Portugal. Aquilo que preconizo é muito simplesmente o resultado da minha experiência no terreno, das consultas com adolescentes, das consultas de contracepção e de interrupção de gravidez (as minhas únicas escolas). A pouco e pouco, mas com passo firme, teremos de aprender a considerar a mulher menos como uma "doente" a quem podemos pôr um rótulo "diagnóstico" e prescrever um tratamento seguro e eficaz, e mais como um ser humano complexo com uma história pessoal e conjugal únicas (como são todas as nossas histórias pessoais), crenças, conhecimentos e lacunas próprias. Nesse sentido o nosso papel de médicos é mais de "acompanhamento" e informação, chamando a atenção para incoerências fundamentais e contradições mas dando sempre à mulher a última palavra sobre o seu destino, o seu "tratamento". De certa forma é aceitarmos que o nosso papel é "modesto" mas essencial no seu acompanhamento. É, também, o de reconhecermos e de darmos a entender às mulheres que, em última análise, elas são responsáveis pelas decisões que tomam e que depois têm de assumir.

Para terminar gostaria de acrescentar que "ninguém está sozinho" e que como profissionais que somos, interessados antes do mais no bem estar dos nossos "utentes", também poderemos, e deveremos, olhar à nossa volta para os nossos colegas que estarão certamente lá (pelo menos alguns) para nos ajudar a passar por todas estas transições...

Contem comigo, Ana Lourenço.

produções murcon :P



via Sim no Referendo
atenção
post reproduzido na íntegra

Proposta
Aos do Não

Especialmente aos compassivos que votam Não

mas querem,

logo no dia seguinte,

apresentar legislação que despenalize a IVG.


Ao dr Castro Caldas, À Dra Matilde, à dra Carneiro, ao Dr Marques Mendes et al.



Eu voto sim exactamente pelas vossas razões. Acho inapropriado criminalizar as mulheres que, naquelas circunstâncias, não querem ser mães.

Mas concordo com os vossos Padres e Psiquiatras: alguma culpa deve existir. Alguma culpa deve ser expiada. Algo deve persistir no Código Penal como dissuasor do Dr. Aguiar Branco.

Assim declaro que logo no dia seguinte à vitória do SIM, apresentarei nos lugares competentes, propostas de legislação que punam até três anos de cadeia os presuntos responsáveis dos factos em causa. As mulheres indicarão À Comissão de Acompanhamento o nome do indivíduo que participou com os gâmetas masculinos e, apurada a verdade, aplicar-se-lhe-á a pena constante do artigo 140 do Código Penal que passará a ter a seguinte redacção:
O responsável pela gravidez da mulher que der consentimento ao aborto ou se fizer abortar é punido com a pena de prisão até três anos.

por Luis n'A Natureza do Mal

os fundamentalistas do não compensam o seu desamor pelas pessoas existentes com a proclamação do amor por princípios, dogmas...

A palavra decisiva

O Prof. J.L. Pio Abreu, psiquiatra e professor da Universidade de Coimbra, envia este importante artigo. Venham mais!


Nas discussões sobre o próximo referendo, raras vezes tenho ouvido a decisiva palavra: amor. Tenho ouvido, sim, sobretudo pela parte dos adeptos do não, um fundamentalismo irracional cheio de zanga e intolerância, um desprezo punitivo pelos momentos mais dramáticos das mulheres concretas, reais e normais. Enquanto olham para os adeptos do sim (felizmente a maioria) como criminosos, os fundamentalistas do não compensam o seu desamor pelas pessoas existentes com a proclamação do amor por princípios, dogmas, seres em potência, não existentes como realidade concreta nem como objectos passíveis do amor das pessoas.
O que mais se vê aqui é desamor. Significativamente, em nome de uma “verdade científica” proclamada por quem nada sabe de ciência e que não sabe sequer que a ciência é avessa aos dogmas, procura a dúvida e tem de ser tolerante. Os adeptos da nova moral biológica esqueceram-se da espiritualidade, caindo paradoxalmente num materialismo simplório: uma célula ou um conjunto delas chega para definir uma pessoa. Não se questionam mais. Nem se questionam sequer sobre o destino que deram aos biliões de espermatozóides ou às dezenas de óvulos que geraram dentro de si.


