sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com

coerência, estigmas e Monsieur Lavoisier

Pensava e escrevia e revia registos. Está tudo tão emaranhado, tanto quanto a minha cabeça que dói como se fora ela a própria dor. Não deixo que me suguem o que não há mais para sugar e logo direi stop. Penso e escrevo e revejo escrituras. Penso e engulo tudo. Se não engolir tudo nunca saberei o que ando a fazer à noite durante os sonhos rituais. Não posso parar. Espero que logo chegue rápido. Então estender-me a correr dentro da minha cabeça estas obsessões pelas quais ainda não percebi o processo empático. É importante esclarecer: #1 não sei; #2 “A coerência total é a das pedras e talvez dos imbecis” (Vergílio Ferreira); #3 penso a transformação, dizia há um ano - Porque não é um sonho, nem a falácia de um pesadelo. É a tua nudez a soldo com um pedaço a menos de inocência. És estanque no arrepio
-aragem à pele
sem abalar veloz. Abalar.
(grande celeridade)
Guardar o belo
(grande urgência)
do demais banalizado.

esclarecimento solene

Teria de fazer os retratos das criaturas. Porém distraio-me. Faltam-me construções não-verbais. Não sei a ciência da exactidão e sou alheada nos olhos.

(teria de fazer os retratos)

Acederia falas com cada fácies que acaso me declararia consentimento. Iniciaria malabarismos para os contratos visuais. Pegaria numa craveira de metal, lápis e folha protocolar. Mediria imprecisões. Olharia cada cabeça e pescoço de revés, depois a três quartos, dianteira e perfil. Talvez ajuntasse coragem para espreitar a nuca.

Alinharia os corpos dos retratos e educaria sobre a ausência de normas.

Não é empreitada inteligível reflectir cabeças sem mandíbula e pescoços sem voz. Acredito, os esgares que vejo acontecidos, são porventura sorrisos verídicos.







photo: anatomy lesson, Tony Ward

palavra tristesse no tempo

Agora não posso escrever isto. Não tenho tempo. (o tempo é a vontade de me levantar) As cartas restantes estão encerradas. Lambi as folhas até cortar a face em pedaços iguais às dores. (encolhi o sono até aos olhos arregalados) Fiquei quieta no corpo. Não tenho tempo para electrificar a voz, não desespero. Espero.

Estou a olhar a impotência a rodos.
(é a história toda sempre assim a circular em fórmulas que não soluciono)

Quisera abraçar a lágrima que está lançada.
.
.

Indaga. Num ápice avistarás
o relato das feridas sãs.

Quão abandonada amei o corpo -
missão horrorosa. Recordo
os vidros e o cuidado, socorro
a ideia do odor - sangue
enxuto em cinza (e o bafo,
indício do retiro). Entendo
peles de amar este corpo.

Explica-me o resto a prender-te aqui em renúncia.


Sam Taylor Wood
... foto surripiada ao Luís

boas!

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a verdade é que as obras anunciadas neste blog são de tipo sta engrácia, estão em andamento-interrompidas

como não gostamos (eu e o gato) de ver o blog no aspecto interrupção não-anunciada, exibimos aqui provas do nosso ócio
até já, até sempre!

34.

ontem houve noite acertei-me como clarão fechei a porta cobri o cadáver de pano na caverna consertei um lápis na mortalha a alcançar palavras


(_os_corpos_a_ferir_poesias_ fluidos_às_cores_os_corpos_nítidos_imundos_exsudados_os_corpos_confusos_desaparecidos_já_dos_corpos_sem_cogitar_os_corpos_poesias_em_cima_da_pele_e_das_peles_sem_pausa) _sem_pausa____ ) sem_pausa_________ )




Embrace, 1917
Egon Schiele

] untitled [

Não foi embora
com o término das horas
a perfazer outro dia. Viveu
a insónia comigo, dormiu
comigo, acordou comigo.

Pior, trabalha comigo.
O aperto da ambiguidade
no afecto d’alguém
com serventia ao nosso coração
labora calmo, devastador
a arrepiar a intimidade
.

moods 5.

Tenho apertos dentro do peito e não
minto

tivera tempo e choraria
as vezes caladas

das dores que nos infligimos
hoje despertaram fortes
e eu não
revejo os palcos creio
na mansidão do peito.

Não minto.
Não falo.
Não choro.
Estou apertada.
Creio.


Demoramo-nos.

carta aberta ao meu pai

Experimento o silêncio feroz da menina que tem o pai mais forte do mundo ao agarrar os nossos dias. E é natural que assim seja. És o homem que me oferece búzios a lembrar o encantamento pela natureza. Cresci a saber que os homens também lacrimejam. Cresci e não tenho penas de ter crescido.

Não se perde a doçura ao largar a meninez, diz-me cada instante no teu olhar.

Apostaste todas as apostas que fiz, e nunca me disseste que perdeste. Chamaste-me mulher quando te declarei as minhas derrotas.

De ti, trago esta sina de falar como se quisera cantar as palavras todas.
Um patriarca entre mulheres, de ti, trazemos a nossa palavra da noite. E eu quero que o mundo saiba desta laçada que me impele a dizer do homem que se atarefou de vida a fazer a vida.
Sei que permaneces comigo ao colo. Digo-te que o meu regaço cresceu no dia em que me disseste “Agora sou órfão.”.
Incorro numa promessa: estarei aqui na vida a fazer a vida, na força em que me alumiaste. Por nós, pelo bem-querer.

A cada vez que vou embora, peço-te em mudez a bênção.
A tua bênção, meu pai.








photo: You'll Be a Fortress and I'll Be Safe Inside Your Massive Walls, 1978
Jan Saudek

carta aberta à minha mãe

Relâmpagos entram sem licença pela parede de vidro desta divisão. E eu não tenho medo. Confesso o respeito. Não devo tardar a ouvir os rugidos do céu. Penso que não terei medo, mãe. Sinto a humidade na pele. O gato está aqui ao meu lado e acalmo-o na linguagem que me ensinaste. E eu aprendi.

Aí está o poderoso som dos trovões. Vês? Não tenho medo. Sinto a humidade na pele, não será adiada a chuva. A divisão está bonita com a porta escancarada para a noite.

Suspendo a respiração. Cai a água. Tanta força. Cai com tanta força, mãe.

Calei os sons todos da casa. Agora aceito desta noite o que o céu traz. Todos os sons do azul negro luz e dos bramidos da água fresca.

Silencio as acções a sentir o peito. Começo a ver a infância no aconchego em que me abraçaste. Cresço, já não sou apenas eu. Estás ali nas elaborações da vida. Caio por instantes num coágulo ao visitar os dias em que esmoreceste. E eu tive medo, mãe. E tu acordaste sempre de novo. Em gratidão, continuo a crescer. Reconheço-te. Não tenho ânsias. És bonita. Quero enxertar uma roseira na água desta noite, golpear a mão para fazer o pacto com a sua seiva e baptizá-la Ilda. Quero dizer-te tudo o que no silêncio dos olhos fica.

Quero dizer-te,
mãe, sem respeito
à natureza, se eu pudera
quereria ser tua mãe.














photo

processo [ e fantasia ]

É capaz de ser
verdadeiro,
__________ as coisas
crescem
como as flores
vingam
(ou os belos fungos)
deixam que suceda o tempo
às paisagens, e nós sem saber

eu explico, por exemplo eu
coisa
deixo tudo agora, desvio os olhos
descubro a boca a esquecer os sons todos
calados deixo os essenciais logo



se não esquecesse os sons
todos
a maquilhagem seria tão só
isso a tristesse

assim
das flores, ou só duma
flor
(ou dos belos fungos)
é pois que
me oriento na representação
sem saber para quê tanto
as paisagens.

(É capaz de ser
verdadeiro que as coisas
crescem.)




para ela







Os olhos comeram-me viva
foi bom que acontecesse
desesperava já da náusea
era eu e era a razão dormida
longe de tudo.

