sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
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Les Raboteurs de Parquet, Gustave Caillebott, 1875

Rigolette Seeks to Distract Herself During the Absence of Germain
Joseph-Desire Court
1844
Umberto Boccioni
1913

oil on canvas 193.2 × 201 cm.
Photograph by Katie Chao. Museum of Modern Art, New York City, The Sidney and Harriet Janis Collection dali

Azuliante

Helena Almeida



















Este poema é da AIdina


Este poema
começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho ___e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome ___a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e___ ver no meio do deserto ___ o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do Oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no Ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito ___ eu sei choverá___ muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa
___cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente

Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabes tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz___ contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre___ o estado
segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente___ meu amor ___ de oriente a ocidente

Digo não___ Eu digo não
digo o teu nome que diz não

No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão
_______________________________________para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos

passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite ___ mil e uma noites de quem espera

Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir

No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase sobre a terra

tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua ___eu a tempestade
de coração a coração
Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos ___e este será o sinal



António José Forte
in Uma Faca nos Dentes

acrílicos e óleos, isto, e a terra habitada

Lavada em Lágrimas, Helena Almeida
2009

silêncio esforçado

Tudo isto poderia ser escrito a azul sobre branco, daquele azul do meu vestido, o vestido que toda a gente que me conhece sabe qual é, portanto sabe de que azul falo. É aquele que acompanha a minha degradação. Um dia, um de vós dirá de mim aos outros, após reencontrar-me na rua: “her famous blue dress was torn at the shoulder”; seguir-se-á um silêncio curto.
Não escrevo a azul sobre branco porque não me apetece ser fácil, se é que me apeteça ter a ingenuidade de que controlo seja o que for. O tom com que escrevo, esse impus-mo quando me lembrei de levar o CD do L.Cohen para o carro, essa taciturnidade.
E tudo num profundo silêncio.
Não falo vai fazer cerca de 2 semanas, se quisera ser exacta (se-lo-ei, então) direi que não falo há (pausa para fazer contas) (um post-it): 10 dias e cerca de 18 horas. Sou afortunada pois, neste tempo, ninguém me pediu que fale. Enfim, se mo exigissem não sei que se seguiria, um tranquilo momento de afonia ou, pior, de tanto puxar pela goela talvez se rasgasse o meu vestido. Confesso que me custaria ver rasgado o vestido.
fotografia de Forced Labor (blue sand), Liliana Porter

trabalho de parto

Claro que podes!, disseste alegre. Prefiro vinho, respondi. Um privilégio. Já é Domingo, são zero horas e cinco minutos do dia 25 de Outubro. Comprei um livro, chama-se "A mãe"*. Ler-me-ás um texto depois de te servires de mais vinho, eu oiço os goles de vinho a descer no teu copo e desejo que te saiba bem.

Quando quiseres, começa a ler quando quiseres, eu oiço. Posso ir escrevendo, se necessitar. Trata-se da maternidade, o tema é a maternidade ela própria. E sabemos que é uma evidência. Geometria, afinal. E eu interrompo para dizer que tenho para mim que o ser sobrevive sem os seus objectos. Mas não sem dispneia. E exemplifico com um episódio real:

No emaranhado de cabelos que retiro diariamente da escova, hoje havia um cabelo branco, enorme. Fiquei sem saber se haveria de iniciar alguma arritmia respiratória ou apenas, com a naturalidade que se exige, receber o acontecimento. Um cabelo branco, longo, caiu. Agora, sobrevivo.



…E eu que pensava possuir apenas cabelos brancos na zona temporal esquerda, curtos. No máximo com 6 cm. Mas não, havia por aqui um cabelo branco longo. Agora a suspeita: quantos mais destes clandestinos haverá pelo meu couro cabeludo?
rego_crivellis_garden.jpg
Paula Rego
* Gorki

escrito na cozinha,
Marta
Blimunda (aqui e ali)






quina, sempre
(sempre é uma palavra forte dentro da mulher )

[ segredos ] [ e ] [ mentiras ]


Julião Sarmento, Segredos e Mentiras (10)
1999
Técnica mista sobre tela

discutir percentagens

3º sonho de Calvino



Com o seu sócio está tão envolvido na discussão das percentagens de algo, que não dá pelo que acontece: são engolidos por uma baleia. Dentro do estômago da baleia Calvino continua a discutir percentagens. Percebe, agora, qual o negócio, trata-se da venda de petróleo e de livros. Quem fica com o quê? A discussão está acesa e Calvino empenha-se nela cada vez mais; vira depois as costas ao seu sócio e sai para a rua: observa as pessoas a andarem de um lado para o outro. Os poucos que não estão com pressa, aqueles que param, discutem entre si, percentagens também: 30, não 37!, não, não, 32! Todos discutem, ele próprio não consegue deixar de repetir, para si próprio: 43%, pelo menos 43%!
Mas ao mesmo tempo existe aquela sensação de que estão todos dentro do estômago da baleia, de que aquelas pessoas que ele vê na cidade, cheias de pressa, de um lado para o outro, a discutir percentagens, e ele próprio, há muito foram comidos.

Gonçalo M. Tavares, O senhor Calvino
Editorial Caminho
2005


39. Asta su abuelo

Capricho nº 39: Hasta su abuelo
Francisco de Goya
pub. 1799

(post roubado ao menino mau)

uma tarde

enquanto escreve, sem olhar para o mar,
ele sente que a ponta da sua caneta começa a tremer.
a maré passa através do cascalho.
mas não é isso. não,
é porque nesse instante ela decide
entrar no quarto sem quaisquer roupas vestidas.
sonolenta, sem ter por um momento a certeza
de onde está. agita o cabelo da testa.
senta-se na casa de banho de olhos fechados,
cabisbaixa. pernas abertas. ele vê-a
através da entrada. talvez
ela se esteja a recordar do que aconteceu nessa manhã.
momentos depois, ela abre um olho e olha para ele.
e sorri docemente.

- raymond carver -
(tradução, menino mau)


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