Aceito que muitos adeptos do não terão passado por experiências decisivas que marcaram as suas opções. Não duvido do seu amor aos filhos que tiveram, eventualmente em circunstâncias difíceis, ou que desejaram ter. Esses filhos, mesmo em potência, têm toda a dignidade humana porque foram desejados. Não é porém o caso de quem se vê obrigado a fazer contracepção ou a interromper uma possível gravidez.
Como psiquiatra, sei que os abortos, espontâneos ou provocados, fazem parte da vida de quase todas as mulheres. Alguns podem passar sem sofrimento, excluindo o trauma e a perda de liberdade que resulta do aborto clandestino, ou o drama de transportar o segredo no seio de famílias conservadoras e fundamentalistas. Excluindo também a culpabilidade gerada nas campanhas para os referendos. Toda a questão é saber se a criança era desejada ou não, e qual o empenho amoroso dos pais que, por vezes, já tinham um nome para ela. Neste caso, tratava-se de um ser humano, fosse qual fosse o tempo de gestação.
Nem sempre é assim, e muitas gravidezes iniciais nem sequer são percebidas, se não negadas. Existem mesmo gestações destinadas à adopção (embora uma mulher que prossiga uma gravidez a termo possa criar, por vezes desesperadamente, laços com a criança que vai nascer). Mas se não for a mãe biológica, alguém que encontre a criança irá ter compaixão e amor por ela, e será esse o seu verdadeiro nascimento como pessoa. Sem isso, nem sequer sobreviveria.
O que dá o estatuto humano ao novo ser, seja ele um recém-nascido, feto ou ser em potência, é o primeiro acto de amor para com ele. Curiosamente, é essa a grande verdade que o ritual religioso do baptismo nos ensina.
J. L. Pio Abreu
Psiquiatra, Professor da Universidade de Coimbra


nós somos as barbuletas das ajas pretas, às riscas azulis... aboamos à bolta das alâmpadas e queimamos os neuróniozinhos... *

via Sim no Referendo

atenção
post reproduzido na íntegra
do blog sim no referendo

GP-fBD.jpgCreio que é compatível o voto na despenalização e o ser - por pensamentos, palavras e obra - pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O "SIM" à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, embora haja sempre doidos e doidas para tudo. Frei Bento Domingues, Público, ontem.

brilhantismo.

Eu votei NÃO há 8 anos.

Pois, votei NÃO, não via outra coisa à frente que não fosse o embrião/feto, não me conseguia abstrair. Há 8 anos, ao tentar reflectir sobre esta questão só pensava na interrupção daquela vida, não conseguia pensar em mais nada, não conseguia respeitar mais nada. Tive discussões imensas com amigos, a minha família era toda do não. O tempo passou, eu mudei, não vale a pena descrever aqui o processo que é meu, reflecti e aprendi a ver outras realidades.
Desde que se retomou esta discussão na actualidade política, com data marcada, curiosamente, só tive uma conversa com uma pessoa que vai votar não. Essa pessoa que se assumiu do não referiu sê-lo por um certo receio do que pode acontecer, pelo flagelo… o possível aumento do número de abortos se despenalizado. Pelo que me parece, essa pessoa vota não com a ideia de que, sendo penalizado o aborto, as mulheres não recorrerão tão facilmente (por impulso!?!) a ele e se pode, talvez, salvar pelo menos um feto, qualquer coisa assim. Pois, não me parece uma teoria muito sólida, não sei como vai o Estado assegurar a IVG às mulheres, mas não me parece que venha a ser um serviço instantâneo. Quero dizer com isto que, mesmo conhecendo as limitações do nosso SNS, não me parece que a IVG venha a ser realizada sem a participação da equipa médica, como explica o Dr. Mário Sousa «É nossa obrigação enquanto médicos saber por que não o podem fazer. Se o problema é a família ou o parceiro, devemos oferecer-nos como mediadores. Se invocarem razões económicas, devemos chamar uma assistente social afectiva e compreensiva que as acompanhe e lhes indique meios de subsistência.». Podem chamar-me ingénua quanto ao SNS, mas eu só posso esperar e exigir aquilo a que tenho direito, assim, espero que seja assegurado às mulheres um serviço de apoio na decisão quando existe dúvidas, serviço este que não existe DE CERTEZA no aborto clandestino. Atenção que estou a falar de situações dúbias, não estou a por em causa as razões das mulheres que sabem o que querem e a quem as certezas sobre a IVG são infinitamente maiores do que as dúvidas.

