alguma dica sobre como me desembaraçar desta maledicência?
grata
sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
You are welcome to Elsinore
Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim, 1957
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio & Alvim, 1957
SÚMULA
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Hélder
in Ou o Poema Contínuo
Assírio e Alvim, 2001
2.
tombo as carnes – sinto-as escorrer dos ossos
e o mar ressoa na minha cabeça como uma imensidão
de noites: Ah, as noites pétreas e pesadas
que impossíveis nuvens não sustentam
e dunas que dormem à noite ao luar
quando gostaria de anunciar a vaga toda
que rompe dentro de mim violenta
como todas as vagas, mesmo as mansas
e brandas que trazem a persistência da erosão.
Carlos Veríssimo
A fuga do peixe melancólico
edição de autor, 2012
e o mar ressoa na minha cabeça como uma imensidão
de noites: Ah, as noites pétreas e pesadas
que impossíveis nuvens não sustentam
e dunas que dormem à noite ao luar
quando gostaria de anunciar a vaga toda
que rompe dentro de mim violenta
como todas as vagas, mesmo as mansas
e brandas que trazem a persistência da erosão.
Carlos Veríssimo
A fuga do peixe melancólico
edição de autor, 2012
Apanhado em fragrâncias
cinzelar a burrice juvenil
entontecido na melancólica bicicleta
percorrias
os frios provinciais cuidando
distinguir uma pontinha já de Primavera; em vez dela tombavas
no incalculável prejuízo dos versos, moléstia à parte
e na estação errada
sempre as laranjeiras flóreas, cúmplices
caladas na incumbência de produzir a imperceptível alegria
que recendia sem parar na fiada odorífera das ruas
também o lumaréu dos limoeiros
desprendendo
cheiros que portões de ferro, caiados muros
puderam nunca aquartelar
e em Lisboa, apeado no imaturo homem
bárbaro, barbado em que te mudaste, a fumarada das sardinhas
avioletou na doçura dos jacarandás; o sexo
agora vezo e hálito, exala a ácida variedade
que nunca te nauseou
depois os europeus odores, centrais
ou varado nos velhos comboios do Leste
porcos, gastos, alvoroçados
lavatórios do mundo onde lavaste as cuecas
evitando tocar nos ralos
tudo para chegar hoje a uma ideia de Índia
suposta, sonhada, odor infindável de um sem-fim
perfumado, onde pudesses compreender
a colorida arquitectura do ar
a suave dimensão da espessura
a girar no vazio um dia inteiro
Miguel Manso
livro em preparação, 2012
entontecido na melancólica bicicleta
percorrias
os frios provinciais cuidando
distinguir uma pontinha já de Primavera; em vez dela tombavas
no incalculável prejuízo dos versos, moléstia à parte
e na estação errada
sempre as laranjeiras flóreas, cúmplices
caladas na incumbência de produzir a imperceptível alegria
que recendia sem parar na fiada odorífera das ruas
também o lumaréu dos limoeiros
desprendendo
cheiros que portões de ferro, caiados muros
puderam nunca aquartelar
e em Lisboa, apeado no imaturo homem
bárbaro, barbado em que te mudaste, a fumarada das sardinhas
avioletou na doçura dos jacarandás; o sexo
agora vezo e hálito, exala a ácida variedade
que nunca te nauseou
depois os europeus odores, centrais
ou varado nos velhos comboios do Leste
porcos, gastos, alvoroçados
lavatórios do mundo onde lavaste as cuecas
evitando tocar nos ralos
tudo para chegar hoje a uma ideia de Índia
suposta, sonhada, odor infindável de um sem-fim
perfumado, onde pudesses compreender
a colorida arquitectura do ar
a suave dimensão da espessura
a girar no vazio um dia inteiro
Miguel Manso
livro em preparação, 2012
Paraíso Perdido
É o bibe é a trança
a lisura da anca
a doçura da pele a pastel de nata
Os dedos erguidos num aceno
de esperança
o sonho onde o lince lhe devora a ilharga
É a mãe sem saber
quanto o belo lhe pesa
a avó a arranjar o pão com marmelada
O sino que ao longe
diz da missa e da reza
na igreja onde sempre entrará aterrada
É a gola de renda a picar
