(actos e omissões)
mostrengos como nós
Ando muito próxima do chão
(como se fora parido por mim)
não trago más notícias
apenas anuncio no chão
mais um nascimento
de emoção hipotética
ponho uma coragem
de cada vez
a autorizar o perdão
por ter aterrado.
O caminho e o chão andam, assim, longos no cansaço e nem por isso posso morrer hoje. Tenho de escrever cartas abertas para o meu testamento popular. Acasos dos julgamentos de mim.
Ainda não encontrei a solução para o milhar de histórias que passou nisto.
Não posso morrer depressa.
Mudo o tom.
Não trago más notícias, apenas este anúncio sabido.
A cachola quase se afogou para lá chegar.
São as coisas das emoções vacilantes.
São coisas do medo dentro do medo.
Coisas vulgares, portanto. Difíceis.
Não sei escolher culpados se oiço.
Sem inocência.
Assumi o namoro e casei
com as alucinações
não lhes sou desleal.
Sou mostrengo como nós
à nossa imagem inteligente.
Sem intervenções bacocas.
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A casa não era nossa e foi nossa que se fez, lembramo-nos. Longe de tudo o que era sítio nosso, encontraste-me na rua.
E eu, nessa rua. Perguntaste-me o que andava a fazer e apontei o meu ventre. Ficaste branco como cal, disseste “mas está liso!...de quanto tempo?” e eu expliquei: Ando a gerar sossego.
Vi de imediato o teu sorriso e a tua ideia de ser bonito, esta barriga a gerar gente da nossa e eu voltei a explicar-te.
E tu voltaste a mostrar como sorris.
Decidimos do nosso cansaço e entrámos na casa que não era a nossa casa e que se fez. Perguntaste-me porque e eu expliquei: Prenhe. Confirmaste: reconhecia-se a ausência de padecimento na polidez do bucho. Perguntaste-me “posso?”, dirigindo a mão para tocar. E eu declarei que sim.
Acordei sem dores, era o último dia.
E eu, nessa rua. Perguntaste-me o que andava a fazer e apontei o meu ventre. Ficaste branco como cal, disseste “mas está liso!...de quanto tempo?” e eu expliquei: Ando a gerar sossego.
Vi de imediato o teu sorriso e a tua ideia de ser bonito, esta barriga a gerar gente da nossa e eu voltei a explicar-te.
E tu voltaste a mostrar como sorris.
Decidimos do nosso cansaço e entrámos na casa que não era a nossa casa e que se fez. Perguntaste-me porque e eu expliquei: Prenhe. Confirmaste: reconhecia-se a ausência de padecimento na polidez do bucho. Perguntaste-me “posso?”, dirigindo a mão para tocar. E eu declarei que sim.
Acordei sem dores, era o último dia.
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[ evidência ]
Jamais soube o que é estar de pé
em equilíbrio inventei estes modos
ver cores a estremecer os meus olhos
são a inquietação lágrimas como contas
dum colar partido à luz. Não aguento
um esgar, não aguento encarnações
de dor sou uma fraca que engendrou
a religião da outra face cedo ouvi a lenda
ficou impregnada nas minhas rosas.
Que hei-de fazer a este jeito que choro
até ao afinco do ardor nas órbitas só
consigo filtrar a beleza como absoluto.
Que hei-de fazer a este jeito que me traz
tal intervalo um néon. Eu escrevo.
Largo o tremor das mãos a cada palavra
continuo sem saber. Este jeito há-de ser
o meu fim. (este jeito a ser inícios de mim)
Como podereis constatar gaguejo.
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Poema corpo, corpo do poema, poema do corpo, o corpo, um poema - exercícios incautos, não-pretensos, de pretensa diseuse pela manhã.
Um poema? A bem dizer da verdade, nunca começámos o dia a zero. Poucas vezes conseguimos descrever a forma do corpo no princípio. É certo que temos suspeitas próximas, mas a realidade enfim. Então, um poema?
Começámos muitos dias como se em torno da busca da cura revolvêssemos. Falhou saber o nome da doença. Faltou-nos saber com que feitio amanhece o corpo. A manhã na lufa-lufa e a ausência e a presença.
Ou acordar de noite, sem luz que nos encandeie as suspeitas? Evitaríamos muitos poemas escusos, assim: corpoema.