Diz que… É preciso é respeitar a ideia de cada um… ser-se humilde e essas coisas ditas de bem...

# Quanto ao cidadão que vota não, porque não, porque só vê o feto à frente e não consegue enxergar mais nada, só posso dizer que pouco há a fazer senão esperar que se digne a sair do seu umbigo e olhar para outras vertentes da realidade.

# Quanto ao cidadão que vota não, mas até concorda com algumas situações, custa-me imenso que tenha o direito de me tratar como uma possível irresponsável e inconsciente. Esse cidadão vota por mesquinhez, porque é isso mesmo - mesquinhez: para concordar com a IVG, esse cidadão que tem o direito de se pronunciar quanto a esta lei varia a opinião consoante as histórias tipo-TVI que lhe são relatadas. A Assembleia da República deu a real possibilidade aos cidadãos de julgar os outros. Acontece que não se dão conta que só podem, e estão... vão mesmo julgar e penalizar as mulheres desfavorecidas ao votar não, porque a realidade manter-se-á como tal se a lei não mudar, ou seja: continua a haver abortos, os mesmos, porque os motivos das mulheres não se alterarão. Não estão a salvar vidas ao votar não, muito possivelmente pelo contrário...

# Não confio num cidadão que não respeita a minha privacidade. Tenho o direito de não partilhar com quem quer que seja os meus motivos pela decisão de abortar (salvo com a equipa clínica dentro do que é a competência de cada profissional de saúde). Se um cidadão precisa de conhecer as minhas motivações para concordar, ou não, com o referido aborto (é ridículo este início de frase, não é? Leiam e repitam em voz alta a ver se não rings-a-bell do ridículo que é esta situação de alguém se achar no direito de interferência) eu digo bah! para esse cidadão e a sua consciência social… Traduzindo a frase que deixei em epígrafe do blog: se não confiam em mim no poder de decisão, como podem confiar-me uma criança?!!!

O que queria mesmo dizer é que quem vota não está a enganar-se e a adiar a legalidade da realidade. A IVG será legal no nosso país, mais cedo ou mais tarde, porque as mentalidades de facto evoluem, tenho pena que até lá tenhamos de esperar mais e continuem a morrer e a sofrer as mulheres desfavorecidas: SIM, falo das mulheres desfavorecidas que é por elas que vou votar. Se estivesse em causa a possibilidade de eu realizar uma IVG em condições de segurança, ficava em casa no dia 11, que quanto ao resto envolvido na IVG não tenho quaisquer intenções de me expor.

Se eu soubesse que todas as mulheres portuguesas tinham os mesmos acessos económicos e afectivos que eu, ficava em casa no dia 11 e sentir-me-ia muito mais respeitada, pois já me parece suficientemente indigno ter de me pronunciar sobre isto num boletim de voto.

No dia 11 voto SIM pela dignidade, por uma questão de saúde pública.
imagem: Vera Drake

I’d never said Yes for nothing without thinking about some involved aspects of it


por FF, na Tomografia das Emoções

aquele que me explicar o que não é assim tão óbvio... leva uma prenda

Será o aborto uma ameaça tão grave quanto o terrorismo?
#? D. José Policarpo lá foi confrontado por Judite Sousa com a questão… respondeu com a defesa de que se terá feito uma comparação facilitadora deturpando as palavras do padre-que-é-o-mais-santo-de-todos. Afinal, o que o padre-que-é-o-mais-santo-de-todos disse foi que o terrorismo, o aborto e a eutanásia, entre outros exemplos, são igualmente atentados contra a vida. Ficámos, então, esclarecidos: não houve tentativa de comparação. (!?!)

#? O padre-que-não-é-tão-santo-quanto-o-que-vive-no-vaticano até compreende os casais que decidem pela IVG no caso de infelicidade de ter um filho deficiente. ‘tão a ver? Até é tolerante.

O que interessa é a tolerância, meus caros. Tenhamos a lei escritinha a penalizar uma realidade existente que os senhores juízes lá vão encontrando forma de a contornar. Mantenhamo-nos no não apoiado pelo obscurantismo que é apanágio da história da humanidade.