O garrote guardou a fúria

aconteceu e eu não sei
como arranjei lidação
concebida a pele agarrou-se
não rebentou

é este calor, é aqui dentro
queima e não dói, mas queima
penso-me parda,
não-lúdica
estou mastigada viva ardo.




auto-retrato [ batalhas ]







esta sou a correr ainda impávida esta sou e seguro o vigor seguro muito sou eu aberta no apaziguamento levo todos os alentos dedicados levo os talismãs o calor deixo o excesso da bagagem deixo voluntária os excessos cá dentro é a conciliação































limiar

(Estou) aqui
nas respeitosas repetições*.
A constrição recai
nos comprometimentos. Olham-se
de soslaio. Fico a penar
na condição do juízo. Caio
no torpor. Animo-me e __________________imponho as mãos à obra.
(são as vulgares formas das travessias)

Agora, um pouco acordada, tenho
o bloco e o lápis físicos,
inicia a nova passagem.

(tenho medo)
_______________________________________respeitosa repetição.

-> La frontera, Lhasa de Sela

* expressão surripiada ao Paulo


Assim dói-me a pele.
Sinto os estalos todos
a estriar nas idades que tive.

É no corpo, dói-me a pele
do corpo atrás.
Não consigo contemplar uma ferida.
O ar passa com o tempo e encrespa-me.

Temo.
Se uma criatura me tocar, brotará algo?


















ilustração de Cláudia Santos Silva aka blue :)

aviso à navegação


Este blog estará inactivo temporariamente para obras, entretanto vou estando por ali e por ali

Olá :)

ah! Deixo-vos esta photo que me tem povoado

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photo de Hyeyoung Kim, que encontrei via Alex
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respondendo à blue: ainda não ;)

the birthday party remains

Nada mudou. Continuamos a gozar os sabores da terra e acabamos sempre adormecidos com as pernas escancaradas e o certo frio na pele. Frio humedecido pela maresia.
Esta noite tresanda a canela. Deixei o pau de canela na água quente que fez o chá e agora não me apetece levantar da cama para afastar a chaleira.
Parece que a minha indolência é mais forte do que a intolerância a esta espécie de intoxicação por canela.
Amanhã não poderei acusar a casa de emanar cheiros estranhos.
Quero estar aqui. Hoje.


. . .

Não lhe pergunto se fica para amanhã. Nem arrumo os restos da nossa festa.
(continuo e apetece-me sussurrar: Feliz Aniversário. )


. . .

Deixo-me ficar queda para não despertar o resto da noite.
E amanheço.
photo de Kim Winderman
som ->


para ti,
um beijo

"Vacances" [ poème en portugais ]

Não cometerei o embaraço
de contar pelos dedos
o aperto que se me dá
nas maminhas. É verdade.

Por estes dias, saborearei
os gostos da carne.


É a embriaguez dos estéreis,
voluntários do serviço,
à solta na estação estival.

Porém, desengane-se
se pretende criticar.


Aprendiz irrepreensível
da máquina, inebriada,
sou eu, leia o epitáfio
da fotomontagem:
“Infiltrada na consequência
da acomodação da classe, aqui,
numa pausa a degustar.
Merendou, sorveu, defecou.
Gozou dos coitos.
Nunca alcançou as artes.
Devota do sono,
com fé
n'A eternidade.”

















a falta de um poema [ O menosprezo e o brinde à paz. ]