no pescoço
o livro lido às escondidas
As histórias escritas no caderno
e o osso
do corpo voraz onde a vida se afirma
É o medo do escuro
porque o quarto vacila
uma noz uma nau no peito em alvoroço
A paixão de organdi
quando a rosa retira
o espinho envenenado do avesso suposto
É o gosto do verso
seduzindo a insónia
alinhavo da alma com bastante amargura
O sabor derramado
a gardénia e no bolso
o cheiro a glicínia ou a coisa nenhuma
É o nervo à flor
de um suor resguardado
debaixo dos braços ou então nas virilhas
Os pulsos estreitos
os joelhos suaves
frutos de uma magreza talvez doentia
É a história inventada
que a culpa condena
o poço da morte só de madrugada
A febre que a toma
e valseia com ela
a aperta nos braços e a deixa quebrada
É o som e o susto
a torpeza do hálito
a lâmina furtiva onde o gesto se afia
A cicatriz da fuga
porque o fio vem doendo
fazendo-a teimar como quem desafia
É o suco o vacilo
o caroço do cuspo
na palma das mãos que o tempo confirma
O sol da manhã a acordá-la de súbito
fazendo-a recordar tudo aquilo
que queria
É o extremo vagar que a memória conhece
mais tarde o abandono
a deixá-la sozinha
Paraíso perdido
com a pressa onde cresce
a tornar-se mulher sendo ainda menina
Maria Teresa Horta
fonte
a lisura da anca
a doçura da pele a pastel de nata
Os dedos erguidos num aceno
de esperança
o sonho onde o lince lhe devora a ilharga
É a mãe sem saber
quanto o belo lhe pesa
a avó a arranjar o pão com marmelada
O sino que ao longe
diz da missa e da reza
na igreja onde sempre entrará aterrada
É a gola de renda a picar
no pescoço
o livro lido às escondidas
As histórias escritas no caderno
e o osso
do corpo voraz onde a vida se afirma
É o medo do escuro
porque o quarto vacila
uma noz uma nau no peito em alvoroço
A paixão de organdi
quando a rosa retira
o espinho envenenado do avesso suposto
É o gosto do verso
seduzindo a insónia
alinhavo da alma com bastante amargura
O sabor derramado
a gardénia e no bolso
o cheiro a glicínia ou a coisa nenhuma
É o nervo à flor
de um suor resguardado
debaixo dos braços ou então nas virilhas
Os pulsos estreitos
os joelhos suaves
frutos de uma magreza talvez doentia
É a história inventada
que a culpa condena
o poço da morte só de madrugada
A febre que a toma
e valseia com ela
a aperta nos braços e a deixa quebrada
É o som e o susto
a torpeza do hálito
a lâmina furtiva onde o gesto se afia
A cicatriz da fuga
porque o fio vem doendo
fazendo-a teimar como quem desafia
É o suco o vacilo
o caroço do cuspo
na palma das mãos que o tempo confirma
O sol da manhã a acordá-la de súbito
fazendo-a recordar tudo aquilo
que queria
É o extremo vagar que a memória conhece
mais tarde o abandono
a deixá-la sozinha
Paraíso perdido
com a pressa onde cresce
a tornar-se mulher sendo ainda menina
Maria Teresa Horta
fonte
A matéria das palavras [às portas de (mais) um novo dia]
Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.
O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.
Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.
Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.
Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.
Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.
Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.
Ana Hatherly
Pavão Negro
Assírio & Alvim, 2003
o desespero do desemprego [via louzanimales]
"Peço ajuda urgente para
a minha familia de 4 pernas. Dentro de 15 dias tenho de deixar a casa
onde estou e ainda nem sei bem para onde vou.
Desempregado e sem subsidios, penso que irei para um quarto em casa de um amigo. Não poderei levar os animais. Duas
cadelas com 1 ano, não esterilizadas, a mãe delas esterilizada e que
sofre de epilepsia, um gato e uma gata, irmãos esterilizados.
Todos estes animais
sempre estiveram em casa, pelo que não sabem o que é a rua. Todos se dão
maravilhosamente bem entre si e são doceis e amorosos.
Adoro estes familiares, mas a vida deu uma volta enorme e estou obrigado a fazer o que nunca pensei possivel. Se alguém puder ajudar, estes 5 animais agradecem (e eu também). Estou em Casa Nova, perto de Semide na região de Coimbra.
Aguardando um milagre, Carlos David Martins carlos@comboiodigital.com"
(Gaia, Luna e Petra nas fotos. Clique na imagem para aumentar.)
(Gaia, Luna e Petra nas fotos. Clique na imagem para aumentar.)
Facto diverso
Discretamente fui ontem almoçar
ao lado do meu tumulo
levei para o acto um ramo de papoilas
que guardava lá em casa há cerca de oito anos
para qualquer momento circunstancial
(sempre me considerei digno e respeitador
dos insultantes bons costumes)
Lá estava gravado na pedra de Estremoz
EUROPA – MAIS UM DIA
era certo e fora um trabalho bem eficiente
em elzevir escolhido e sem defeito
Sentei-me sempre tive esse costume
e fiquei a olhar inquisitivo para a Europa
donde nunca consegui sair
mesmo quando pareço estar remotamente longe
fiquei a olhar para São Paulo
fantasma búlico mal traduzido do americano
que se apaga triste e sem figura
com a presença leal e muito nítida
de Londres de Paris de Moscovo
de Lisboa menina sorridente e milenária
e sentámo-nos
à esquerda Cesariny
recém-chegado de beber uma cerveja no Inferno
à direita o Erol Isin
recém-fugido dos lobos de Istambul
onde para urinar se caminha entre a neve
com uma Luger na mão
e um aviso no sexo (PROIBIDO DEVORAR)
e olhámos
o elevador de Santa Justa parecia indicar
a verticalidade rápida de menos dois tostões
noticiando o Tejo e a sua ponte
(muito para mostrar aos do Brasil e de Lesoto)
Lisboa (António Maria) sentou-se ao nosso lado
Sentados
Todos sentados e continuando a respeitar as leis
ficámos
a ouvir o noticiário meteorológico
Campo de Ourique algumas nuvens com precipitação provável
Rua do Norte alta pressão isobárica
Rocio o costume
Cais do Sodré frente fria em evolução
com alguns barcos para o Barreiro e muitos nabos
abrimos
uma lata de enchovas
esfregámos os pés no azeite (enlatado de exportação)
e alimentámo-nos confortavelmente
enquanto escrevíamos cartas
à família mais próxima é evidente
e tentávamos absorver
através das palhinhas made in Japan
alguns tragos de vinho do Cartaxo
recém-desembarcado do vapor
Lembras-te menina
Como foram rigorosas
as nossas noites de amor?
É preciso não esquecer que o processo de crescimento
da humanidade
é metálico
daí os fornos crematórios
e os vários campos de concentração mais ou menos repelentes
Sentados olhávamos
Um gato sorriu atrás da porta e espreguiçou-se
escreveu taquigraficamente um salto no espaço
e propôs-nos um jogo de encontrar
depois seguiu a aventura de ser ele
A rua da Palma parecia uma mentira inesperada
enquanto assávamos sardinhas e pimentos na escada de pedra
e alguém dava um pontapé numa bola de trapos
que rolava para a praça seminocturna
Escrevemos mais cartas
desta vez aos amigos distantes
e a alguns membros das polícias excessivamente secretas
que tentam decifrar a grafia do voo dos pássaros
Lembras-te
quando partiste?
Levavas um casaco muito branco
e enquanto pisavas os degraus
sorrias
como uma navalha de Albacete
Os automóveis passavam com procissão obsessiva
anunciando apenas um dia febril
enquanto pessoas muito pessoas
pernas dedos dentes
traçavam no solo o diagrama
de mais uma tentativa simplesmente quotidiana
As ruas deslizavam calmas
como quem volta do teatro e vai dormir
Animoglu Sok
Gonçalves Crespo
New Oxford
Gorki
Gregoire-de-Tours
Animoglu Gonçalves Oxford Gorki-de-Tours
Só uma rua imensa possessive
mostrando caminho até ao fundo do espaço
com sinais cabalísticos em cada esquina
e cartazes ofertando maravilhas
cigarros congressos políticos preservativos requintados
sabonetes retratos de assassinos
circos de cavalinhos aguardentes antiquíssimas
máquinas de computar a morte
lutas de mulheres laxantes infalíveis
Sorrimos
O Cesariny levantou-se à minha esquerda
e partiu para mais uma cerveja no Inferno
o Erol Isin à minha direita ergueu-se
e lá se foi
voltando a um Bósforo cor de corno e mar
só o Lisboa
metendo um cágado no bolso
e dando a mão a um menino
ficou à minha espera
mas não me levantei
não tenho pernas
Lembras-te
como amei Fipsy?
