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Breve ensaio sobre “Breve ensaio sobre a potência” de Rui Costa, por Rui Lage.

via Henrique Fialho

img: ed. língua morta
Comecemos pelo começo. “Breve ensaio sobre a potência”, o título que o Rui Costa escolheu para este seu livro de poemas não é um título acidental, nem gratuito. A presença do termo “ensaio” indicia desobediência à compartimentação de géneros, ao mesmo tempo que convoca para junto do poético a modalidade do pensamento – um pensamento vadio, serpenteante, que lida com a diversidade e com o transitório. João Barrento apelidou recentemente o ensaio de “género intranquilo”. Intranquila é adjectivo que assenta bem à poesia de Rui Costa. Os seus poemas não são dóceis, nem submissos, o seu discurso não visa a normalidade, o bom comportamento, o estilo do período: a sua escola é uma escola de exigência, de trabalho, uma escola de amplos e variados recursos que visam a fulguração, quer dizer, visam mostrar o avesso das superfícies do mundo e dos relacionamentos humanos, e não decalcar essas superfícies. Este livro, tal como os anteriores, está cheio de fulgurações. O autor é daquela espécie de poetas que violenta a linguagem, que se compraz em torcê-la, em deslocá-la para os sítios que entende: para sítios que precisam de ser desafiados. Ele também foi, em vida, um semeador de desafios. Em livros anteriores, detectava-se uma vontade de conspurcar o visível e o finito com as heresias da linguagem. Diante deste livro, ainda podemos detectar essa vocação, mas há diferenças. O Rui escolheu aqui a brevidade (estrofes de sete versos formando um texto contínuo) e escolheu o ensaio, isto é, escolheu uma rota sem roteiro, intuitiva, tacteante, que investiga os sentidos possíveis da existência, não tanto para captá-los, como para fazer da investigação o sentido do que é investigado: “e assim ensaiamos o livro entre a/treva e a luz”, lê-se no último poema, em jeito de chave, de que faz eco a belíssima gravura de Maria João Worm reproduzida na capa desta primorosa edição da Língua Morta.

Que dizer da “potência” sobre que versa o “breve ensaio”? A física ensina que a potência é a energia dividida pelo tempo, ou, dito de outro modo, a rapidez com que a energia é transformada. A quantidade de energia diariamente consumida ou dissipada por um ser humano ronda, em média, os 100w. Um televisor transforma, em média, 120w. Nada que não soubéssemos: que a fonte luminosa do ecrã de televisão leva desde há muito a melhor sobre a fonte luminosa do espírito. Onde se lê televisão leia-se, por metonímia, tecnocracia, essa que “Breve ensaio sobre a potência” repudia em toda a linha: “acreditas mais num ficheiro/ Microsoft do que nas salmodias da tua avó” (26, p. 30).

Deslocado da física para um livro de poemas, o conceito de potência convida a equacionar a existência individual em termos de repouso e actividade. Não no sentido mundano, antes no sentido de uma ética do repouso e da actividade, a maneira como se nos apresentam como opções existenciais, em complemento ou em alternativa uma à outra. E leva-nos ainda à questão do livre arbítrio e da liberdade: somos donos da nossa potência? As forças que nos envolvem e que nos dominam permitem orientar a nossa potência, a nossa energia, o nosso trabalho, para o bem comum e para a felicidade? Somos seres fadados para o repouso ou para a “eficiência económica” e para as “preocupações com a excelência” (24, p. 28)? Para o tempo da lentidão ou para o tempo da rapidez? Será esse o sentido último do ser humano: dissipar energia? Será, pelo contrário, consumi-la? Conservá-la? O livro responde: o sentido, o único sentido, é a partilha: “na serra aliamos as tendas, aquecemos/ música. A luz é da tribo, a Grande Pedra/ escuta” (30, p. 34).