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Era categórica a carência de fazer a dramatização da coisa. Como o narrador fosse daquelas pessoas que custa a perceber as coisas, através do espelho sentia uma urgência fixa de explicar, justificar-se.
Disse o narrador: Atenção, isto não é dramatizar, isto é fazer algo – é fazer dramatização; é utilizar um verbo em auxílio de um acto que não se possa ficar apenas pelo feito de dramatizar. Desculpem-me as damas e os cavalheiros se não me faço entender, segue-se a fazedura da dramatização para auxiliar as minhas satisfações perante vossas excelências.
Após os vedar dos panos, o narrador seguiu sem companhia, sem evento à posteriori. Chegado a casa, o narrador abriu o silêncio e pôs-se a discursar para os cortinados. Foi então claro e conciso, sentou-se com a máquina de escrever e escreveu. De madrugada terminou o texto da nova peça que iria, desta feita, dra-ma-ti-zar.
Sentiu-se satisfeito consigo e concluiu que as explicações são, na sua grande maioria, o mote do mal-entendido.
Dactilografou a página de rosto do texto – O MOTE DO MAL-ENTENDIDO.
Sorriu, disse baixinho e num ritmo telegraficamente dramatizado - afinal-o-mal-entendido-aqui-era-eu, e foi deitar-se com a luz do dia.
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casca
conceber e ofender o grande órgão
desbarato-me em estrema
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além-fronteiras
regresso a espaços à outra vida
acanhada, uma miúda
ponho a cara neste sítio
e da poesia contrato amigos
tornada e escassa de utilidade
transcrevo um texto corrido
explico a fantasia do regresso
enquanto me ditas:
«Bom dia, estrangeira.»
acanhada, uma miúda
ponho a cara neste sítio
e da poesia contrato amigos
tornada e escassa de utilidade
transcrevo um texto corrido
explico a fantasia do regresso
enquanto me ditas:
«Bom dia, estrangeira.»
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Ceci
n'est pas un poème. Mais um. E ainda outro dia, de volta d'o poema.
Agora a luz de trejeitos velados como se tivera voz, movo as poesias na
cabeça *direi a palavra mar, e o mar todo entrará pela janela e a vida
toda há-de flutuar no crepúsculo* dos novos dias. Na ausência doutra
decisão, é para isso que aqui estou: prestar o meu tempo.
*assinala variação sobre Al Berto
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Como podes pegar num texto para o fazer crescer sem a certa loucura. Uma pergunta.
Depois, como te vais perder em taxonomias. Outra pergunta? Acredito que não o faças, que simplesmente te deixes levar pelas palavras que a linguagem te leva a usar. E depois, pensas e pensas e pensas e pensas o pensamento e todas a orientações que te orientam no pensamento. Pensas de novo. Libertas-te. E vais debitando um discurso que não te interessa se é lindo de morrer ou fútil ou estilizado. Escreves porque escreves, porque precisas de usar palavras e nada mais interessa. Até sabes acerca de
Wernicke e de Broca, até sabes. Mas mandas tudo o resto à urtigas.
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nenhum tema serviu para o pesadelo. Afinal, ainda aqui estou e nem tenho armas disparadas para exibir. Usamos de força sem ver o desfecho e eu, enfim, entendo que nem o consumo dela – da força – será lamentável. Uma regra básica da Física, imagino. Deito-me agora, não me tornei num cepo pois tudo se foi na vontade. Ficou esta pele frouxa e a habitual mensagem de oferta de préstimos - usufruto do corpo, derradeiro ensaio de reanimação.
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Reparo no que me aperta. Reparo, não reparo. Deixo que aperte. Digo a mentira desta hora: Quero este sentir, o esganar de mim.
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um homem senta-se
o homem, sentado
puxa o coração para a boca
de lado pede
que bata contra a morte.
desgarrada (link)
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Triste
Percebendo que todos os poemas se esvaíram, compreendendo que o medo foi apenas uma palavra de entretenimento, deixei de saber como se começa o dia.
Não consigo tropeçar pelo que me entendo interrompida entre a tristeza com que sempre adivinhei a vida e a observação da alegria.
Por isso mesmo nunca tive um filho. Seria insuportável observar a alegria crescer ao lado desta tristesse.
Não poderia pedir ao tempo para voltar atrás pois esta questão reside na massa que compõe o meu corpo.
Não é de beleza que falamos.