Medo a medo, enche o paternalismo o papo.
Agora, não à despenalização da IVG, por medo. Não podemos correr o risco de haver essa coisa do demo… a. l i b e r a l i z a ç ã o.
O que não compreendo é o medo de que se venha a realizar (mais*) abortos depois da despenalização. Não saberão já os defensores do não que o aborto É?
Num quadro de real despenalização da IVG, não imagino que no SNS se crie um sistema de IVG à moda da freguesa. Suspeito que poucas, ou nenhumas, perguntas serão feitas à mulher que se dirige aos serviços de aborto clandestino… Imaginam mesmo os defensores do não que, na possibilidade da despenalização, as equipas médicas estejam ali tipo alfaiate que apenas tem de fazer a casaca segundo o desejo do cliente? Desconhecem na totalidade as realidades dos outros países onde é liberalizado?
Imagino que, por exemplo, a possibilidade de alguém vir a fazer um aborto por coação será bem maior num sistema de penalização do que na liberalização, passa-se tudo num sub-mundo em que a mulher que possa ter dúvidas e não tenha meios de se esclarecer será mais facilmente induzida no equívoco, até porque está pressionada pelo "pormenor" da ilegalidade do acto. E penso que não é necessário falar de mais realidade (REALIDADE, no singular)… as complicações pós-intervenção de que tantas mulheres são flageladas, como outro exemplo.
Estes medos, para mim, são tanto maiores quanto a clandestinidade à qual esta realidade continua a ser confinada.
A história é sempre a mesma, de facto. O terrorismo, o aborto e a eutanásia, entre outros exemplos, são igualmente atentados contra a vida, explicou o padre-que-não-é-tão-santo-quanto-o-que-vive-no-vaticano.
Agora, não à despenalização da IVG, por medo. Depois, não à eutanásia, por medo. Não podemos correr o risco de haver alguém a decidir e no dia seguinte se arrepender… ah, pois já não estará cá para se arrepender caso surja a cura para a sua doença no exacto dia seguinte à aplicação da eutanásia. (não, não é leviandade minha a falar da eutanásia, chamemos-lhe ironia sobre alguns argumentos contra)

Não há pachorra.
Enfim, e tal. E coisa. Isto sou eu a falar, que é a falar que a gente se entende… ‘xa cá ver… eu penso assim, e tu como pensas? Dou por mim intolerante… com a intolerância do “eu até sou tolerante, mas… não”.
Continuemos com tudo na mesma. Como a lesma.

Que mau feitio, margarete.

porque sim

deixo aqui, na íntegra, este texto de Ana Matos Pires, médica psiquiatra pela escolha
(resisti e não fiz bolds, recolho-me e deixo-vos a ler sossegados)


Aborto e psiquiatria

Enquanto psiquiatra, sempre me bati pela não psiquiatrização da vida quotidiana. Defendo esta minha posição por duas razões principais. Primeiro, porque me parece que a normalidade é, felizmente, suficientemente lata para comportar um mundo de diferenças e, em segundo lugar, mas não menos importante, porque a doença mental é profundamente disruptiva, com consequências para o próprio e para terceiros, pelo que a decisão diagnóstica se deve revestir do maior rigor possível. Além disso, quero continuar a poder reagir, adequada e saudavelmente, com tristeza, alegria, raiva, irritação a diferentes acontecimentos da minha vida, sem que isso determine o diagnóstico de perturbação depressiva, bipolar, do controlo dos impulsos ou uma outra qualquer perturbação não devidamente fundamentada em critérios médicos!

Serve esta introdução para falar, medicamente e com a maior honestidade, sobre o binómio aborto e psiquiatria.

A definição de uma entidade nosológica obedece a um conjunto de regras metodológicas que permitem a sua objectivação. Os mesmos princípios são aplicados à definição de uma entidade sindromática mas, neste último caso, apenas há que provar a consistência daquele conjunto de sintomas e sinais, não sendo necessário, por definição, adjudicar-lhe um factor etiopatogénico definido. Tomemos como exemplo o síndrome febril. Do ponto de vista etiológico ele pode ser secundário a uma infecção, uma neoplasia, uma doença auto-imune, isto é, a um mesmo síndrome podem corresponder diferentes entidades clínicas ou, melhor ainda, nosológicas. Assim, por não se lhe aplicarem as premissas acima referidas, não faz sentido falar em Síndrome Pós-Aborto (SPA).

