sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
24.

agarro-me
ao trono

alguma coisa falta ainda

para sonhar ou esquecer
sob um manto de chuva
ácida

lá estarei
uma vez mais.


Carlos Veríssimo
O peixe melancólico
edição de autor, 2012

A matéria das palavras [às portas de (mais) um novo dia]


Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
                                                       perfeição

especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.


Ana Hatherly
Pavão Negro
Assírio & Alvim, 2003

o desespero do desemprego [via louzanimales]

"Peço ajuda urgente para a minha familia de 4 pernas. Dentro de 15 dias tenho de deixar a casa onde estou e ainda nem sei bem para onde vou.
Desempregado e sem subsidios, penso que irei para um quarto em casa de um amigo. Não poderei levar os animais. Duas cadelas com 1 ano, não esterilizadas, a mãe delas esterilizada e que sofre de epilepsia, um gato e uma gata, irmãos esterilizados.
Todos estes animais sempre estiveram em casa, pelo que não sabem o que é a rua. Todos se dão maravilhosamente bem entre si e são doceis e amorosos.
Adoro estes familiares, mas a vida deu uma volta enorme e estou obrigado a fazer o que nunca pensei possivel. Se alguém puder ajudar, estes 5 animais agradecem (e eu também). Estou em Casa Nova, perto de Semide na região de Coimbra.
Aguardando um milagre, Carlos David Martins carlos@comboiodigital.com"
(Gaia, Luna e Petra nas fotos. Clique na imagem para aumentar.)
photo encontrada por aí, sem referência

Facto diverso


Discretamente fui ontem almoçar
ao lado do meu tumulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava lá em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)

Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito

Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma búlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença leal e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária

e sentámo-nos

à esquerda Cesariny
recém-chegado de beber uma cerveja no Inferno
à direita o Erol Isin
recém-fugido dos lobos de Istambul
onde para urinar se caminha entre a neve
com uma Luger na mão
e um aviso no sexo (PROIBIDO DEVORAR)

e olhámos
o elevador de Santa Justa parecia indicar
a verticalidade rápida de menos dois tostões
noticiando o Tejo e a sua ponte
(muito para mostrar aos do Brasil e de Lesoto)
Lisboa (António Maria) sentou-se ao nosso lado
Sentados
Todos sentados e continuando a respeitar as leis
ficámos
a ouvir o noticiário meteorológico
Campo de Ourique algumas nuvens com precipitação provável
Rua do Norte alta pressão isobárica
Rocio o costume
Cais do Sodré frente fria em evolução
com alguns barcos para o Barreiro e muitos nabos
abrimos
uma lata de enchovas
esfregámos os pés no azeite (enlatado de exportação)
e alimentámo-nos confortavelmente
enquanto escrevíamos cartas
à família mais próxima é evidente
e tentávamos absorver
através das palhinhas made in Japan
alguns tragos de vinho do Cartaxo
recém-desembarcado do vapor

Lembras-te menina
Como foram rigorosas
as nossas noites de amor?


É preciso não esquecer que o processo de crescimento
da humanidade
é metálico
daí os fornos crematórios
e os vários campos de concentração mais ou menos repelentes
Sentados olhávamos

Um gato sorriu atrás da porta e espreguiçou-se
escreveu taquigraficamente um salto no espaço
e propôs-nos um jogo de encontrar
depois seguiu a aventura de ser ele

A rua da Palma parecia uma mentira inesperada
enquanto assávamos sardinhas e pimentos na escada de pedra
e alguém dava um pontapé numa bola de trapos
que rolava para a praça seminocturna

Escrevemos mais cartas
desta vez aos amigos distantes
e a alguns membros das polícias excessivamente secretas
que tentam decifrar a grafia do voo dos pássaros

Lembras-te
quando partiste?
Levavas um casaco muito branco
e enquanto pisavas os degraus
sorrias
como uma navalha de Albacete

Os automóveis passavam com procissão obsessiva
anunciando apenas um dia febril
enquanto pessoas muito pessoas
pernas dedos dentes
traçavam no solo o diagrama
de mais uma tentativa simplesmente quotidiana