Deves contar isso a alguém
Fica-te bem.
Poema de Mário Henrique Leiria a acompanhar carta enviada a Mário Cesariny em 1970
(primeira publicação do poema, na revista surrealista holandesa «Brumes Blondes», número 3, 1972, en versão francesa de Isabel Meyrelles)
in António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Henrique Leiria – Três Poetas do Surrealismo, Exposição Ícono-Bibliográfica,org. de Mário Cesariny
Biblioteca Nacional, Lisboa, 1981
oh, me loves her a lot!
![]() |
| photo publico.pt |
Portugal é uma paragem obrigatória nas suas digressões. Consegue explicar porquê?
Não sei. É um lugar onde me sinto confortável, porque trabalho com histórias muito compridas e aqui as pessoas gostam de palavras.
publico.pt
[post surripiado na íntegra]
pessoa e local assaltado: ana salomé no Pátio Alfacinha
Conversas
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta à noite.
Muitos temem mais as suas fobias do que a própria morte.
O vítreo Rei de França temia quebrar-se.
Os eunucos chineses mantiveram os seus túbaros em espírito.
O teu cérebro pode sangrar num único espirro.
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta quando se inclina,
o Donald Duck foi uma vez expulso da Finlândia
por não usar calças.
As suas patas eram só penas como as da Margarida
mas nenhuma avestruz enterrou a cabeça na areia.
A cura do escorbuto foi encontrada
para logo se perder ao longo das teorias médicas.
O Começo é um estático som branco.
A lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e lémures e macacos capuchinhos
dão uma centopeica volta até desaparecerem
nas suas poderosas secreções.
O coração de um esplendoroso cavalo abranda.
Um facto é uma pequena fé,
uma leve impressão sensorial para animais, poderosa para os homens
mesmo que seja verdadeira, mesmo quando verdadeira –
nós lemos estas leis em Isaac Neurónio.
Uma mulher teve sessenta e nove filhos.
Alguns leões acasalam cinquenta vezes ao dia.
Napoleão era viciado em vitórias.
Uma lua-cheia nasce sempre ao pôr-do-sol.
Os soldados podem agora seguir o caminho de casa.
Les Murray (Austrália, 1938)
in Taller When Prone (2010)
(tradução da Ana Salomé)
Conversas
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta à noite.
Muitos temem mais as suas fobias do que a própria morte.
O vítreo Rei de França temia quebrar-se.
Os eunucos chineses mantiveram os seus túbaros em espírito.
O teu cérebro pode sangrar num único espirro.
Uma lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e uma pessoa é mais alta quando se inclina,
o Donald Duck foi uma vez expulso da Finlândia
por não usar calças.
As suas patas eram só penas como as da Margarida
mas nenhuma avestruz enterrou a cabeça na areia.
A cura do escorbuto foi encontrada
para logo se perder ao longo das teorias médicas.
O Começo é um estático som branco.
A lua-cheia nasce sempre que o sol se põe
e lémures e macacos capuchinhos
dão uma centopeica volta até desaparecerem
nas suas poderosas secreções.
O coração de um esplendoroso cavalo abranda.
Um facto é uma pequena fé,
uma leve impressão sensorial para animais, poderosa para os homens
mesmo que seja verdadeira, mesmo quando verdadeira –
nós lemos estas leis em Isaac Neurónio.
Uma mulher teve sessenta e nove filhos.
Alguns leões acasalam cinquenta vezes ao dia.
Napoleão era viciado em vitórias.
Uma lua-cheia nasce sempre ao pôr-do-sol.