Veio às minhas narinas o cheiro do balcão de mármore limpo da aguardente.
Não gosto do cheiro do pano que o limpou. Enjoo.
Olho para o copo (ou será um cálice? Nunca sei a nomenclatura dos cacaréus de enxoval.). Olho para o copo, os gestos corriqueiros. Inalo o álcool.
Eriçam os pêlos do meu corpo, acabado de engolir mais um. Acendo o cigarro, outro trejeito fútil. Que se lixe, nada de novo.
O que me dana é o garbo destes sítios. Deve de ser genética esta atracção. Bem, daí…
Não sei.
Custa-me um bocado a despedida.
Anseio pela partida.
- Outro, se faz favor.
Olham-me de soslaio. (sou uma carta de fora deste baralho, é mais do que evidente que é excessiva modernice uma mulher a empinar bagaços, ainda por cima encostada ao balcão) Com jeitos de gingão, aceno um brinde.
Há uma prateleira zelosa atrás do balcão exclusivamente dedicada aos ícones religiosos dos donos da taberna. Bonecos de loiça, pequenos folhetos com rezas, orações, súplicas, e preces inscritas e um colar de contas com uma cruz pendurada e o correspondente Salvador espetado. Hoje apetecia-me extravasar.


Não extravaso.


Self-Portrait with Yellow Christ, Paul Gauguin


som->

para ti, bonito

untitled


Sentei-me sobre o meu corpo.
Pretendo atenuar as dores queda.
Não tencionava magoar-te,
o meu corpo, entende, está doente.

Poderia atribuir estes requintes
de malvadez à minha inteligência,
bem sei. Tenho o corpo coberto
de dores e não morro. Sou nada.
Nem a coragem de me escapar agarro.
Nicles.

Poderia fazer muitas coisas, sabe-se.
Não actuo. Nicles. Pudesse andar
nua na rua, despercebida, desacautelada,
seria bem-aventurada.
Sei-o.

Hoje decreto que o meu infortúnio é ter de andar coberta.

Amanhã engendrarei outra verdade.


photos de António Fonseca

livros

Tenho-me encontrado comigo a espaços. Os últimos meses voaram, e eu com eles. Regresso por instantes, mas logo me agito por outras águas. Não cometerei a heresia de dizer que não tenho tido tempo para mim, mas a minha cabeça… não a tenho conseguido agarrar. Vá, não começarei com uma via-sacra de lamentações sobre tempo para ter tempo. O Carlos e o Hugo, chamaram-me à cabine de leitura e eu não me esqueci, aqui estou para juntar dois posts num, sobre leituras…

#1 Lidos - Costumo ter vários livros na mesinha de cabeceira, ultimamente não, tenho uma lista-de-espera de fotocópias espalhadas pela casa e pelo carro. Ando às voltas com o Al Berto, e tenho dado umas rapidinhas com o James Joyce - Retrato do Artista Quando Jovem. Não posso penar sobre o passado recente de parcas-leituras-pelo-puro-prazer, o que (me) interessa é que se avizinham as férias (está quase! está quase!), para o que já tenho The Dying Animal do Roth e 1984 de Orwell, conto também levar comigo a Maria Velho da Costa, o Vila-Matas, o Herberto Hélder e mais Al Berto.

#2 blogs-que-gostarias-de-ver-em-livro, porque tem que ver com as leituras, vou pegar nesta corrente e desabafar para aqui as minhas fantasias bloguísticas. Um blog é um blog é um blog, mas, sim, há alguns que gostaria de ver em livro (ou pelo menos partes) e são eles:
Sob(re) a Pálpebra da Página, pela beleza não só da escrita de que gosto muito, mas todo o arranjo com as imagens e porque aprendo sempre alguma coisa neste blog, só faria sentido (t)lê-lo em livro.
Gostaria de ter um livro das ilustrações da Cláudia e uma edição impressa das fotografias da Sandra.
Um dia sei que terei um livro da poesia da Maria e um livro da poesia do , e um de contos do Paulo. Bem, do António, já podemos ter livros, mas este diário propriamente dito também não ficava nada mal em livro.
Ter sempre estas personagens todas à mão também era muito bem pensado.
Outro blog que eu queria muito ter em livro era o ser mutante porque o safado do Carlos anda sempre numa de apaga e refaz (quer dizer, já nem lhe toca há não-sei-quantos-meses... ), assim eu tinha o livro guardadinho em casa e ele não podia apagá-lo
Pronto, porque acho que o conteúdo de qualquer destes blogs estaria à altura do papel e também pela possibilidade de um dia deixar de ter acesso a estes mesmos blogs (e a muitos outros), gostaria de os ter em livro... com direito a autógrafo, claro!