Podendo ser definida como a rapidez com que o trabalho é realizado, a potência faz-nos ainda reflectir sobre o tempo. Hoje roubam-nos o tempo. Ou, se quiserem, o tempo foi amputado do tempo, porque estamos reduzidos ao instantâneo, ao imediato, à urgência, à velocidade, às oscilações de temperamento do NASDAQ, do Dow Jones, do PSI 20, da Moody’s. O tempo deixou de ter sentido: deixou de se medir pelo futuro (e em certa medida pelo passado), e tudo é escravizado ao presente, impossível de fixar, de reflectir, de ponderar: “Não tens tempo para saber o que andas/ a contar”, lemos no poema 25 (p. 29). Destituídos de tempo, ficamos destituídos de memória, de cabeça perdida, sem lugar para as imagens: o mundo arrumado num disco externo. Eis, na minha opinião, algumas questões fundamentais colocadas por Rui Costa neste livro que não chegou a segurar nas mãos, mas que pode auxiliar-nos a compreender o mundo que nos coube em sorte.

Uma vez que os interesses do autor deste livro iam muito além da poesia e da literatura, e entravam na ciência, na sociologia e na filosofia, não podemos esquecer a teoria aristotélica do acto e da potência que ressoa no título. Para Aristóteles, a potência é a capacidade de uma coisa se transformar em outra, porque não pode permanecer indefinidamente constante. A única coisa que pode existir sem ser transformada é, para o estagirita, o Bem. Claro que esse é também um predicado de Deus, totalmente acabado e perfeito, que não depende de mais nada a não ser de si mesmo. O contrário dessa perfeição auto-suficiente é o ser humano: somos nós. A semente é o exemplo paradigmático do objecto em potência, que pode, ou não, actualizar ou realizar uma árvore. O ser humano, como a semente, é sempre um ser em potência, um conjunto de possibilidades múltiplas e contraditórias.

A consciência de que o ser humano, sempre incompleto, sempre imperfeito, sempre indeterminado, tende constantemente a ser outro, a apresentar-se com novas características (sem que tenha de haver nisso infidelidade à sua substância), é algo que no meu entender está no cerne deste livro. Mas ensaiar a transformação e realização do ser exige uma incursão na floresta escura da existência, e pede um certo faro: o faro da luz.

Não há, salvo erro, poema deste “Breve ensaio sobre a potência” que dispense a palavra “luz”, símbolo por excelência do que nasce ou está para nascer, do que revela e do que se revela, do resgate, da redenção, da saída das trevas. Este livro começa por nos colocar debaixo das pálpebras o filme de um génesis mínimo e humilde. A luz começa por germinar a partir de coisas em repouso, de coisas elementares, de pequenos seres: água, peixes, plantas, pedras, nuvens. Mal se distinguem entre si os reinos animal, vegetal e mineral. A energia transformada e consumida ainda não é a das coisas complexas. Há uma espécie de nostalgia do momento inicial, do fio de luz originário, que, depois, ao atravessar a lente dos poemas, vai sendo desviado e desfocado. Não tardam a surgir indícios de impureza, primeiras tentações, primeiros desencantos com “caminhos isentos de afecto” (5, p. 9).

Ora, a partir do poema 9, “há um homem que pede para nascer”. Há, neste “Breve ensaio sobre a potência”, um homem a transformar-se, a sair do repouso, a manifestar-se, um homem em trabalho de parto. O que nos primeiros poemas se ensaia é a possibilidade de um novo ser, ou do renascimento num novo modo de ser. Ainda provisório, quase o efeito de uma evaporação, muito anterior à literatura, “este homem/ é um fantasma calmo descansando/ na margem. ainda não é o sonho” (9, p. 13), “por sobre a erva comove-se e/ os bichos escutam-no” (10, p. 14), “entretém-se/ com uma luz que lhe sai da barriga” (10, p. 14). Um homem ainda puro. E já ameaçado, vulnerável, surpreendido no centro da roda (12, p. 16). A partir do poema 13, a luz começa a desfocar, surge uma trama de destruição. A civilização do artifício, despossuída de alma, as ladainhas da eficiência e do “Sucesso” (24, p. 28), procuram abortar o nascimento, fazem adivinhar uma metamorfose violenta e dolorosa: os homens “refugiaram-se da sua própria/ condição de seres predestinados ao amor./ Inventaram mapas e destinos” (14, p. 18), queixam-se da alma que nunca souberam onde fica (17, p. 21), “fabricam-se punhais para matar/ com menos requinte do que as mãos” (19, p. 23). Instala-se a descrença: nas instituições, nas finanças, nos bancos, na tecnologia, na informação, nas universidades: porque só a dor ensina (22, p. 26). A luz que “provoca a primeira/ nostalgia”, do segundo poema do livro, dá lugar, num dos últimos, a“bolinhas de luz com expertise multimédia” (25, p. 29), e “ser adulto é quase impossível no mundo/ só imberbe” (26, p. 30).