As ruas deslizavam calmas
como quem volta do teatro e vai dormir
Animoglu Sok
Gonçalves Crespo
New Oxford
Gorki
Gregoire-de-Tours
Animoglu Gonçalves Oxford Gorki-de-Tours

Só uma rua imensa possessive
mostrando caminho até ao fundo do espaço
com sinais cabalísticos em cada esquina
e cartazes ofertando maravilhas
cigarros congressos políticos preservativos requintados
sabonetes retratos de assassinos
circos de cavalinhos aguardentes antiquíssimas
máquinas de computar a morte
lutas de mulheres laxantes infalíveis
Sorrimos
O Cesariny levantou-se à minha esquerda
e partiu para mais uma cerveja no Inferno
o Erol Isin à minha direita ergueu-se
e lá se foi
voltando a um Bósforo cor de corno e mar
só o Lisboa
metendo um cágado no bolso
e dando a mão a um menino
ficou à minha espera

mas não me levantei
não tenho pernas

Lembras-te
como amei Fipsy?
Deves contar isso a alguém
Fica-te bem.




Novembro – 69

Poema de Mário Henrique Leiria a acompanhar carta enviada a Mário Cesariny em 1970
(primeira publicação do poema, na revista surrealista holandesa «Brumes Blondes», número 3, 1972, en versão francesa de Isabel Meyrelles)
in António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Henrique Leiria – Três Poetas do Surrealismo, Exposição Ícono-Bibliográfica,org. de Mário Cesariny
Biblioteca Nacional, Lisboa, 1981

oh, me loves her a lot!

photo publico.pt

Portugal é uma paragem obrigatória nas suas digressões. Consegue explicar porquê?

Não sei. É um lugar onde me sinto confortável, porque trabalho com histórias muito compridas e aqui as pessoas gostam de palavras.


publico.pt

[post surripiado na íntegra]

pessoa e local assaltado: no

Conversas

Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta à noite.
Muitos temem mais as suas fobias do que a própria morte.
O vítreo Rei de França temia quebrar-se.
Os eunucos chineses mantiveram os seus túbaros em espírito.

O teu cérebro pode sangrar num único espirro.
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta quando se inclina,
o Donald Duck foi uma vez expulso da Finlândia
por não usar calças.

As suas patas eram só penas como as da Margarida
mas nenhuma avestruz enterrou a cabeça na areia.
A cura do escorbuto foi encontrada
para logo se perder ao longo das teorias médicas.
O Começo é um estático som branco.

A lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e lémures e macacos capuchinhos
dão uma centopeica volta até desaparecerem
nas suas poderosas secreções.

O coração de um esplendoroso cavalo abranda.
Um facto é uma pequena fé,
uma leve impressão sensorial para animais, poderosa para os homens
mesmo que seja verdadeira, mesmo quando verdadeira –
nós lemos estas leis em Isaac Neurónio.

Uma mulher teve sessenta e nove filhos.
Alguns leões acasalam cinquenta vezes ao dia.
Napoleão era viciado em vitórias.
Uma lua-cheia nasce sempre ao pôr-do-sol.
Os soldados podem agora seguir o caminho de casa.

Les Murray (Austrália, 1938)
in Taller When Prone (2010)

(tradução da Ana Salomé)


Enquanto a meu lado dormes

Gustav Klimt, A Árvore da Vida, 1909
por


Enquanto a meu lado dormes e, como de hábito, tens pesadelos
da minha boca sobe um balão de ar quente por onde fugimos os dois até ser claro
e a noite ser brincadeira de espuma na rebentação dos cabelos
O sono pérfido, nocturna suppressio, não te inquietará mais
do que a infinitesimal passagem do insecto pelo tempo
Guardiã dos espelhos das tuas mãos
conto-te coisas que minha mãe já ouviu contar
Damas pé-de-cabra e um ancinho aplanando as terras jardinadas
a vez em que me abriram uma cova e prestes a morrer
fui descalça correndo em tua direcção
ainda tu não existias
e o amor era um cavalo de muitas cores.






para ti :)*

panóptico, George Orwell e o vosso* ministro da Educação e Ciência

«Na semana passada, cometi a imprudência de usar uma palavra contra a qual o Acordo Ortográfico dispara com uma fúria cega as suas regras de aniquilação e entra em desvario: a palavra ‘panóptico’, que designa uma arquitetura carceral, o panopticon, imaginada no século XVIII por Jeremy Bentham. Quem reviu o texto emendou para ‘pan-ótico’, por analogia com outras palavras formadas com “pan” que levam hífen. Mas o mais importante é a supressão do ‘p’, que parece obrigatória, segundo o AO. Ora, tratando-se de uma palavra que sempre teve um uso culto, nunca conheceu outra pronúncia que não fosse a da “norma culta”. Ou seja, “panóptico”. Mas ninguém, nem sequer quem reviu o texto, tem obrigação – e os meios, porque não se fixou ainda um vocabulário ortográfico comum – de saber tudo aquilo que é necessário para aplicar corretamente uma das muitas exceções que o AO consagra para tentar salvar as suas regras: teria de saber que em todo o espaço da língua portuguesa a palavra se pronuncia com ‘p’ e que, por conseguinte, não há lugar à supressão da consoante, porque ela não é muda (note-se que tal saber impossível também é requerido para o uso das muitas facultatividades).  
Uma amiga brasileira confirmou-me por e-mail: “Nós aqui dizemos e escrevemos ‘panóptico’ como vocês.” Como vocês? Isso era dantes, porque o AO, estúpido como é – de uma estupidez cómico-grotesca –, promove constantemente erros de hipercorreção, sem fornecer meios que os possam evitar. E, hipertélico, acaba por ir além dos seus próprios fins e anulá-los. Sem o ‘p’, a palavra refere-se à audição e não à visão, ou então é usada no campo da química para designar um corante. Não é tudo isto absurdo, próprio de uma terra onde Ubu é rei, ainda por cima quando temos um ministro da Educação e Ciência que, antes de o ser, corroborou famigeradas denúncias de “imposturas intelectuais”?»


António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 12.5.2012

via Fallorca

* o mesmo pedido: condescendam, por favor, ando em negação de tipo “este políticos não são meus”

Comunicado: Empresa ataca liberdade de expressão em Blogue dos Precários Inflexíveis

O movimento Precários Inflexíveis foi alvo de uma Providência Cautelar pela empresa Ambição International Marketing. Esta empresa, dizendo-se injuriada por vários comentários (escritos por centenas de pessoas) num post de denúncia, avançou com um processo em tribunal para forçar o movimento a apagar todos os comentários do blogue. Independentemente de serem ou não contra esta empresa, independentemente do que está escrito, a empresa quer que seja apagado cada um dos mais de 350 comentários.

Infelizmente o Tribunal colocou-se do lado da empresa de forma mais do que inesperada: na sentença proferida, condena o PI a retirar não todos, mas muitos dos comentários escritos pelos cidadãos que por vezes nem sequer referem a empresa. Como sempre dissemos, nunca faremos qualquer censura nem julgaremos ninguém pelas suas opiniões. Por isso, discordamos frontalmente da sentença executada.

Apresentamos alguns factos:

- A empresa em causa, Ambição Internacional Marketing, exige que se retirem os comentários sobre um texto que é sobre outra empresa, Axes Market, e não sobre qualquer texto em que fosse citada.
- A Ambição International Marketing, que avançou com o processo, nunca pediu direito de resposta ao PI e nunca dirigiu qualquer carta ou contacto ao movimento.
- Nenhuma das empresas (ou talvez a mesma com nome diferente) avançou com qualquer processo ou queixa contra quem escreveu os comentários. Portanto, o que preocupa a administração da empresa é a liberdade de expressão na internet. O mesmo preocupa o Tribunal.


O resto do comunicado está disponível em "Ler mais".

Sentença disponível aqui.