[ este trilho ]

Usas os olhos a desviar os teus sentimentos doutras dores. Eu sei. Sou e penso que sei. As tuas mágoas estão requintadas, quase não se parecem. Enfeitámos tudo de maneira a que o olhar, desviado e agora apático, usufrua de bem-estar. Fingir não foi má ideia. Assim chegámos ao olvidar completo. Podemos, mas não carecemos de dizer adeus.



photo de Sandra Ferrás

Imaginem aqui uma foto azul com brisa. O colo. 'Muitos' braços e sono. Sol na pele. Bom fim-de-semana, gente. J

começar

o dia com os meus blogs: ele voltou! :)
Naoki Mitsuse

[ cruel fantasia ]

Estava tudo turvo. Quando pus um pé no chão, caí. Tropecei no meu cabelo, demorei ainda algum tempo a desembaraçar-me do emaranhado pernas-cabelo. Seria complicado levantar-me para percorrer os 2 m até à casa de banho, gatinhei. Trepei a sanita, descansei. Foi um acordar difícil. Sentada, respirei fundo e retomei o amanhecer.
Na verdade, não é complicado se nos concentrarmos, retomar para corrigir. Remediar. Como sempre, havia gente à minha espera, reagi. Agarrei as pernas com força, os dedos ficaram vincados. A pele estranhamente grossa, espessa, as minhas pernas. Coiro. Palpei os braços, flácidos. Não me olhei ao espelho, evidentemente. Exercitei os braços, não para a flacidez mas para esta danada dor que grela nos ombros. Continuei, sem querer aperceber-me dos meus pensamentos. Continuei automática a toda a força. Já sabia que não resultaria. Não dei pelas restantes tarefas: xixi, duche, lavar dentes, cremes, cabelo (como não dei por essa tarefa tão infrutífera?!), escolher roupa, vestir roupa, cereais, gato, comida do gato, água do gato, arrumar a pasta, escolher cd’s, dizer-vos “bom-dia” e “até logo”, e mais algumas palavras, gestos, beijos. Não estavam, bem sei.
O que não sabem é que vos desejo os bons-dias, todos os dias, antes de dar as 3 voltas à chave da porta da nossa casa. Todos os dias vos imagino a sorrir-me lá de dentro quando vou embora com o meu corpo. E eu a sorrir.
Todos os dias vou embora porque pus gente à minha espera neste imbróglio que é a minha lida.
Afinal, hoje não há gente à espera. Vou embora. Hoje vou buscar-vos.

[ a agarrar imagens sem complicações ]

Estou aqui, quieta, a ver se não foge a imagem. Escrevo esta imagem. Estou quieta.
Na casa da praia. Acordei sozinha, devagar. E ainda não articulei palavras. Vesti a camisola por cima da camisa de dormir. Calcei meias grossas. Senti a humidade que não me agrediu. Passei pelo túnel que liga as partes da casa, onde as janelas já haviam sido escancaradas. O cheiro do mar vindo das janelas do lado direito do túnel. O cheiro do pinho vindo das janelas do lado esquerdo do túnel. Chegada à cozinha, encheu-se-me o peito de mais contentamento: o cheiro do café. Fizeste café. Pude abraçar-me às tuas costas a ouvir-te enquanto barravas as torradas com manteiga. Não comi. Trouxe o café para o terraço, onde estou agora. O gato veio atrás de mim e dorme outro sono. Saíste sem me dizer onde vais, onde foste.
Comecei a escrever e parei, num ímpeto a necessidade: deter-me.
Estou quieta a ouvir a música que deixaste a tocar sem me dizeres onde ias. (a ver se não foge a imagem) Acordei sozinha, devagar, e não me pediste palavras. Gosto de ti.

formalidades

Numa troca de e-mails profissionais, apeteceu-me tanto (mesmo muito) digitar um :)
Não digitei.

