sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com

(the last but not the least)

este bando selecto de 77 000 000 000 de idiotas de primeira apanha

Sorvendo a borra da sua própria chávena, Sabbath levantou finalmente o olhar do submerso erro crasso que era o seu passado. Por acaso o presente também estava em curso, construído dia e noite como os navio-transporte de tropas em Perth Amboy durante a guerra, o venerável presente que recua até à Antiguidade e prossegue a direito da Renascença até hoje – era a esse presente sempre-a-começar e interminável que Sabbath renunciava. Acha repugnante a sua inexauribilidade. Só por isso devia morrer. E depois, que importa que tenha levado uma vida estúpida? Qualquer pessoa com alguma inteligência sabe que está a levar uma vida estúpida mesmo enquanto está a levá-la. Qualquer pessoa com alguma inteligência compreende que está destinada a levar uma vida estúpida porque não há outra espécie de vida. Não existe nada de pessoal nisso. No entanto, lágrimas infantis marejam os seus olhos quando Mickey Sabbath – sim o Mickey Sabbath, daquele bando selecto de setenta e sete mil milhões de idiotas de primeira apanha que constituem a história humana – diz adeus à sua unicidade com um meio entaramelado e profundamente dolorido «Quem liga a mínima?».

in Teatro de Sabbath de Philip Roth
Publicações dom Quixote, Colecção Ficção universal
2000


fotografia de cj aka Monsieur Bonirre in pescada nº5

2 comentários:

Ana Cristina Leonardo disse...

a esta colecção de roth chamo eu serviço público.
já leu o hilariante O Complexo de Portnoy?

margarete disse...

fico contente que tenha dado serventia a alguém :)

comecei a ler e estava a gostar, a minha atenção é muito fraquita, à mais pequena distracção deixo leituras e afins de lado
está na prateleira dos "interrompidos, mas para voltar a pegar em"