O movimento Precários Inflexíveis defende e defenderá sempre a liberdade de expressão e a igualdade na exposição de textos e ideias, críticas, ou outras, na internet, salvo excepções sobre textos violentos sob qualquer ponto de vista: físico ou social. A internet deve continuar a ser um espaço de liberdade e igualdade.

O PI vai reagir judicialmente, porque não aceita que o Tribunal e a Justiça sejam instrumentos para afirmar que as empresas podem exigir que os comentários negativos sejam apagados ou que os seus textos e marcas valem mais do que as opiniões e denúncias dos cidadãos. Particularmente quando centenas de pessoas denunciam actividades suspeitas de empresas como esta. A liberdade é a base da democracia, porque, antes de mais, significa igualdade. Lutaremos por elas até ao fim.

Pedimos a divulgação ampla desta luta que diz respeito a todos e a todas – é a luta de quem defende a liberdade e a democracia no espaço público, virtual ou não.

+ link para o PDF dos comentários que os tipos também querem acautelar : http://aventadores.files.wordpress.com/2012/05/precc3a1rios-inflexc3adveis_-testemunhos-sobre-a-axes-market.pdf 

Cat People


Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.


Margarida Vale de Gato
Mulher ao Mar, Mariposa Azual Lisboa, 2010.

eis que

à laia daquelas mães que enviam as fotos das criancinhas para o canal Panda,
submeti o Manjerico como Literary Cat et voilá!



Some people don't dance, if they don't know who's singing,
why ask your head, it's your hips that are swinging







Não. Assim, não.

juramento de Hipócrates
De facto, o modelo “ofender a dignidade dos cidadãos a qualquer custo“ está a ser largamente praticado pelos vossos* presidente da república e primeiro-ministro. Não seria de esperar atitude mais digna de um chico-esperto do marketing contratado por um palerma da propaganda médica.


#1 Pelo que li, há questões de rigor científico que não estão asseguradas na campanha e isso é grave

#2 Por favor, não ofendam a nossa inteligência, as empresas farmacêuticas/de dispositivos médicos não têm em primeira linha a causa mas antes a €causa$

#3 Ao Sr. Rui Reis (investigador e presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular), tenho a dizer que é importante não dizermos patetices como «Não “vê nada de mal no anúncio”» e sugiro que volte à escola de ética ou deixe de ser dissimulado pois, apenas por ignorância ou fingir cegueira é que não se identifica a maldade inerente

#4 À personagem André Gomes (administrador da Crioestaminal) pergunto: se a intenção é «precisamente provocar este debate, na medida em que “85% das células do cordão umbilical não vão para bancos privados ou para o público, mas para o lixo”» porque é que a campanha se dirige especificamente aos pais mostrando uma criança num cenário de hospital e não mostra antes uma mesa de ministros e administradores hospitalares a serem questionados?

#5 Também ao ser vivo referido no ponto anterior, peço novamente que não tente ofender a nossa inteligência com isto: “Se reparar, nunca se diz para os pais escolherem a Crioestaminal”

#6 Ainda ao mesmo respirante, um conselho: se pensa que “têm sido mais as críticas positivas que as negativas” tente rodear-se de pessoas diferentes das do habitual pois pode estar a limitar o seu leque de opinião, mas isto é um conselho apenas tendo em conta que esteja a falar verdade e tenha vontade sincera de fazer um trabalho melhor pela tal causa. De nada, o conselho é totalmente grátis.

#7 Isto não encaixará num qualquer tipo de "Bullying a futuros pais" (chamemos-lhe assim)?

#8 A futuros pais: a minha solidariedade, não deve ser fácil lidar com propagandistas agressivos numa fase tão bonita e ainda assim tão frágil e periclitante.

nota: acabaram de assistir a mais um momento [margarete não poupa no latim, podia ter simplesmente dirigido a seguinte pergunta aos seres vivos da Crioestaminal: sois apenas uns energúmenos ou umas bestas?]