bom-dia

Não é de animo leve que aceito as limitações da minha genica.

ilustração de Cláudia Santos Silva aka blue





Dizer a verdade: uma vez por mês, é muito complicado ser mulher.
Surpreende-me a forma como hoje apanho segundos espaçados que me facilitam ar.
Que o nosso pecado seja o excesso de zelo. Engulo em seco.
É a esta hora que me irrito especialmente se me interromperem a meio de uma explicação, sou clara, digo "Deixe-me acabar. " e digo " Porfavor.".
Meia hora mais tarde penso, sem verbalizar, "não é fácil". Dez minutos depois confirmo.

[ hierarquia das sensações ]

O fresco da manhã hoje estava mais seco. Dormi mais de três horas completas, sinto o descanso. Compus o roteiro do dia, planeei fingir tudo até à exaustão. Espero aguentar-me à bronca.
Não tencionava auxiliar pessoas a fazer bochechos com elixir diluído.
Já seria tempo de exercer o direito ao pequeno-almoço sem insurreição no estômago.
Passaram duas horas e dez minutos, abre-se um intervalo. Uma coisa absurda. Escrevo com um intuito bem claro: alcançar um pouco do que reste do fresco da manhã. Como não resta, componho o substituto com palavras.
Sinto as articulações a descoserem-se. Esta é a sensação-mor da manhã.
Possivelmente serei a única a quem conseguirei fingir com êxito, mas isso não me intimida. Dormi mais de três horas completas, sinto o descanso.

[ a flor dos olhos e perceptibilidade(s) ]

Talvez se me surgisse um choro desalmado nos olhos.
Poderia descansar abafada numa almofada, ou nas mãos a esconder o rosto.
Não suporto a sobrevivência que a luz comporta disfarçadamente, como se não existam revés.
Se olho para trás a abraçar as horas que faltam ao que não consegui rematar, preciso de muita verdade para respirar. Se penso nas verdades, quero bani-las.
Tenho saudades da generosidade do fresco desta manhã que passou nos meus braços. Sabia, ao senti-lo, que seria breve. Foi. Acabado o fresco, iniciei a recolha de trouxas de narrações que se enfiaram na pele a esmorecer-me os olhos.
Acarreto a inconsciência de não ser da mesma altura das narrações. Decepciono. Enfado tudo. Talvez se me surgisse um choro desalmado nos olhos...
(Poderia descansar abafada numa almofada?)
Entendam, fui uma esponja, não poderia aparecer lúcida.

ouvidos/nariz/garganta//face [ mímica simpática e parassimpática, não-apática ]


Avaliei o que sobrou de voz. Percebi peva.
O único dado exacto é o da sequidão. Engoli água nas várias consistências possíveis. E temperaturas.
Estimo que se tenha afugentado qualquer vibração da minha fala.
Procurei ajuda, tratamentos. Para o(s) tratamento(s), cuidei saber primeiro de que se trata a maleita. (Que é assim a ordem das coisas, pensei.) Não é que goste de andar a entreter-me aos diagnósticos, mas finalmente lá consultei um clínico que ficou a olhar-me boquiaberto, com uma expressão de estranheza, não posso dizer “estarrecido” ou “maravilhado”, no entanto, a reacção dele… diria que me pareceu que o clínico ficou “atónito no bom sentido”. Enfim, um embaraço, pois nem por isso me resolveu a questão, mandou-me tomar aspirina e espirrar sob o efeito de Melaleuca alternifolia 3x/dia. Tea-tree. Sem marcação de próximas consultas.
A inalação de vapores com tea-tree deu azo a uma reacção, de facto. Espirrei. Melaleuca alternifolia. O nome não me sai da cabeça e a fala trambolha se o tento pronunciar. Melaleuca alternifolia. Queima-me a boca. Queima. Agora também o uso nos dedos dos pés, mais precisamente nas unhas. Está a parecer-me que irão atingir alguma boniteza. Mas continuo sem perceber o que fazer da voz. Abro a boca e logo oiço sopros. Ninguém teve ainda coragem de me dizer, porém estou certa de que ando incompreensível. Enfim.
A enciclopédia médica que tenho aqui diz-me pouco sobre sussurros e sopros na voz. (Por falar nisso, tenho de actualizar a subscrição da Reader’s Digest.) Começa a cansar-me este não-mutismo-soprado-mas-fluente que a início parecia ter a sua graça. Treino a articulação verbal-oral de Melaleuca alternifolia, várias vezes ao dia. E algo cheira-me a irreversibilidade. Custa-me. Presumo que sentirei solidão.
photo de Rachel Combs-Gullick, dali

