
a verdade é que as obras anunciadas neste blog são de tipo sta engrácia, estão em andamento-interrompidas
como não gostamos (eu e o gato) de ver o blog no aspecto interrupção não-anunciada, exibimos aqui provas do nosso ócio
até já, até sempre!

"Blowing in the wind"… Lembrei-me da famosa canção de Bob Dylan ao acabar de ler o último comentário da Ana Matos Pires. "Quantas mais vidas de jovens serão necessárias perder para percebermos que já se perderam vidas demais?" (tradução livre...). E gostava de deixar aqui uma mensagem para todos os meus colegas médicos, e aos ginecologistas e obstetras em particular. Não é uma mensagem "técnica" nem especialmente bem sistematizada. Antes de mais é uma mensagem simples mas franca.
Há fundamentalmente duas razões para se votar Sim no dia 11 de Fevereiro:
1) fazer parar o aborto clandestino e as mortes e sequelas dele decorrentes;
2) entendermos que a mulher tem uma palavra a dizer e o direito de decidir no que diz respeito ao seu próprio corpo e à sua vida futura.
Poderão existir divergências de opinião em relação ao ponto 2) mas não é admissível que, enquanto médicos, fechemos os olhos aos crimes que se vão praticando diariamente, aos quais uma alteração da lei poderia pôr um ponto final, o que reporta para o argumento apresentado no primeiro ponto.
Uma alteração da lei (se ela se concretizar) implicará alterações nas atitudes e no funcionamento de muitos médicos. Mas mesmo que a lei seja alterada é preciso mudar as práticas no nosso cantinho a que chamamos Portugal. Aquilo que preconizo é muito simplesmente o resultado da minha experiência no terreno, das consultas com adolescentes, das consultas de contracepção e de interrupção de gravidez (as minhas únicas escolas). A pouco e pouco, mas com passo firme, teremos de aprender a considerar a mulher menos como uma "doente" a quem podemos pôr um rótulo "diagnóstico" e prescrever um tratamento seguro e eficaz, e mais como um ser humano complexo com uma história pessoal e conjugal únicas (como são todas as nossas histórias pessoais), crenças, conhecimentos e lacunas próprias. Nesse sentido o nosso papel de médicos é mais de "acompanhamento" e informação, chamando a atenção para incoerências fundamentais e contradições mas dando sempre à mulher a última palavra sobre o seu destino, o seu "tratamento". De certa forma é aceitarmos que o nosso papel é "modesto" mas essencial no seu acompanhamento. É, também, o de reconhecermos e de darmos a entender às mulheres que, em última análise, elas são responsáveis pelas decisões que tomam e que depois têm de assumir.
Para terminar gostaria de acrescentar que "ninguém está sozinho" e que como profissionais que somos, interessados antes do mais no bem estar dos nossos "utentes", também poderemos, e deveremos, olhar à nossa volta para os nossos colegas que estarão certamente lá (pelo menos alguns) para nos ajudar a passar por todas estas transições...
Contem comigo, Ana Lourenço.
O Prof. J.L. Pio Abreu, psiquiatra e professor da Universidade de Coimbra, envia este importante artigo. Venham mais!
Nas discussões sobre o próximo referendo, raras vezes tenho ouvido a decisiva palavra: amor. Tenho ouvido, sim, sobretudo pela parte dos adeptos do não, um fundamentalismo irracional cheio de zanga e intolerância, um desprezo punitivo pelos momentos mais dramáticos das mulheres concretas, reais e normais. Enquanto olham para os adeptos do sim (felizmente a maioria) como criminosos, os fundamentalistas do não compensam o seu desamor pelas pessoas existentes com a proclamação do amor por princípios, dogmas, seres em potência, não existentes como realidade concreta nem como objectos passíveis do amor das pessoas.
O que mais se vê aqui é desamor. Significativamente, em nome de uma “verdade científica” proclamada por quem nada sabe de ciência e que não sabe sequer que a ciência é avessa aos dogmas, procura a dúvida e tem de ser tolerante. Os adeptos da nova moral biológica esqueceram-se da espiritualidade, caindo paradoxalmente num materialismo simplório: uma célula ou um conjunto delas chega para definir uma pessoa. Não se questionam mais. Nem se questionam sequer sobre o destino que deram aos biliões de espermatozóides ou às dezenas de óvulos que geraram dentro de si.
Aceito que muitos adeptos do não terão passado por experiências decisivas que marcaram as suas opções. Não duvido do seu amor aos filhos que tiveram, eventualmente em circunstâncias difíceis, ou que desejaram ter. Esses filhos, mesmo em potência, têm toda a dignidade humana porque foram desejados. Não é porém o caso de quem se vê obrigado a fazer contracepção ou a interromper uma possível gravidez.
Como psiquiatra, sei que os abortos, espontâneos ou provocados, fazem parte da vida de quase todas as mulheres. Alguns podem passar sem sofrimento, excluindo o trauma e a perda de liberdade que resulta do aborto clandestino, ou o drama de transportar o segredo no seio de famílias conservadoras e fundamentalistas. Excluindo também a culpabilidade gerada nas campanhas para os referendos. Toda a questão é saber se a criança era desejada ou não, e qual o empenho amoroso dos pais que, por vezes, já tinham um nome para ela. Neste caso, tratava-se de um ser humano, fosse qual fosse o tempo de gestação.
Nem sempre é assim, e muitas gravidezes iniciais nem sequer são percebidas, se não negadas. Existem mesmo gestações destinadas à adopção (embora uma mulher que prossiga uma gravidez a termo possa criar, por vezes desesperadamente, laços com a criança que vai nascer). Mas se não for a mãe biológica, alguém que encontre a criança irá ter compaixão e amor por ela, e será esse o seu verdadeiro nascimento como pessoa. Sem isso, nem sequer sobreviveria.
O que dá o estatuto humano ao novo ser, seja ele um recém-nascido, feto ou ser em potência, é o primeiro acto de amor para com ele. Curiosamente, é essa a grande verdade que o ritual religioso do baptismo nos ensina.
J. L. Pio Abreu
Psiquiatra, Professor da Universidade de Coimbra
Publicado por Joana Amaral Dias no Sim no Referendo
Creio que é compatível o voto na despenalização e o ser - por pensamentos, palavras e obra - pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O "SIM" à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, embora haja sempre doidos e doidas para tudo. Frei Bento Domingues, Público, ontem.
Publicado por VMB

por Luis M. Jorge, Sim no referendo
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