sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com

[ acknowledging home ] [ inner relief ]


Tu vais por uma vinha afora, que é vinha grada por todos ao lados, pela tua frente, pelo teu detrás, pelos lados, até perder de vista. Não entendes aquelas parras largas a secar cobertas de poalha azul do sulfato, nada as rilhou e as uvas ainda pequenas e inteiriças mas secas, cachos mindinhos como que de amoras verdes gigantonas mas palha, os galhos que é uma força, o lenho escuro deles a mal distinguir-se da negrura das folhas ressequidas, dos bagos secos como semente de cânhamo. Por cima daquela terra sem água, bocarras pretas a abrir-se onde o zebrado das fendas é mais profundo, regos finos como os de palma da mão a abrir trilhos de abismo a abismo. E em cada pedaço inteiriço da terra barrosa, vermelha, morrões secos a rilharem debaixo dos teus pés descalços carmesins do pó dela, alevanta-se airoso e carregado de pó um novo pé de videira.
In Casas Pardas de Maria Velho da Costa


Na generosidade, recebo as primeiras linhas da leitura antes das vindimas. As vindimas ainda estão longe mas a experiência de ter vivido anos sabe que elas se avizinham. O Verão não é um engano, pode ser fantasia, nem é viver os dias que gostaríamos de viver no ano. O ano equilibra-se e assim traz diferentes cheiros na terra, a ver se percebemos que também o pó é um elemento. Nestas vidas. Quantas vezes dissemos curriculum vitae? Tantas quantas as que olhámos o espelho e nem por isso reparáramos no tamanho dos olhos? Contudo, se dissemos desse modo curriculum, não há sentido no embaraço com o alheamento. É sempre tempo de aprender a amplitude do campo visual.
Os meus olhos continuam a querer fechar e eu sei. Os meus olhos estão cansados de cansar. Então, pestanejo muito muito. Os meus olhos, pensei, estão gastos. A restauração, eu não sabia, restaura. Não dissocio, eu sei, os movimentos dos olhos dos movimentos das mãos. Os olhos não cansaram a chorar a ingenuidade. O alarme foi a inocência ameaçada de aniquilação. Então, as mãos trabalharam a pureza, e não é um artefacto. As minhas mãos. Eu sei, mas nunca vi.

messenger, Blonde Redhead
Stay still do be still/ No wonder you are always lost/ If a messenger you must be known/ Then with messages you must return/ To be seen by demanding hands/ And touches of jealous men/ Invisible and forgivable/ To all their secret hands/ Be it so be quick/ Don’t run just walk and walk and walk/ Don’t loose yourself to decorate/ Somewhere on your wall/ Cause somewhere in your mind/ You know you are doing fine/ Holding secret hair locks/ You’ll pluck before you hide/ So how can I keep anything to myself/ So how can I keep any of these to myself/ So how can I keep anything to myself/ Behind those clouds/ I'm almost home

[ a viagem boa ]

Chegarás. As horas serão sempre as poucas. Anseio por te contar que voltei a mudar de linha. Acendo a luz a meio das noites. Dir-te-ei a forma como treme o carvão na minha mão. Fantasio que me entregarás os lápis de cera. Nada quero rasgar. Porém, posso usar cola. Há cores vivas que aguardam, agora a curto prazo, naquela caixa que encerrei na segunda prateleira da estante técnica. Ainda não te contei que voltei ao solfejo, pois não? A minha dificuldade foi lembrar que não se dança o solfejo de braços abertos. Há dias, apanhei-me a sorrir para o metrónomo. As andanças têm aqui tanto para te contar. Anteontem, escrevi-te uma carta mas dispensei-a. Expressá-la-ei na tua presença não verbal. Quando chegares. Chegarás. Eu sei.
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Meu querido, querido,

Espero que a minha carta te vá encontrar bem no mundo. Por aqui, é quase madrugada, as lágrimas e as flores continuam secas, está tudo bem. Escrevo notícias antes de ir ao encontro da cama vaga. Os assuntos continuam activos. Não esqueci a tua pergunta, mas ainda sinto pudor ao perceber que encontrei a resposta. Não consigo libertar-me da suspeita de que a charada se refira ao manifesto que concentras dentro da tua música. Questiono-me, incrédula: que outro caminho pode ter a questão do voo?
Recebi a encomenda que me enviaste à morada certa. Sabes que não aguardo espantos e, talvez por isso mesmo, sou consciente de que ando sempre assarapantada. Sei que para ti é vulgar enviar um envelope de borboletas, mas deixa-me dizer-te que recebê-lo foi um princípio para mim. Ter a sala esvoaçada de borboletas é cenário de palco, e não estou certa de saber o que é excentricidade. O bilhete que me enviaste, enfim, um bilhete em forma de peixe, pareces tu em papel.
Andei em torno das memórias: Juntei os livros e seguro-os debaixo dos pés. Tranquei tudo com um cordel lasso. Pus a girar o disco que comprámos naquela manhã. (aquela manhã)
Amanhã, saio sozinha e deixo-me cá dentro, de guarda. Não esqueci a questão da metamorfose. Por enquanto, praticarei o polimorfismo.
Assim, será safa mais uma aurora.

