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panóptico, George Orwell e o vosso* ministro da Educação e Ciência

«Na semana passada, cometi a imprudência de usar uma palavra contra a qual o Acordo Ortográfico dispara com uma fúria cega as suas regras de aniquilação e entra em desvario: a palavra ‘panóptico’, que designa uma arquitetura carceral, o panopticon, imaginada no século XVIII por Jeremy Bentham. Quem reviu o texto emendou para ‘pan-ótico’, por analogia com outras palavras formadas com “pan” que levam hífen. Mas o mais importante é a supressão do ‘p’, que parece obrigatória, segundo o AO. Ora, tratando-se de uma palavra que sempre teve um uso culto, nunca conheceu outra pronúncia que não fosse a da “norma culta”. Ou seja, “panóptico”. Mas ninguém, nem sequer quem reviu o texto, tem obrigação – e os meios, porque não se fixou ainda um vocabulário ortográfico comum – de saber tudo aquilo que é necessário para aplicar corretamente uma das muitas exceções que o AO consagra para tentar salvar as suas regras: teria de saber que em todo o espaço da língua portuguesa a palavra se pronuncia com ‘p’ e que, por conseguinte, não há lugar à supressão da consoante, porque ela não é muda (note-se que tal saber impossível também é requerido para o uso das muitas facultatividades).  
Uma amiga brasileira confirmou-me por e-mail: “Nós aqui dizemos e escrevemos ‘panóptico’ como vocês.” Como vocês? Isso era dantes, porque o AO, estúpido como é – de uma estupidez cómico-grotesca –, promove constantemente erros de hipercorreção, sem fornecer meios que os possam evitar. E, hipertélico, acaba por ir além dos seus próprios fins e anulá-los. Sem o ‘p’, a palavra refere-se à audição e não à visão, ou então é usada no campo da química para designar um corante. Não é tudo isto absurdo, próprio de uma terra onde Ubu é rei, ainda por cima quando temos um ministro da Educação e Ciência que, antes de o ser, corroborou famigeradas denúncias de “imposturas intelectuais”?»


António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 12.5.2012

via Fallorca

* o mesmo pedido: condescendam, por favor, ando em negação de tipo “este políticos não são meus”

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