* condescendam, por favor, ando em negação de tipo “não são meus”

adenda em 21/Maio: "O deputado bloquista João Semedo exigiu esta segunda-feira junto do Instituto do Sangue e da ERC a suspensão imediata da campanha da Crioestaminal e a abertura de um inquérito por violação da lei da publicidade." e... "Crioestaminal suspendeu anúncio polémico"

O Dia da Espiga

imagem dali
Não vou mentir, nem pôr com meias-medidas: ser filho de emigrante é difícil. Na melhor das hipóteses, o que nos pode acontecer é ter este maldito sentimento ambivalente de se querer fazer a vida em ambos países. E isso sou eu e mais alguns. Há pessoas a quem a coisa fica mais difícil, mas não me apetece falar do contrário de fácil. Apetece-me falar de rir e do sentimento de se ser a sorrir.
Ontem foi dia da espiga o que, apenas pelo nome, me remete a 1981, ano em que vim com os meus pais e irmã viver para Portugal. Lembro-me dos ramos de espiga nas minhas primeiras observações das casas. E lembro com tanta ternura os nossos passeios do dia da espiga. Ah, benditas professoras que apanhei naquela escola primária. Era tudo a preceito, até os puxões de orelha, isso é conversa para outro dia mas quero já deixar bem claro que só levei um e foi merecido, vá.
Cheguei de Toronto, duma grande escola de cidade com as condições físicas que as nossas escolas começam a ter agora, essas tão mal-amadas do “projecto escolar” e fui para uma escola de aldeia com duas salas. E era linda, eram ambas lindas, as minhas escolas da primária (estão agora a ver o drama de ambivalência desta moça?). O chão espinhado de madeira, as janelas enormes, a salamandra ao canto, as carteiras ainda com tinteiro, os cheiros, oh, as madeiras, o cheiro de lápis de cera cisne e lápis viarco e papel e borrachas pelikan, e o pinhal que entrava pela frente da escola e os eucaliptos por detrás, e nós de bata lavada, como gostei daquilo, vivi tudo ao pormenor. E as brincadeiras. O ringue, o lobo na serra, o macaquinho de chinês, o limão, e a triste viuvinha.
A vida portuguesa cedo nos mostrou o choque e eu não estava distraída, vi bem a minha mãe e a minha mana, cheguei a rezar à noite para que voltássemos para o Canadá, precisava de as ver felizes de novo, mas o ar que recebeu as minhas orações não me ouviu e nós fomos ficando. E eu sem dificuldades de adaptação. Ia dar de comer aos porcos com o meu avô e brincava horas sozinha porque os outros meninos não eram autorizados, tinham de ir para as fazendas, ou tratar de irmãos mais novos ou, simplesmente, aproveitar o resto da luz do dia para fazer os trabalhos de casa e evitar o petromax. Mas era feliz, tinha muito para fazer lá pela aldeia. Até um cão eu passei a ter, e depois outro e outro e, pronto, nunca mais deixei de ter bichos na minha vida.
E adorava a escola e os seus rituais: pedir a bata à minha mãe quando a outra ia para lavar, o saquinho de pano onde levava o papo-seco com manteiga ou marmelada, a minha mala da escola, o leite que nos davam na escola numa caneca de plástico, havia de várias cores. E, depois, a envolvência dos dias festivos. Adorei aprender os costumes de cada data. E as palavras, lembro perfeitamente de aprender a palavra “consoada”, por exemplo. O dia do bolinho e a saca do pão mais bonita, imaculadamente lavada e impecavelmente engomada. E os dia da espiga. A sensação era sempre de que vinha mesmo a calhar. A Primavera iniciada, a vontade de estar mais tempo no recreio do que na sala de aula, a eternidade de tempo que ainda faltava para o início das férias grandes (em Junho, oh santa noção do tempo que as crianças têm), todos estes factores juntos faziam do dia da espiga um acontecimento maravilhoso. Lá íamos nós para a escola nessa manhã, com outro acordar. E eu sabia que era uma coisa que vivia porque vim para Portugal. O resto, o passeio pelo campo com as professoras, podem imaginar, basta aceder ao vosso imaginário bucólico. Naturalmente, ao voltar para a sala de aula, fazíamos um desenho e escrevíamos uma redacção: O Dia da Espiga.