[ é assim mesmo que as gentes gostam de ver os cartazes da cidade ]

A vida dos outros de Florian Henckel
O Caimão de Nanni Moretti
Climas de Nuri Bilge Ceylan
A Maldição da Flor Dourada de Zhang Yimou
Inland Empire de David Lynch
Still Life – Natureza Morta de Jia Zhang Ke
A Nuvem de Gregor Schnitzler
20, 13 – Purgatório de Joaquim Leitão

[ distracção ]


Não me sai da boca o sabor agoniado de secreções velhas. É um nojo, bem sei. Não me sai da boca esse danado. Uns disseram-me que falasse para que muito ar passasse nas cavidades a espairecê-las. Outros aconselharam-me silêncio. Já afastei as pessoas para que não tenha de ver os esgares face ao meu bafo. Tenho a casa de banho repleta dos mais revolucionários elixires. Deixei e retomei o fumo, tentei cachimbo, cigarrilha e charuto. Vomitei. Regurgitei. Nada venceu o escarro. Para as cavidades mais estreitas, trago uma bolsa de cotonetes comigo. E um saco de toalhetes. Outro saco para os sujos. São cada vez mais os metros que me distam de outros seres. O telemóvel interrompe tempos-a-tempos a rede, suspeito que sejam efeitos do vapor acre-doce. De nada vale esticar mãos, não tento. Nem ler poemas com as solicitações “ouve-me” ou “toca-me”. Não. Uma espécie de morte nesta vida. Tem sido assim. Tudo em volta do fedor da boca. Hoje, o espanto. Recebi uma carta, uma ordem de despejo. Motivo: a inquilina deixa o átrio e escadas do prédio alagados de sangue à sua passagem. Corri, quer dizer, iniciei uma corrida que interrompi de imediato para verificar que, de facto, ando a deixar um rasto. Percebi, então, a função distractora do fedor da minha boca.



photo de Elena Getzieh, (dali) proposta da lebre :)

a falta de um poema [ lacuna na maturação ]

# um dia destes, um dia, procuro um psi,
quando me perguntar
“Então, e ao que vem?”
respondo

“Por favor, ensine-me
estratagemas para ficar
menos vezes triste e mais vezes zangada.”

Planeio esse dia,imagino o cenário.
Um bar ao fundo da rua
quando sair, após os conselhos,


sentar-me-ei ao balcão desse bar
que inventei.

Virão copos destilados.
Na companhia desses copos
magicarei armas.





“Le genie de l'espece“ (1938), Wolfgang Paalen



edit: cerca de 5 min após tê-lo escrito e afixado, vou dar com este post, diacho!, pensei
nota esclarecedora (que quero esclarecer): os factos não são coincidentes, são as pessoas, somos nós, fazemos-me exclamar "que diacho de coisa tão estranhamente"
DAMN IT!
ora digam-me lá bócêzes, colegas bloggers, se também estão a ter problemas na atribuição de título aos posts...
um exagero, é o que é

as galerias da Salamandrine aka dolphin.s aka Sandra Ferrás* estão bonitas que é um exagero!
Não se deixem ir daqui sem passar
ali ou ali, depois quero ver se não me dão razão!


* para não te baralhares mais, 'nina-limão :P

pois, lá está... esta photo também é dela ... pfff

aos mais distraídos/ alheados/ ausentes/ desatentos/ ocupados/ etc.