Enquanto entidade nosológica autónoma ele também não existe. Nenhum dos dois instrumentos classificativos internacionais mais amplamente usados em psiquiatria, a International Classification of Diseases, 10th Edition (ICD-10) e o Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders, 4th Edition, Text Revised (DSM IV-TR), lhe confere identidade própria, nem o refere como sub-tipo de qualquer uma das possíveis categorias diagnósticas, nomeadamente não está contemplado como sub-tipo da Perturbação Pós Sress Traumático. (Se quisesse ser demagógica ou intelectual e cientificamente desonesta era altura para argumentar pelo contrário, os quadros afectivos e psicóticos pós-parto estão e não é por isso que se torna defensável criminalizar a gravidez!...)

Já agora, permitam-me um parêntesis para dar conta daquilo que, do ponto de vista médico, considero informações que fogem à verdade ou que não são correcta e devidamente sustentadas em termos clínico-científicos. Sendo imputadas a dois médicos, o assunto assume relevância acrescida.

Um destes dias li, num texto da autoria do ginecologista e mandatário de um dos movimentos do “Não” J. Malta, a seguinte passagem “O que dizer então sobre as consequências [do aborto] sobre a saúde psíquica da mulher? A existência de uma síndroma pós-aborto é escondida ou, pior, negada por sectores sociais sempre dispostos a citar autores favoráveis às suas teses. A realidade dos factos, atestada pelas mais eminentes figuras da psiquiatria portuguesa, bem conhecedoras do nosso campo psicopatológico, impõe-se a qualquer observador imparcial.”

Parece-me claro, pelo que já referi, que não se escondem ou negam síndromes. Consubstanciam-se e validam-se, ou não, com recurso a instrumentos metodológicos. Num ponto estamos de acordo Dr. Malta, a psiquiatria nacional tem figuras eminentes, agora que já tenham atestado a existência do SPA é que desconheço. Qual é a referência bibliográfica? Já agora, Senhor Doutor, mesmo não sendo psiquiatra é obrigado a saber que a psicopatologia geral não tem o “meu”, o “teu” ou o “nosso” campo, isso é para as couves. Ah! E concordo consigo outra vez, “A realidade dos factos… impõe-se a qualquer observador imparcial”, sendo exactamente essa uma das razões que me farão votar Sim no referendo de Fevereiro.

O mesmo tipo de observações merecem-me as declarações atribuídas à Dra. Margarida Neto, em relação às quais e por maioria de razão, já que se trata de uma médica psiquiatra, aumenta a minha perplexidade e a gravidade da desinformação veiculada! Segundo a edição de 5 de Janeiro do Jornal da Madeira a referida médica terá afirmado "dado que a actual lei já prevê excepções, como os casos de violação, malformação congénita ou de perigo para a mãe”… Vamos lá ser honestos e referir com exactidão as situações de excepção previstas na actual lei! Consulte, a este propósito, a resposta que o Colégio da Especialidade de Psiquiatria deu, em Dezembro de 2004, a um conjunto de questões colocadas pela jornalista Fernanda Câncio e às quais, de resto, alguns apoiantes do “Não” já chamaram, pública e erradamente, “Parecer”. Continuando a citar a mesma fonte “referiu também que 65% dos casos de aborto verificados, a mulher é coagida pelo companheiro, ou pela família mais próxima”. Já em relação ao SPA terá afirmado “que afecta milhões de mulheres em todo o mundo, aumenta, em sete vezes, o risco de suicídio”. Pergunta que se impõe, quais são as referências bibliográficas onde se apoiam estes dados? Entretanto, no dia seguinte, a RR atribuía à Doutora da “Plataforma do Não” as seguintes declarações “As mulheres também têm que ser informadas de que, ainda que tenham situações angustiantes que as levem a pensar fazer um aborto, aquilo que herdam é uma complexidade de problemas: por exemplo, sete vezes mais suicídios, 40% das mulheres têm depressão, 60% são coagidas a fazer um aborto, aumenta os riscos sobre os filhos por nascer, aumenta o divórcio”. Fontes científicas de sustentação, por favor, Dra. Margarida Neto! E quais são os riscos sobre os filhos por nascer? E misturar estes dados de epidemiologia médica, teoricamente científicos, com o divórcio!? Apesar de tudo, uma nota de esperança – a percentagem de mulheres coagidas diminuiu 5 pontos em apenas 24h! Fantástico! Mas eu quero mais e, também por isso, porque quero dar às mulheres a possibilidade de decisão e, consequentemente, tornar possível a activação dos mecanismos legais quando tal não acontecer (irão concordar que se o assunto estiver expresso na lei será possível fazer-se-lhe apelo), votarei Sim no referendo de Fevereiro.