“eu achava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema” *
* in Bartleby & Companhia
de Enrique Vila-Matas
Assírio & Alvim, 2001
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Depois do medo ter sido apenas uma forma de entretenimento, menosprezo as palavras e tento ofende-las como se houvessem âmago. Esta sobrevida não me chega, quero mais e agora tenho medo sem jogos paliativos.
Acautelo os segredos
para que te continues a agasalhar em mim.
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Não sou prática
em tempo nenhum fui portátil.
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nunca fui alegre.
Causa-me curiosidade a minha infância.
[ It's Alright, Ma (I'm only bleeding)* ]
As árvores vingarão enquanto decidimos a intervenção junto desta farpa que nos enrola o coração no corpo da goela. As árvores serão magnólias de Janeiro. E nós abraçados uns nos outros e no medo, e o medo mascarado a apertar o sol.
Almejamos um final feliz para seguir até à próxima suspensão e dizer “Afinal, as bocas estão direitas.”. E olhar-nos-emos com bocas de lado, sem saber.
Passearemos pela rua no tempo intermédio, diremos “Este ano, nem demos pelas magnólias.”
* It's Alright, Ma (I'm only bleeding) - Bob Dylan
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Há lágrimas que não devem ser faladas. São as lágrimas do fundo, da dor ou do medo, por exemplo. O erro do ser residirá no falatório em tentativa da compreensão. Existe um tempo que deverá ser aplicado em sincronia com a morte transitória. Dá-se um vácuo instantâneo e o ser desemboca as lágrimas através da sua porta secreta. A porta secreta não tem segredo de existência, a porta secreta tem segredo de explicação. Após o choro, após as lágrimas portanto, são escusadas lições.
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Hei-de dizer-te coisas novas e entreter o nosso temor.
Orientei os fígados e estou com a espada em riste. As agudezas - nem sempre evidentes - habitam-nos.
O horror começou há muito tempo. Não é de anteontem a promessa das lutas inglórias mas há-de ser sempre dia de te "dizer coisas novas".
Hei-de ser comum ao companheirismo da farsa e operante conforme a circunstância. E, repara, não temos de lhe chamar cinismo.
Seremos (pois então!) o incondicional dia. Seremos senão o desdito.
Pois.
.
EPÍGRAFE PARA A NOSSA SOLIDÃO
Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemporâneos
Ruy Belo
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Nestes dias enganamo-nos, queremos ser uma pessoa melhor e por isso usamos a pessoa no plural. Blasfemamos na tentativa de exorcizar e os estigmas sentam-se a olhar-nos, directos sem soslaio. Agora que deixámos submergir a revolta, disparatamos.
Falamos do bolo e da divisão das fatias sem uma previsão irmã.
Nem por isso deixamos de ouvir o riso deles. A ânsia vem entranhada da pele e reza. (Nas membranas reside a ganância do ser melhor.)
A culpa é uma não-culpa e não podemos ser uma pessoa melhor se não pagámos o preço.
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epílogo
Cavava à sorte o lugar
colhi objectos comuns
a apreciar cada sol-e-dó
tolhi sem sentidos
anos
acordei de bucho seco
sem saber das tréguas
detrás da mendigagem
ficámos assim gorados
vim embora cifrar o epitáfio.
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Odeio-te
Faz-me falta dizer coisas destas assim odeio-te
Odeio a sarja branca.
De seguida direi coisas assim que me fazem falta dizer coisas destas odeio
A terra treme treme treme
Tremeluz
A terra tremeluz e eu odeio
Odeio
o de i o
o day e you
faz-me falta dizer coisas destas que estou agora a escrever a escrever a escrever
mas não te enganes
não as pronunciarei
por agora
odeio as ideias
de todas as estirpes bairristas
odeio-te na inveja
e odeio ódio mal canalizado
canaliza, canaliza, canaliza
orienta-te enquanto odeias
não estou para te aturar oh odiável
olha
tu
tu tu tututu
odeio quando não estás comigo
e odeio a distância
odeio pensar “longe”
todas
odeio a hipocrisia
não odeio quando me adivinhas
não odeio as nossas imperfeições
ei
tu
canaliza pá
canaliza
vira para lá o teu ódio.
Dedicado a tudo e a todos que não sei se odeio
acho correcto empregar esta expressão
odeio odeio odeio.
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A mulher a quem emprestaste o teu medo
Devolvida no dia da amputação canónica
Foi Vaga Água-Lume – Corpo Terra-Ar.
