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Henri Cartier-Bresson, Mexico, 1934. |
sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com
{correspondência}
Meu querido querido,
Sei que sabes que não tenho escrito, nem sequer se trata da ausência do acto de me dirigir à estação dos correios. Trata-se antes de afonia, nada de novo como nunca o é. Sou eu, todos os dias, os dias todos, a viver a revisão da matéria do próprio dia dentro do dia. Não sei explicar como ainda não me encharquei. Um fenómeno.
Como estás? Como te encontra esta carta?
Viste o telejornal? Viste o que aconteceu lá na capital? Sabes que não comentarei, apenas fiquei preocupada, pensei: pronto, mais lenha. Preocupo-me.
Preocupo-me contigo.
Tens comido bem?
Falta pouco tempo para a minha chegada, já tenho a lista do que depois te deixarei preparado na arca congeladora. Sabes que vou ralhar se chegar e vir que não comeste nem metade. Ao menos dá ao cão, para disfarçar, olha que ele agradece.
Não são como os homens. Os cães não têm amizades de toca-e-foge.
É por isso que eu tenho um gato, para não me distrair, para ter sempre presente o condicionalmente limitado. O homem, a mulher, nós sabemos, são cada vez mais estreitos nas suas condições.
Fazem bem, é da liberdade.
Por falar em liberdade, tenho aqui alguns embrulhos para levar e não digo quantos são, mas não me aguento sem te dizer que um deles chegou de Benguela. Aposto que não tens nenhum à altura deste. O prémio “encomenda mais bonita” desta vez vai para mim e até já sei o que vou querer (não vale a pena dizer que o prémio são beijos, esses, vais dar-mos com ou sem concurso de encomendas). Também não adianto assunto sobre o prémio que vou pedir, e vamos a ver se consegues disfarçar a curiosidade.
Em duas idas à vila, entre as encomendas do correio e as lojas, trouxe tesouros, hei-de ver-te todo sorrisos quando nos sentarmos no chão da sala, em cima da manta, a abrir um-a-um. Brinquedos autênticos.
Ah, e comprei um vestido, não vais gostar da cor, ou antes, não costumas gostar. Adivinhaste: é vermelho. Fica-me bem. Mudei de ideias, acho que vais gostar.
Tanta escritura e ainda nem te contei as novidades cá da terra… Custa a dizer, mas emigraram mais duas famílias, emigram sempre dos que fazem cá falta, pelo menos é o que tem acontecido aqui. Não fiques triste, mas um deles foi o padeiro. Eu sei, eu sei. Foi-se a vida que a padaria dava ali ao largo. Resta a missa ao Sábado à tarde para juntar dois ou três gatos (gatas) pingados no largo. Não sei se já te tinha dito, mas, desde que morreu o padre “casado”, já só há missa aos Sábados às cinco da tarde. Não é pela falta que me faça a cerimónia, bem sabes, é pelo encontro da gente. Faz falta. Falei com o merceeiro e vamos organizar leilões ao Domingo à tarde. (mais uma desculpa para eu fazer bolos) Ainda não sabemos o que vamos fazer com o dinheiro, mas temos uma certeza e, quer acredites quer não, quem teve a ideia foi uma das beatas: o dinheiro não irá para a igreja. Ou doamos ou alugamos uma camioneta para irmos todos passar uma tarde ao Agroal no Verão.
Enfim, cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas, está a acabar o espaço e não gosto de encher mais do que uma folha com palavreado num só dia.
Como estás? Como te encontrou esta carta?
Fica bem, por favor, e espera por mim que estou quase a chegar, há-de ser para te abraçar e para te beijar, e para ser abraçada, por ti, meu querido
Querido
eu
Sei que sabes que não tenho escrito, nem sequer se trata da ausência do acto de me dirigir à estação dos correios. Trata-se antes de afonia, nada de novo como nunca o é. Sou eu, todos os dias, os dias todos, a viver a revisão da matéria do próprio dia dentro do dia. Não sei explicar como ainda não me encharquei. Um fenómeno.