Que o aborto é um acontecimento de vida importante e complexo, passível de alterar o funcionamento cognitivo e emocional da mulher e determinar sofrimento psicológico, é obviamente verdade, sendo esse sofrimento particularmente intenso na altura de ponderar a decisão a tomar. Mas também não minto se afirmar que é, em simultâneo e para muitas mulheres, fonte de alívio, de eutimia e de normalização da reactividade emocional. No folheto que é entregue a qualquer mulher que pretenda fazer um aborto na Grã-Bretanha, cuja responsabilidade é do Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, o equivalente ao Colégio de Obstetrícia e Ginecologia da Ordem dos Médicos em Portugal, pode ler-se “A maneira como irá reagir dependerá das circunstâncias do seu aborto, das razões que a levam a fazê-lo e de quão segura se sente da sua decisão. Pode sentir alívio, tristeza, ou uma mistura de ambos”. Anota também aquela organização “alguns estudos sugerem que as mulheres que abortaram podem estar mais vulneráveis ao aparecimento de doenças psiquiátricas ou risco de comportamentos auto-lesivos, quando comparadas com mulheres da mesma idade que não abortaram. Contudo, não há nenhuma evidência que estes problemas sejam realmente causados pelo aborto; com frequência desenvolvem-se na continuação de problemas previamente existentes na vida da mulher”.

Como seria de esperar, e porque a decisão de abortar é um processo complexo, a presença de um conjunto de sentimentos negativos inespecíficos, como a tristeza e a culpa, após uma IVG é comum, mas são transitórios e não configuram um diagnóstico psiquiátrico. Tenho é a maior das dúvidas que a criminalização não contribua ainda mais para esse mau estar psicológico reactivo. E que considerações tecer sobre os efeitos de uma a gravidez não desejada?

Vejamos a coisa do outro lado. Que entidades nosológicas psiquiátricas sustentaram, até aqui, a aplicabilidade da actual lei? Nenhuma! Mas a actual lei também não obriga à existência de um diagnóstico específico. Nestas alturas lembro-me sempre de uma frase que ouvi ao Prof. Nuno Grande, de quem tive o privilégio de ser aluna, “No decorrer da vossa prática clínica lembrem-se que inúmeras vezes, em medicina, não existem doenças, existem doentes!”. E esta também serve para o argumento “gravidez não é doença”! Pois não, mas também não é um antídoto universal contra ela, nem tão pouco lhe são reconhecidas quaisquer acções profilácticas ou preventivas! E o aborto é um acto médico!

De qualquer modo, por me parecer que a actual lei é manifestamente insuficiente, vou votar Sim no referendo de Fevereiro.

Ana Matos Pires




Ps: Já depois ter terminado o texto de cima pude saber mais sobre as declarações da Dra. Margarida Neto ao ler, no jornal Público de dia 7-1-2006, uma peça intitulada "Movimentos do «Não» vão buscar argumentos a estudos finlandeses". Diga-se, em abono da verdade, que houve uma evolução de monta na informação prestada, passámos a saber o país de origem dos estudos que terão servido de base a tais afirmações! Em contrapartida, coisa que desde já lamento, parece que os níveis de coação sobre as mulheres não mantiveram a tendência descendente observada no dia anterior! (ao que acabei de fazer chama-se "concluir sem fundamento"… não se pode fazer, pois não?). Mas a perplexidade total aconteceu, em definitivo, com a seguinte passagem "quando as pessoas entram numa rota esquisita ou num ciclo traumatizado, enquanto não forem tratados, estão sempre a repetir uma conduta auto-destruitiva, destruitiva da família e dos filhos"! "rota esquisita"… "ciclo traumatizado"?! Não foi esta a semiologia psiquiátrica que me ensinaram e, estou em crer, que à Dra. Margarida Neto também não. A responsabilidade das nossas declarações é tanto maior quanto maiores são as nossas obrigações de conhecimento e formação.






deixo esta fotografia fica à laia de uma oferta para duas irmãs do SIM, pela escolha
obrigada
A Love Story - Ten Years On, 1984
Jan Saudek





quem disse que o aborto é um momento de felicidade na vida da mulher?