Até ao nosso próximo abraço,



eu


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zuvi zeva novi, Mler Ife Dada
obrigada à lebre pela imagem e pelo mote ;)

[ os meus dedos e o silêncio deles ] [ que se recolha insignificante a minha cabeça ] [ e suas sentenças ]

«(...) a propósito do actual conflito armado, o escritor israelita David Grossman: "Nenhum dos lados pode derrotar o outro, mas nenhum pode ceder."
Condoleezza Rice, Kofi Annan e Durão Barroso devem saber disso... »

Luís Costa, Público

a moça é apresentade de mão à testa. à cabeça, digo. segura as ideias, provavelmente. provavelmente, tenta agarrar-se. (pronto, este foi o momento ingénuo do dia) os títulos repetem-se, perderam a criatividade - 3ª guerra mundial? o conteúdo, esse, não me lembro de o ler tão sem soluções teóricas prontas a aplicar. não direi mais um nome nem um dedo, porque não me apetece ouvir mais um nome nem um dedo. por estes dias, mais vale um tampão na boca. e nos dedos.

asas


Era uma vida
Enquanto estavas atrás
Senti. O desafio
Olhar a fronte
E as tuas mãos disseram
Que me desfiavas
No _______
Engoli as vísceras
Enquanto proferíamos
A morte
Era. O _______
Rasgámo-nos vivos.





photo: obrigada pelo link, Lebre ;)

[ marchem ai's ] [ a miscelânea dos eu ] [ e muitos números que saem das nossas mãos para as bocas ]

parece que, aqui na rede, escrevemos mais vezes guerra do que paz, e, traduzindo, escrevemos ainda mais vezes war do que peace *. não faz mal, nem é um símbolo. pois não? na rede.
em todos os lados, de todos os lados, andamos à chuva, usamos facas atrás das costas, medimos as pilinhas e comparamos os tamanhos. refugiamo-nos. e dizemos que vemos a
imagem. e cantamos uma canção em simultâneo, às vezes, esquecemos as palavras e não faz mal. se os acordes combinam. não faz mal se esquecemos as palavras ditas. são vagas. assim como a paz que guardamos dentro de dentro da ideia das casas. não faz mal, por causa do lugar comum: no final, cada um morre sozinho; no final, há só 1 número que desaparece. entretanto, a cada segundo, talvez não fosse pior que, das nossas gargantas, apenas grunhidos se ouvisse, puros. marchem as nossas mãos. falemos menos.

* resultados no google: 88.500.000 para guerra; 76.100.000 para paz; 1.530.000.000 para war; 644.000.000 para peace

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raining in darling, Bonnie Prince Billy

[ lápis azul ]

Aqui pratica-se
censura.
A correspondência
foi para a dispensa.
Isto
não é um poema.
(evidentemente, diz o lápis azul)
É só.
Uma nota.
Editorial.
Grata
por vossa atenção.



zuvi zeva novi, Mler Ife Dada

[ we don't have to pray ]

# desabafo desabafos.
# tenho lido pouco nos últimos dias que me faça sentir ajudada num hipotético desejo de formar opinião. com pés e cabeça. e lá voltamos à nomeação das coisas, e uns dos outros, que é de palavras que se gosta. fico desolada, com a sensação de que se fala só no gosto de ouvir a própria voz.
# lugares comuns: tenho medo todos os dias; todos os dias rio; já conheci o que de ódio pode nascer em mim, por mais que a inocente que também sou o quisesse negar. acredito numa certa responsabilidade em não deixar essa semente. usei a expressão espiritual e não digo mal - se mostrar uma atitude pacifista é ser ingénuo, então quero ser ingénuo .
# é desolação ver os comandos nas mãos à espera do universo, imagens quadradas prontas a comover.
# também os meus olhos se ressentem quando nos vejo ao redol de mortos à causa da pior invenção da humanidade - a religião.




# há pouco, fez-se um momento curiosamente poderoso de música no meu pc, tinha o gira-discos a trabalhar e fui ao insónia, quando dei conta estava a Meira Asher (não conhecia) a cantar em simultâneo com a Ursula Rucker :)

[ s u s p i r o s ] [ e tal ] [ e coisa ]

THE LETTING GO

Bonnie Prince Billy


[ don't need any room to breathe ] [ sleeping on the couch ] [ somehow everything falls into place ]