Voltando às interrogações. Somos mais livres quando nos arrancamos ao repouso e nos transformamos, a nós e ao mundo, em energia, ou somos mais livres quando escolhemos o repouso, a imobilidade, quando nos furtamos aos ditames colectivos e às metas impostas, quando legitimamente optamos por desistir? “Ser dono dos homens ou escravo de mim”, como se lê no poema 13? Não é segredo que se pode resistir desistindo. Um objecto imóvel possui outro tipo de energia: a energia potencial, e é sempre, por isso, reserva de futuro, promessa de movimento. Temos aqui, apesar de tudo, uma poética da esperança, bem explícita no carpe diem do poema 30: “Vamos aprender a fabricar-nos alimentos,/ esquecer digitalmente o Sucesso, renascer as/ mãos na utopia. Neste mundo deus vai dançar” (p. 34).

É tentador afirmar que todas as misérias e alegrias humanas, toda a energia consumida ou dissipada, cessam com a morte. Na morte, ou em face dela, apenas há impotência. A energia deixa de ser dividida e repartida no tempo, porque o tempo deixa de existir. Quando se esgota a potência de um ser humano, quando toda a sua energia foi transformada, ele não é senão puro acto: na morte, o ser não depende de mais nada, é, de certa forma, algo totalmente acabado e perfeito. Como Deus.

Aqui estamos nós, depois da perda de um amigo, a transformar ainda a sua energia em tempo e em luz.


Rui Lage

3 comentários:

scopitone disse...

The sun rises every morning. I do not rise every morning; but the variation is due not to my activity, but to my inaction. Now, to put the matter in a popular phrase, it might be true that the sun rises regularly because he never gets tired of rising. His routine might be due, not to a lifelessness, but to a rush of life. The thing I mean can be seen, for instance, in children, when they find some game or joke that they specially enjoy. A child kicks his legs rhythmically through excess, not absence, of life. Because children have abounding vitality, because they are in spirit fierce and free, therefore they want things repeated and unchanged. They always say, "Do it again"; and the grown-up person does it again until he is nearly dead. For grown-up people are not strong enough to exult in monotony. But perhaps God is strong enough to exult in monotony. It is possible that God says every morning, "Do it again" to the sun; and every evening, "Do it again" to the moon. It may not be automatic necessity that makes all daisies alike; it may be that God makes every daisy separately, but has never got tired of making them. It may be that He has the eternal appetite of infancy; for we have sinned and grown old, and our Father is younger than we.

G. K. Chesterton

scopitone disse...

Em português:


Um homem varia seus movimentos por algum leve elemento de incapacidade ou fadiga. Ele toma um ônibus por estar cansado de caminhar; ou caminha por estar cansado de ficar sentado imóvel. Mas se sua vida e alegria fossem tão gigantescas que ele nunca se cansasse de ir para Islington, ele poderia ir para Islington com a mesma regularidade com que o Tamisa vai para Sheerness. A própria velocidade e êxtase de sua vida teria a imobilidade da morte. O sol se levanta todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs; mas a variação se deve não à minha atividade, mas à minha inação.
Ora, para expressar o caso numa linguagem popular, poderia ser verdade que o sol se levanta regularmente por nunca se cansar de levantar-se. Sua rotina talvez se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante. O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: "Vamos de novo"; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia.
Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. E possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: "Vamos de novo"; e todas as noites à lua: "Vamos de novo". Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um BIS teatral. O céu talvez peça bis ao passarinho que botou um ovo.

margarete disse...

Manel,
tu és mesmo
muito
uma pessoa especial para mim

obrigada
beijinhos
e saudades

sandra