Como estás? Como te encontra esta carta?
Viste o telejornal? Viste o que aconteceu lá na capital? Sabes que não comentarei, apenas fiquei preocupada, pensei: pronto, mais lenha. Preocupo-me.
Preocupo-me contigo.
Tens comido bem?
Falta pouco tempo para a minha chegada, já tenho a lista do que depois te deixarei preparado na arca congeladora. Sabes que vou ralhar se chegar e vir que não comeste nem metade. Ao menos dá ao cão, para disfarçar, olha que ele agradece.
Não são como os homens. Os cães não têm amizades de toca-e-foge.
É por isso que eu tenho um gato, para não me distrair, para ter sempre presente o condicionalmente limitado. O homem, a mulher, nós sabemos, são cada vez mais estreitos nas suas condições.
Fazem bem, é da liberdade.
Por falar em liberdade, tenho aqui alguns embrulhos para levar e não digo quantos são, mas não me aguento sem te dizer que um deles chegou de Benguela. Aposto que não tens nenhum à altura deste. O prémio “encomenda mais bonita” desta vez vai para mim e até já sei o que vou querer (não vale a pena dizer que o prémio são beijos, esses, vais dar-mos com ou sem concurso de encomendas). Também não adianto assunto sobre o prémio que vou pedir, e vamos a ver se consegues disfarçar a curiosidade.
Em duas idas à vila, entre as encomendas do correio e as lojas, trouxe tesouros, hei-de ver-te todo sorrisos quando nos sentarmos no chão da sala, em cima da manta, a abrir um-a-um. Brinquedos autênticos.
Ah, e comprei um vestido, não vais gostar da cor, ou antes, não costumas gostar. Adivinhaste: é vermelho. Fica-me bem. Mudei de ideias, acho que vais gostar.
Tanta escritura e ainda nem te contei as novidades cá da terra… Custa a dizer, mas emigraram mais duas famílias, emigram sempre dos que fazem cá falta, pelo menos é o que tem acontecido aqui. Não fiques triste, mas um deles foi o padeiro. Eu sei, eu sei. Foi-se a vida que a padaria dava ali ao largo. Resta a missa ao Sábado à tarde para juntar dois ou três gatos (gatas) pingados no largo. Não sei se já te tinha dito, mas, desde que morreu o padre “casado”, já só há missa aos Sábados às cinco da tarde. Não é pela falta que me faça a cerimónia, bem sabes, é pelo encontro da gente. Faz falta. Falei com o merceeiro e vamos organizar leilões ao Domingo à tarde. (mais uma desculpa para eu fazer bolos) Ainda não sabemos o que vamos fazer com o dinheiro, mas temos uma certeza e, quer acredites quer não, quem teve a ideia foi uma das beatas: o dinheiro não irá para a igreja. Ou doamos ou alugamos uma camioneta para irmos todos passar uma tarde ao Agroal no Verão.
Enfim, cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas, está a acabar o espaço e não gosto de encher mais do que uma folha com palavreado num só dia.
Como estás? Como te encontrou esta carta?
Fica bem, por favor, e espera por mim que estou quase a chegar, há-de ser para te abraçar e para te beijar, e para ser abraçada, por ti, meu querido
Querido
eu
o chamado covil [ coisas do vouyerismo ]
as horas passam e eu pergunto:
vamos fazer alguma coisa em relação a isto
ou vamos ser os mesmos enconados do costume?
imaginava que, de manhã, na esquadra, havia uma cena tipo hill street blues em que o Capt Furrilo dizia: vá, pessoal, vamos para a rua combater bandidos, tenham cuidado
# mania desta gente sempre a dar cabo do meu imaginário
# devem ser dos tais cabrões de vindouros de que falava o José Mário Branco quando escreveu o FMI
# em Coimbra, parece que saíram tantos à rua quantos os que (não portugueses) saíram em Paris, isto 'tá bonito de tanto manso
# em Coimbra, parece que saíram tantos à rua quantos os que (não portugueses) saíram em Paris, isto 'tá bonito de tanto manso
azeite versus óleo
Comi um pastel de bacalhau
que me enganou. A sua imagem
fazia-me adivinhar um belo momento
a folhear o jornal
intercalando
pastel de bacalhau e café.