... não percam o que se anda por aí a falar pelas costas.

não vos deixo a papinha toda feita, mas vá lá, ok, cliquem aqui,
entre outras, também podem fazer busca directa nos blogs womenage a trois, os putos ou arrastão que foi adonde fui dar de caras com esta cruzada pelos cus.


photo de Jan Saudek

p.s. é sempre muito difícil escolher uma photo do Saudek

o glooka tem um blog novo, com uma moça chamada punklette

... parece que querem mostrar algumas das coisas que andam a fazer no âmbito do character design e da street art, bem como outros objectos artísticos que contribuam para o seu vil domínio do mundo :)

[ver/ouvir/falar] sequela dolorosa

Está a olhar para a fotografia à mão e a engolir a solidão toda. Escreve a imagem com a mão que se amassou de lodo no afogamento. Agarra a força com muita. E comove-se até engasgar disto tudo. Isto tudo aparece ao lado da ideia: demais.
A ideia de que isto é tudo e que isto tudo é demais colou-se na pele e distrai-lhe o ser numa dor.
Que chama
um pranto.
Que teima em não
suceder.

Será isto - tudo? Será este tudo - demais? Não. É um instante.
(Sôfregos são muitos os dias e fantoches nós nas nossas mãos de lodo.) Ao cobertor, junta as peças do final da hora. É o cobertor. Velho. De sua posse.

Calor.

São os olhos a arder das expressões. Não é cegueira. Repete: são os olhos a arder das palavras sentidas.
Não é surdez-mudez. Nem a ausência de vogais, nem a ausência de consoantes.
Que seja a retirada em palavras.
Oxalá haja uma evasão.
(Há. Existe.)

Subterfúgios.
(Se dizemos surdo, dizemos bem. Se dizemos mudo, dizemos bem.
Poucas são as probabilidades de dizermos, de uma vez bem dita, surdo-mudo. Há, mas nunca vi. Em muitos, alguns anos, nunca vi.) E, quando é cega é-o apenas por momentos selectivos, portanto, a probabilidade de lhe ter surgido um surdo-mudo durante alguma das suas cegueiras momentâneas é, ela também, diminuta.
Há azares, dirão. Que isto tudo que pode ser demais tem as suas coisas do acaso e a quem sorteada calhe a surdez pode ser abanada também uma mudez. Pois há. (E eu vi.) (Eu já vi. E a mim não calha um prémio por ter visto, que seria de morbidez isto, demais. Expressamo-nos assim confusos de ouvir mal a mudez. Expresso-me assim confusa de ouvir mal a mudez.)

Está a olhar dentro da água. Onde nunca conseguiu abrir os olhos. E engoliu muita.
Cicatriza lâminas de que se trespassou. Com prejuízo de outros. E arroja culpas. E arroja medos.
Passa devagar a tentar desperceber-se. Estranha. Esquiva. Vem de olhar dentro da água e estranhou os trespasses de lâmina, os falsos trespasses. Atravessa a tentar escapar a mais algumas assumpções. E atravessa.
Descansa um pouco inerte.
Retoma a lembrar a surdez-mudez, que é tão rara. Trespassa a ideia. Nauseia.
Insignificante vibração a que sai do grunhido acabado de nascer em si. Sem lhe pedir, fica.
Tão rapidamente. Volta a descansar. Salta.
Baixa. Abaixa-se e resta enfim no pranto tardio. Abaixa-se a descansar entre águas. Assim, o silêncio ocupa o lugar merecido.


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33.

IMENSO
a certeza
tu, que és.


mesmo que às vezes me sinta
fatigada como se fosse em fragmentos – dispersados - levados -
por uma ventania qualquer ou uma brisa
porque na imensidão que dizes que sou
alguns pedaços são
SIM
leves e levados
alguns –
pois
– não todos
encontro raízes e ramos com o teu nome timbrado
(a lê-lo na minha pele)

ao teu nome que cheira à minha volta
a tua presença a ser a certeza clara
tu.

a quem afecto
estar assim
tão perto.