sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com

hoje não estou cá

Há dias deixei o meu lenço – aquele pareo que faço de lenço, aquele que parece uma pintura aborígene, esse, deixei-o na poltrona que era d'a minha avó. Hoje quis usá-lo porque sim. Saí de casa e estranhei o dia. Fiquei desconfiada quando cheguei ao local de combate, qualquer coisa batia certo demais. Eis que, num rompante de perspicácia invulgar, cheirei o lenço, inalei profundamente e fui embora para casa da minha avó. Está lá sol, cheira-se no cimento da eira (assim). Cheguei ao portão «’Vó? ‘Vóó?!» – fui entrando, lá estava ela. E eu a sentir. Ainda a apanhei a fazer a cama e ajudei, uma de cada lado, «Puxa aí essa ponta». Vasculhei as caixas de loiça que tem em cima da cómoda e fiz perguntas sobre a origem de algumas bijutarias. Depois fomos à D.ª Julieta lembrá-la dos ovos para a minha avó fazer um pão-de-ló para o leilão de Domingo que vem. Passámos à costureira para provar uma saia nova. Fico muito contente que tenha mandado fazer uma saia nova, hei-de comprar-lhe um lenço a condizer com o tecido da saia. O peixeiro passou há bocado, buzinou e lá fomos, as duas – eu e a minha avó, comprámos solha. Olhámos uma para a outra e rimos sorrateiras, estamos a marimbar para o colesterol, a solha vai ser frita e comida num naco de pão a pedaços que cada uma tira com a sua navalha e, vá, um copo de pinga. Vamos beber do branco, que é para comemorar o facto de nos termos juntado hoje, já não nos vemos desde que morreu em 2001. São muitos anos ‘vó, tinha tantas saudades do teu cheiro. Ah, se eu tivesse percebido mais cedo que tinha este tesouro lá em casa. A partir de agora, vou deixar a minha roupa todos os dias em cima da poltrona. E daí, é melhor não, ainda me habituo e depois não dou por ele. Vai ser uma coisa para dias de festa, ‘vó, em dias de festa: eu e o teu cheiro. Ou em dias de mágoa, isso, para me agarrares. Logo, depois de comermos o peixe frito com pão e bebermos vinho e rematarmos com queijo seco e uma maçã que vais descascar para nós, dormiremos a sesta na cama de ferro da casa da costura. Sei que irás buscar aquele cobertor macio, verde daquele verde rico, e terá o cheiro do teu guarda-fatos e eu vou ser tão feliz.
Vou ser tão feliz, ‘vó.

9 comentários:

fallorca disse...

Magnífico ramalhete de/com tantas pontas :)
Bom fds

Anónimo disse...

gosto muito (muito)
(fiquei de lágrima ao canto do olho)


Maria, a lebre

margarete disse...

beijos aos dois

Anónimo disse...

maravilhoso

menina alice disse...

São sempre tão bonitas as saudades das nossas avós, não são? A minha era diferente da tua, mas agora ficou dentro do meu coração. Obrigada. :)***

margarete disse...

oh, oh :)***

temporariamentemigrante disse...

...tambem sinto falta da minha avo...muitas vezes dou por mim encostada no corredor da casa a observar-lhe todos os gestos...
obrigada:-)

margarete disse...

a tua avó,
em diferentes cenários daquela casa
:)***

Ângela F. Marques disse...

... e eu substituí inevitavelmente "avó" por mãe e fiquei com um vazio por dentro...
mas soube tão bem de ler e de comer o peixe frito e de beber o vinho. obrigada.