Os soldados podem agora seguir o caminho de casa.
Les Murray (Austrália, 1938)
in Taller When Prone (2010)
(tradução da Ana Salomé)
Enquanto a meu lado dormes
![]() |
| Gustav Klimt, A Árvore da Vida, 1909 |
Enquanto a meu lado dormes e, como de hábito, tens pesadelos
da minha boca sobe um balão de ar quente por onde fugimos os dois até ser claro
e a noite ser brincadeira de espuma na rebentação dos cabelos
O sono pérfido, nocturna suppressio, não te inquietará mais
do que a infinitesimal passagem do insecto pelo tempo
Guardiã dos espelhos das tuas mãos
conto-te coisas que minha mãe já ouviu contar
Damas pé-de-cabra e um ancinho aplanando as terras jardinadas
a vez em que me abriram uma cova e prestes a morrer
fui descalça correndo em tua direcção
ainda tu não existias
e o amor era um cavalo de muitas cores.
Pátio alfacinha
para ti :)*
panóptico, George Orwell e o vosso* ministro da Educação e Ciência
«Na
semana passada, cometi a imprudência de usar uma palavra contra a qual o
Acordo Ortográfico dispara com uma fúria cega as suas regras de
aniquilação e entra em desvario: a palavra ‘panóptico’, que designa uma
arquitetura carceral, o panopticon, imaginada no século XVIII por
Jeremy Bentham. Quem reviu o texto emendou para ‘pan-ótico’, por
analogia com outras palavras formadas com “pan” que levam hífen. Mas o
mais importante é a supressão do ‘p’, que parece obrigatória, segundo o
AO. Ora, tratando-se de uma palavra que sempre teve um uso culto, nunca
conheceu outra pronúncia que não fosse a da “norma culta”. Ou seja,
“panóptico”. Mas ninguém, nem sequer quem reviu o texto, tem obrigação –
e os meios, porque não se fixou ainda um vocabulário ortográfico comum –
de saber tudo aquilo que é necessário para aplicar corretamente uma das
muitas exceções que o AO consagra para tentar salvar as suas regras:
teria de saber que em todo o espaço da língua portuguesa a palavra se
pronuncia com ‘p’ e que, por conseguinte, não há lugar à supressão da
consoante, porque ela não é muda (note-se que tal saber impossível
também é requerido para o uso das muitas facultatividades).
¶
¶
Uma amiga brasileira confirmou-me por e-mail:
“Nós aqui dizemos e escrevemos ‘panóptico’ como vocês.” Como vocês?
Isso era dantes, porque o AO, estúpido como é – de uma estupidez
cómico-grotesca –, promove constantemente erros de hipercorreção, sem
fornecer meios que os possam evitar. E, hipertélico, acaba por ir além
dos seus próprios fins e anulá-los. Sem o ‘p’, a palavra refere-se à
audição e não à visão, ou então é usada no campo da química para
designar um corante. Não é tudo isto absurdo, próprio de uma terra onde
Ubu é rei, ainda por cima quando temos um ministro da Educação e Ciência
que, antes de o ser, corroborou famigeradas denúncias de “imposturas
intelectuais”?»
António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 12.5.2012
via Fallorca
* o mesmo pedido: condescendam, por favor, ando em negação de tipo “este políticos não são meus”
Comunicado: Empresa ataca liberdade de expressão em Blogue dos Precários Inflexíveis
O movimento Precários Inflexíveis
foi alvo de uma Providência Cautelar pela empresa Ambição International
Marketing. Esta empresa, dizendo-se injuriada por vários comentários
(escritos por centenas de pessoas) num post de denúncia, avançou com um processo em tribunal para forçar o movimento a apagar todos os comentários do blogue.
Independentemente de serem ou não contra esta empresa,
independentemente do que está escrito, a empresa quer que seja apagado
cada um dos mais de 350 comentários.
Infelizmente o Tribunal colocou-se do lado da empresa de forma mais do que inesperada: na sentença proferida, condena o PI a retirar não todos, mas muitos dos comentários escritos pelos cidadãos que por vezes nem sequer referem a empresa. Como sempre dissemos, nunca faremos qualquer censura nem julgaremos ninguém pelas suas opiniões. Por isso, discordamos frontalmente da sentença executada.