Que eu tenha ouvido até agora, ainda ninguém disse que o aborto é um momento de alegria na vida de uma mulher. Anyone… ?
Como o entendo, a decisão e concretização do aborto é um momento que envolve questões essenciais da vida da mulher, jamais o entenderia para mim como algo positivo mas como uma eventual solução.
Nunca ouvi alguém dizer que o dia em que abortou foi um dia feliz, já ouvi relatos de pessoas que disseram ter sido um alívio, a melhor decisão que poderiam ter tomado nessa altura da sua vida, etc.

Faço um pedido aqui no ar: alguém me linka ou envia as bases científicas do Professor Vaz Serra, sff?
Leiga como sou, tenho muitas dúvidas, muitas! Certamente que as verei esclarecidas ao ler os ditos estudos em que se garante as consequências psicopatológicas nas mulheres que praticaram a interrupção voluntária da gravidez. São estudos científicos, ora!
Com certeza que verei esclarecidas as minhas dúvidas! Por exemplo:

# se os estudos com base científica dizem que “É mentira dizer que nenhuma apresenta trauma pós-aborto” então é porque é mesmo! De certezinha absoluta que usaram uma amostra fidedigna de mulheres que abortaram na clandestinidade correndo o risco de serem acusadas, julgadas e encarceradas, mulheres que vivem numa sociedade que é baseada na hipocrisia e na culpa judaico-cristã.

# se os estudos com base científica dizem que "o número de mulheres com possibilidade de desenvolver uma depressão é três vezes superior entre as que foram submetidas a um aborto, comparativamente com as que nunca o fizeram." é porque o estudo comparou cientificamente grupos de mulheres nas mesmas condições socio-económicas: um grupo teve intenção de aborto e não o realizou ( hoje devem ser todas felizes, nenhuma sofreu de depressão pós-parto, etc, huh?), no outro grupo as mulheres realizaram a interrupção da gravidez (hoje são mulheres – 3x+ - deprimidas… e absolutamente desestruturadas porque realizaram uma aborto?).
Ah! As mulheres do segundo grupo não apresentam o quadro clínico que o professor refere porque ter-se-ão vistas numa vida de clandestinidade pelo que entendem ser o direito à escolha delas, não, isso não é uma variável que interesse ao estudo, penso eu… sei lá... também não deve ser muito relevante o facto de que a as amostras tenham sido eventualmente recolhidas entre grupos de apoio de mulheres que se arrependeram de o ter realizado. Por acaso já tinha ouvido falar de mulheres para quem o aborto fui uma solução, a única solução possível nas vidas delas, mas devem todas ter-se arrependido entretanto, ou então são só 0,001 % da população de mulheres que realizou a interrupção voluntária da gravidez. Não acho possível que tenham manipulado a amostra, não pode ser, é um estudo científico! Sabem quantos abortos se realizam em Portugal - sim, Portugal, porque é das mulheres portuguesas que falamos, a sociedade em que se insere a população em estudo do risco de depressão é uma variável a controlar, não é? Ou não é, e isto sou eu, leiga, a meter o bedelho nos assuntos dos Professores e deveria era estar caladinha? De certeza que sabem que abrangeram as possibilidades da população na amostra, de certeza!
Quanto às mulheres, essas tantas mulheres, a maioria, quiçá todas as mulheres, que foram coagidas a fazer o aborto… pá, é lixado! Quer dizer que as mulheres não fizeram a interrupção da gravidez em consciência?! Foram coagidas?! Que horror!
Ai! Ai! Estas mulheres tontinhas, cabecinhas no ar!

Estes professores é que nos valem! Os professores deste calibre científico são a melhor coisinha que nos podia acontecer, já viram o flagelo que era se não nos tivessem vindo mostrar que as mulheres que praticaram abortos estão deprimidas e que as que tiverem os filhos são felizes daqui até ao céu?! Na certa vão mesmo ganhar o céu!
Aleluia!