Mais que palavra. Mais valia d’O Corpoema.
Escutei a estória ____________ trovoada.
Tremida das gadanhas. Ilha inundada de lava
Contra o esquecimento a estória ____________
Rente à irmandade das auroras aniquilo excisões
Muito rente ao esquecimento dos meus olhos
Sossego obedeço estima subida aos cotos ilesos
Minhas mãos transferem chuva para o escrito
Às palavras secretas aguadas compareço
Rigorosa de chapéu veludo e flores no cabelo.
A mulher a quem emprestaste o teu medo
Nasceu mansa? Leitosa pactuou o seu ofício.
Luto contra a náusea nascida não criada
Consubstancial à coincidência sem culpa
Vagueio o lusco-fusco mascarada da dor
Desse dia de nascença e óbito. Aprisiono
A árvore que jaz nesta ala do fogo banal.
E ele? Na estória ____________ ele jaz
Afundado seria então eu ignorante e hoje
Agonio no fio masculino impelida a recuar
Apago a minha assinatura a actuar-me mãe
Sou agora um homem medo - feminil ser.
Desmascaro o nada. Juventude saqueada
Amamento a lucidez a jorrar de distúrbio
Deito o medo que emprestaste no regaço
Envolve-te aqui neste xaile de pelúcia
Somos apenas muitos. Ou fraternidade.
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E se
Formulássemos os desejos que desejamos
E se os caminhássemos de pés húmidos
Do pó. Os animais conjurassem à nossa passagem,
Tal mar vermelho. Sem sinais para trás
Da nossa passagem. Que a nossa passagem a levamos
Connosco como a cada filho que trazemos. Eterizados
Pelo tacto. Sem pedras. Órfãos. Sempre sempre.
Sopremos sopros soprados como diz o nosso amigo
Amigo. As janelas abertas em contentamento sadio.
A brisa pelas plantas de desejar desejos. Desejados.
Nossos sonos da experiência são paz. Descansamos
A cada sempre. Apalavramos palavras desejadas
De não fazer mal às palavras nestes tontos jogos
Palavra-verbo-apalavrar. E tocamos a massa alma.
Fantasma ~ Olha ~ Ali ~ Somos nós ~ No meio verde.
Comemoremos. Bem-aventurados. O inebriamento.
Um sopro soprado levar-nos-á, não ao nosso tacto.
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Puseste a tua pena nas minhas úlceras
Com as tuas asas provocaste uma brisa
A expulsar as borboletas de asas metálicas
A escravidão recorrente dos meus sentidos
Fez-me contar pelos dedos náuseas frias
Febril derramei o mel consagrado nos olhos
Acreditar é a grande lição replicaste em sino
Contemplo as raízes a despertar do marasmo
Emoção é seres crença carne e ossos vivos em mim.
* itálicos retirados de texto de Carlos Veríssimo "Certificado de Aptidão para se Emocionar"
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Esmagada
contra o céu
abraço-te
és ser
o sol.
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Adentro
minhas mãos
O peixe
Tece beijos
De Inverno.
*refª a Big Fish de Tim Burton
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Não te atrases mostra indoneidade
Pega nos módicos papéis certifica
Existes não pagas. Lava a palavra
Bonitinha não arrebita. Atrasa-te
Mais choraminga e deglute ébria.
Todos te palparão o pêlo das costas
A dedicar modas de palmatória. Ah.
Medo não tens na omnipotência. Oh.
Acodes no prazo protelado saí-me
Mais valia era certificado de voz.
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O sono nunca acaba interrompe
Vinda de limiares excedidos
Ambicionava o fim
Do sono esqueci o pulso
Demorei confusa e o coração
Preso à razão entre traduções
De hipóteses sem verdade
Bafejou. E eu avanço
A descansar.
Que a consciência ordena
Além dos guinchos braços retorcidos
O prejuízo menor mora no travesseiro.
Labutamos a apalavrar o reforço
De verdades confortáveis
A acreditar n’elas incertas.
O sono ambicionava o fim
E o coração sem verdade
Apalavrou o reforço decifrou
Esquemas sobre esquemas sobre
Esquemas. Esqueletos e resumos.
O fim adormeceu no pulso. O bafo
Avançou uma hipótese
Sem tradução atrapalhou sono pulso
Interrupção fim verdade descanso.
E eu avanço.