Apresentamos alguns factos:
- A empresa em causa, Ambição Internacional Marketing, exige que se retirem os comentários sobre um texto que é sobre outra empresa, Axes Market, e não sobre qualquer texto em que fosse citada.
- A Ambição International Marketing, que avançou com o processo, nunca pediu direito de resposta ao PI e nunca dirigiu qualquer carta ou contacto ao movimento.
- Nenhuma das empresas (ou talvez a mesma com nome diferente) avançou com qualquer processo ou queixa contra quem escreveu os comentários. Portanto, o que preocupa a administração da empresa é a liberdade de expressão na internet. O mesmo preocupa o Tribunal.
O resto do comunicado está disponível em "Ler mais".
Sentença disponível aqui.
O movimento Precários Inflexíveis defende e defenderá sempre a liberdade de expressão e a igualdade na exposição de textos e ideias, críticas, ou outras, na internet, salvo excepções sobre textos violentos sob qualquer ponto de vista: físico ou social. A internet deve continuar a ser um espaço de liberdade e igualdade.
O PI vai reagir judicialmente, porque não aceita que o Tribunal e a Justiça sejam instrumentos para afirmar que as empresas podem exigir que os comentários negativos sejam apagados ou que os seus textos e marcas valem mais do que as opiniões e denúncias dos cidadãos. Particularmente quando centenas de pessoas denunciam actividades suspeitas de empresas como esta. A liberdade é a base da democracia, porque, antes de mais, significa igualdade. Lutaremos por elas até ao fim.
Pedimos a divulgação ampla desta luta que diz respeito a todos e a todas – é a luta de quem defende a liberdade e a democracia no espaço público, virtual ou não.
Infelizmente o Tribunal colocou-se do lado da empresa de forma mais do que inesperada: na sentença proferida, condena o PI a retirar não todos, mas muitos dos comentários escritos pelos cidadãos que por vezes nem sequer referem a empresa. Como sempre dissemos, nunca faremos qualquer censura nem julgaremos ninguém pelas suas opiniões. Por isso, discordamos frontalmente da sentença executada.
Apresentamos alguns factos:
- A empresa em causa, Ambição Internacional Marketing, exige que se retirem os comentários sobre um texto que é sobre outra empresa, Axes Market, e não sobre qualquer texto em que fosse citada.
- A Ambição International Marketing, que avançou com o processo, nunca pediu direito de resposta ao PI e nunca dirigiu qualquer carta ou contacto ao movimento.
- Nenhuma das empresas (ou talvez a mesma com nome diferente) avançou com qualquer processo ou queixa contra quem escreveu os comentários. Portanto, o que preocupa a administração da empresa é a liberdade de expressão na internet. O mesmo preocupa o Tribunal.
O resto do comunicado está disponível em "Ler mais".
Sentença disponível aqui.
O movimento Precários Inflexíveis defende e defenderá sempre a liberdade de expressão e a igualdade na exposição de textos e ideias, críticas, ou outras, na internet, salvo excepções sobre textos violentos sob qualquer ponto de vista: físico ou social. A internet deve continuar a ser um espaço de liberdade e igualdade.
O PI vai reagir judicialmente, porque não aceita que o Tribunal e a Justiça sejam instrumentos para afirmar que as empresas podem exigir que os comentários negativos sejam apagados ou que os seus textos e marcas valem mais do que as opiniões e denúncias dos cidadãos. Particularmente quando centenas de pessoas denunciam actividades suspeitas de empresas como esta. A liberdade é a base da democracia, porque, antes de mais, significa igualdade. Lutaremos por elas até ao fim.
Pedimos a divulgação ampla desta luta que diz respeito a todos e a todas – é a luta de quem defende a liberdade e a democracia no espaço público, virtual ou não.
+ link para o PDF dos comentários que os tipos também querem acautelar : http://aventadores.files.wordpress.com/2012/05/precc3a1rios-inflexc3adveis_-testemunhos-sobre-a-axes-market.pdf
Subscrever:
Mensagens (Atom)