Mas não,
alguém colaborou para me estragar
o momento,
ao tocá-lo com os lábios, senti o óleo
velho, olhei-o de frente
reparei:
tinha bacalhau de verdade
(para além da batata, bem se vê).
Comi-o todo. Todo.
Se descubro quem me anda a encher
de óleo velho e rançoso,
respondo por mim.
que me enganou. A sua imagem
fazia-me adivinhar um belo momento
a folhear o jornal
intercalando
pastel de bacalhau e café.
Mas não,
alguém colaborou para me estragar
o momento,
ao tocá-lo com os lábios, senti o óleo
velho, olhei-o de frente
reparei:
tinha bacalhau de verdade
(para além da batata, bem se vê).
Comi-o todo. Todo.
Se descubro quem me anda a encher
de óleo velho e rançoso,
respondo por mim.
o dia dela
hoje, cerca das 7h50, a fazer zapping pelas rádios habituais deixei ficar na Antena 2. ignorante que sou, não vos sei identificar a música que passava. sei que estremeci quando se deu uma interrupção na emissão da música de cordas para se ouvir, na voz dele, "apenas" isto:
ama como a estrada começa
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| still deste documentário |
e continuaram as cordas a tocar. lindo. feliz dia da poesia, minha gente
♥ feliz dia do pai ♥
to all the papas out there, beautiful boys
a sunday afternoon with dad (1979/80)
som: beautiful boyz, cocorosie & antony
o lado sombrio da vida
A doença é o lado sombrio da vida, uma cidadania bem pesada. Ao nascer, todos nós adquirimos uma dupla cidadania: a do reino da saúde e a do reino da doença. E muito embora todos preferíssemos usar o bom passaporte, mais tarde ou mais cedo cada um de nós se vê obrigado, ainda que momentaneamente, a identificar-se como cidadão da outra zona.
O meu propósito não é tanto descrever o que significa relamente emigrar para o reino da doença e aí viver, mas antes as fantasias punitivas ou sentimentais que se constroem acerca dessa situação: não uma geografia real, mas antes estereótipos de carácter nacional. O meu tema não é a doença física em si, mas o uso que se faz da doença como figura ou metáfora.
A minha tese é de que a doença não é uma metáfora, e o modo mais honesto de olhar a doença - e o modo mais são de estar doente - é o olhar mais depurado, mais resistente ao pensamento metafórico. Mas é praticamente impossível fixarmos residência no reino da doença incontaminados pelas sinistras metáforas que lhe desenharam a paisagem. Elucidar tais metáforas, sacudir o seu jugo, constitui o objectivo deste estudo.
Susan Sontag in A Doença como Metáfora e A Sida e as suas Metáforas
Quetzal Editores
1998
nota: este ensaio foi escrito em 1978, quando a autora convalescia de um cancro.
Anos mais tarde, com o aparecimento da SIDA, Sontag escreveu A Sida e as suas Metáforas
modelito para o fim de semana
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| via Clube Literário do Porto |
a banda sonora poderia ser con toda palabra da Lhasa e o filme The Pillow Book*
* que nunca vi mas enfim
Intercidades
galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor
preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre carris faiscando
ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos
preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as
as pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro
preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos
meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre velas acesas
barcos.
Margarida Vale de Gato in Mulher Ao Mar
Mariposa Azual, p.13
2010
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor
preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre carris faiscando
ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos
preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as
as pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro
preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos
meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre velas acesas
barcos.
Margarida Vale de Gato in Mulher Ao Mar
Mariposa Azual, p.13
2010
melhor do que ler este poema só mesmo ouvi-lo por Isaque Ferreira, ah maravilha
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