Pudesse eu escrever-te um poema a cores.
Todo o meu coração é a preto e branco,
bem sabes, embora recuse fazer do desespero
um brinde aos dias comuns.
O meu desencanto prescinde dos bons empregos,
atrás de secretárias a martelar teclados.
A actualidade. No sangue corre-me o tempo
do cinema mudo. Não envio arranjos de mágoas
ao domicílio, nem adorno com laços de prata
e papel celofane os sorrisos que não tenho.
Também não anelo fumos e coisas assim.
Enoja-me o gosto da ruína pousado sobre as mãos,
como se a ruína fossem natas escorrendo no pudim.
A ruína não é coisa que se traga a tiracolo.
Não é broche. É mesmo ferida interna,
das que não coagulam nem com os poemas a cores.
Desconfio que a tristeza não seja o nosso maior problema.
O mesmo não direi das casas incendiadas,
do céu baleado, da gasolina que nos enxerta os rins.
Talvez conseguíssemos uma muralha de pétalas
se nos propuséssemos espinhos. Nem sempre 1+1 são 2.
Ambos sabemos isso e muito mais.
Desenhar-te-ei um botão de rosa no umbigo,
uma corola em cada mamilo, um pé de salsa nos lábios.
Só para cheirar, amor. Só para cheirar a morte.
Henrique Manuel Bento Fialho in A Dança das Feridas
edição de autor, Colecção Insónia
2010
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Feridas que abrem,/ reabrem, cose-as a noite, recose-as (...) [ Amargo. O sangue nunca pára ]
É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalhas, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
Herberto Helder
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalhas, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
Herberto Helder
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