A casa não era nossa e foi nossa que se fez. Lembramo-nos. Longe de tudo o que era sítio nosso. Encontraste-me na rua. E eu encontrei-te. Nessa rua. Perguntaste-me o que andava a fazer e apontei o meu ventre. Ficaste branco como cal, disseste “mas… está liso!... de quanto tempo?” e eu expliquei: Ando a gerar sossego. Vi de imediato o teu sorriso. E uma ideia “seria bonito, essa barriga a gerar gente da nossa” e eu voltei a explicar-te. E tu voltaste a mostrar como sorris. Caminhámos pelas ruas. Perto dessa rua. Decidimos do nosso cansaço e entrámos na casa que não era a nossa casa e que se fez. Perguntaste-me porque e eu expliquei: Prenhe. Confirmaste: reconhecia-se a ausência de padecimento na polidez do bucho. Perguntaste-me “posso?”, dirigindo a mão para tocar. E eu expliquei. Que sim.
Acordei sem dores.



feeling no pain, Josh Rouse

foto: dolphin.s obrigada :)

[ te ajoelho, corpo místico. não me acordes ] [ don't ask for proof ~ love is not a victory march ] [ if you care for music ] [ holy doubts ]


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

o beijo, Gustav Klimt
Natália Correia




hallelujah by Jeff Buckley

decisão

decidiu sobre a sua vida que morreria. no jeito tradicional, olhou os muitos objectos à sua volta. poucos na variedade - livros, uma telefonia, batons e lenços (e um chapéu dentro do guarda-fatos. para o. g l a m o u r.). disse adeus sem eco. não se encheu de tristeza. foi de graça que se envolveu. não queimou os livros. não pintou as paredes de beijos vermelhos e corpo despido. não rasgou os lenços. em vendo tal cenário que classificou sem qualidade teatral, pensou - dirão, com liberdade, que enlouqueci. não quis correr. não deixou a porta escancarada. nem teve vontade de se zangar. sentou-se no frio com um certo cuidado que estranhou. aguçou a lâmina. decidiu sobre a ausência de vontade e a certeza de não ser. senão ilusão. disse - yo ya me voy e suspirou tranquilidade .

Maria Rosa, a velha, disse - morte santa.







yo ya me voy, Lila Downs
requiem a ser ouvido ali

[ oversleeping and no praying on sunday evenings ] [ and other days ]

Rasgos de mundo entre vigilâncias. Repetimos as dormências. Pronuncio orações frouxas. É domingo. À noite. Não é sapiência saber sem anúncio que regressaria o fogo. Continuamos a observar. Derretidos. No chão há formas líquidas. Insisto, pronuncio orações frouxas. Ambiciono coisas bonitas. Observar aves. Pego nas vozes. Indubitavelmente, são bebés, sons que não se traduzem em palavras. E, assim, continuo um ser espantado. Procuro não perder da minha vista a oração do sono. Confesso às paredes a magia: acredito em deus, porque o seu nome é Música. Harmónico é uma palavra bonita, talvez resida aí a redenção. Só a magia poderá amparar a expiação diária.



oversleeping, I'm from Barcelona

[ bom-dia ]

- bom-dia.
- bom-dia.
- diz uma lenga-lenga. diz-ma. diz-me a lenga-lenga.
- eu digo. eu digo uma lenga-lenga. eu digo-te uma lenga-lenga. a lenga-lenga que diz bom-dia e que é contente. uma lenga-lenga que gosta da palavra contente. con - ten - te. len - ga - len - ga. bom - di -a.
- sim. isso. diz essa lenga-lenga. diz-ma.
- bom-dia. bom-dia! esta é a lenga-lenga da palavra con - ten -te. a lenga-lenga da palavra con - ten - te gostaria de ter as palavras cor, bar – co, cro – co – di –lo, lam – pa - ri – na, pa – ra - le – le - pí – pe – do, o – tor – ri – no – la – rin – go – lo - gis – ta, dan – çar – i –nos e con – ten – te, mas não sabia como juntá-las todas na mesma cesta e ficou só com as palavras con - ten -te e bom - di -a. não faz mal, a - len - ga - len - ga - e - ra - con – ten - te - na - mes - ma - por - que - ti - nha - a - sas. sa - bias - que - as - a - sas - su - pe - ram - to - das - as - pa - te - ti - ces - e - dei - xam - zon - zos - os - si - su - dos?

auto-retrato descuidado


[ a nudez, o asilo e a alegria ]

Não é um braço queimado que ordena à reclusão. Não são os olhos turvos que ensinam a lição de contemplar. Não é o aço com que se aprisiona as janelas que resguarda. Estudar as histórias dos antepassados é bonito, mas a possibilidade de saber através delas é remota. O ser civiliza-se... Faz votos. Corta o cabelo. Cobre o corpo com mantos largos. Tapa o sorriso com uma mão enquanto a outra se certifica de que o decote está encerrado. O ser pode civilizar-se e acreditar na sua mansidão por 1 segundo. Lamento, se o ser receia aproximar-se dos caloríferos. Às vezes, parece-me que o ser não desconfia que só os braços queimam, nunca as mãos. Essas, as mãos, despem os dias seguintes ao medo.
Lamento, se receio aproximar-me dos caloríferos.
she said: it takes one to know one. he said: isn't it? isn't it just?



it tango, Laurie Anderson
a música é dedicada: