sandra aka margarete ~ acknowledgeyourself@gmail.com

[ malquerença ]

Tragam-me um espelho de olhar erguido.
Anunciem boas novas de lá
(pretérito perfeito)
Digam da extinção,
badalem a notícia!
Façam coisas.


Ordeno a realização
de actos
É a figura de estímulo
Para a resposta
que preparo:
Aviar os últimos
Desígnios do passado
Marcas de repulsa.


Soprem-me uma porção de inocência.

[ darling ] [ ]


Dos mil, arrumo dois ou três
Assuntos pendentes

Tu
No espaço
Olvidas a ideia do tempo


Adormece
Que eu vou ali
Atirar os erros
Ao desprezo
Vou ali arremessar erros íntimos
Para prescrever a minha discussão
E condescender com a ambivalência
de ser eu. Enquanto tu velas aí
No teu sono justo.


raining in darling, Bonnie Prince Billy

[ sem cabelos arrepelados] [ na busca do talento que me auxilie nesta manifestação ]

A proximidade deste período com os seus antecedentes é estonteante. Pela vertigem que se faz sentir, diria que há sequências centrífugas e centrípetas que estão a certificar a capacidade molecular do caleidoscópio - que funciona conforme a celeridade das sinapses (atenção que a ligeireza das sinapses não pode ser associada proporcionalmente às propriedades do raciocínio posteriormente formulado). Não houvera preconceitos e talvez se pudesse estabelecer uma relação à proporção directa, mas não pode. O ambiente do caleidoscópio, que está em fase de ser patenteado, tem uma densidade de substâncias gasosas que se apresentam em ponto de solidificação (a patente deste caleidoscópio serve somente para assinalar a transformação presente de forma figurativa). A transformação presente é o assunto efectivo desta descrição e importa referir que não importa para o assunto a lei das perdas, pois o princípio, este princípio, não valida condições de posse. Assim, movimenta-se o pensamento. É.
Embora se possa assemelhar a tal, este não é um discurso técnico. Sabe-se por aqui que os níveis das ignorâncias são elevados.
O assunto é baseado nos factos verídicos do desatino que se faz sentir quando se fecha o olhar x unidades de tempo para espreitar z vezes e tudo aparecer intermitentemente a tons prateados e de matéria acrílica.
Na verdade, hoje busco um talento que me ajude a representar a doidice passageira.
Se eu não andasse munida de preconceitos não utilizaria nomenclaturas como doidice nem me preocuparia com justificações sobre a sua longevidade.
Kristin Baker, Ride the Lightning
Ride the Lightning, Kristin Baker

[ aerius ]




























atchIm

[ tea time ordinary thoughts ]

# O mundo encolhe e o mundo estica. A minha mente asneia e permite uma corja de desordens que me dista da pigmentação anilada. Este estadio mental é responsável pela apneia que manifesto. Por seriações desconexas o bulbo incha. Assim, a cabeça como um edema de características homogéneas, características atipicamente homogéneas.

#
Desaprendo e detenho-me néscia sem saber o que fazer acerca do muro (é de cor anil e tem buracos), vacilo, olho, sei que há um provérbio sobre muros e a dicotomia entre força e sabedoria, lembro-me de qualquer coisa acerca do corolário desse provérbio que refere o modo de coexistir com os muros - as acções galgar e furar.

#
Confesso a irritação com sentenças e manuais de vida. Ditados de princípios básicos de existência para padrões de dignidade, sabedoria, gozo, poder, e outros empreendimentos que tais. Que o mundo é grande e que o mundo é pequeno. Viver hoje como se amanhã fosse um último dia, ou antes, viver hoje como se hoje seja o último dia. E que a busca da sabedoria deve condizer com uma ilusão de eternidade. Que o urbano é diferente do rural e que o rural é melhor ou que o urbano é que é. Que a anarquia não serve e um deus também não. Atira-se a primeira pedra a lembrar ensinamentos sobre a mesma.

#
E nesses dias em que tudo vem em catadupa e nesses todos os dias como este em que escrever é um mero acto, só mesmo um acto, talvez apenas um automatismo que nem é aferido na morfo-sintaxe (sem contar com semântica e pragmática). E nestes dias pequenas missões - que lhes chamo missões porque não são vocação nem destino e não respeito estigmas que neguem o conceito missionário - são resultados de opções e as opções são isso só isso, e as opções respeitam-se e conjuntamente se arcam.

#
Dizia, nestes dias cumprem-se pequenas missões, cumpro as missões quotidianas e surgem-me flashes dos pequenos gestos e congemino sobre um gesto, ou dois, que sejam universais e penso numa chávena de chá. Quem diz chávena pode dizer malga ou caneca ou copo ou outros recipientes. Penso no chá e no acto de o sorver ou antes disso no acto de o preparar (e começo a pensar sem pontuação entre pontos finais). O acto de fazer chá não por ser uma moda que nem sei se está na moda pois essa apreensão é uma tontice claro que o chá é só isso essa substância admirável penso no acto da sua preparação e no acto da sua ingestão que é um acto de certa forma moroso pois a temperatura deverá aproximar-se do tolerável pela nossa cavidade oral e são actos tão feitos por nós homens e é bonito.

#
Quantas pessoas terão fotos de instantes nesse ritual? Quantos de nós teremos sido captados com uma chávena na mão e um esgar a condizer com a circunstância simpática?

# Num estado um pouco trágico deliro e imagino alguém com uma foto sua na mão. Naturalmente com a possibilidade de lacrimejar.

#
Não é uma novidade nem vai acabar esta fragilidade da miscelânea de sentir entre desalento e zanga. A minha mente entra em cismas sobre fotografias privadas da população com chávenas de chá na mão, e fica atipicamente heterogénea.

#
Estaciona-se real no corpo a impotência. Esmoreço nesta debilidade e acordo mais tarde afortunada nos braços sólidos.

#
Arrumo um pouco o corpo e discordo sobre o exagero na nudez. Percebo uma certa tendência deste dia para a contradição, mas sou recordada pelos braços sólidos da legitimidade para regressar.

#
Regresso.

[ à minha mesa, uma toalha branca com migalhas ] [ o gosto de acudir aos apetites ]

Destes fogões. Quero sempre destes fogões nesta cozinha sem design e sem o aparato das tradições, é a minha cozinha. Ser a minha cozinha sem design e sem aparatos outros não é um factor de tipo somente. É a minha cozinha. Ah!, suspirei, na memória de receitas fazendo as devidas associações: lasagna para os sobrinhos mais velhos; canja e massinhas em forma de estrumpfes com bolonhesa para as pequenas; feijoada para os amigos; cozido à moda antiga para os pais (sem esquecer o bolo de chocolate pela tarde fora); sopa de peixe para a mana; sopa de aipo, maçã assada, brunch com todos aos Domingos e feriados, arroz de tamboril, para ti, e meia-dúzia de camarões fritos; destes fogões! Não escaparia daqui a debitar as associações. Os dias sabem bem, o Outono sou eu a saborear os pedidos à minha mesa. Ser a tia maggie, mags ou sandra, sandy e peninha e babe. Penduro um calendário com pintainhos na parede e rasuro Domingos e feriados com nomes e ementas. Não peregrino acerca da real possibilidade da mesa posta para os convidados nesses dias. A cozinha fica mais habitada e é quanto me basta.

Bom-dia

Esta que vêem na fotografia sou eu, achei por bem colocá-la já que neste post tenho de dizer coisas sobre mim - a continuação de uma corrente que me passou a minha amiga lebre, que sabe um montão de coisas sobre mim. Vejo pessoas classificar este como sendo um weblog-pessoal, nem sei, talvez seja isso. Assim sendo há aqui 1111 (é verdade!) posts ou seja, 1111 coisas sobre mim. Aqui e ali, por exemplo.
Ontem, não sabia dizer as coisas sobre mim, fiz o post-resposta e afixei e apaguei, há dias assim.
Posso dizer que na maior parte dos dias este é o meu mood, e esses são dias bons. Hoje é um dia bom. Outra coisa: gosto muito desta canção, faz-me sorrir muito e querer rodopiar.
Gosto do meu pai e da minha mãe, ensinaram-me os afectos sadios e esta é uma das coisas mais importantes sobre mim – o respeito pelos afectos sadios - e estou a dizê-la num blog que é outra coisa sobre mim: gosto de blogs. Tentar dizer destas coisas é estranho enquanto tarefa, isso faz-me sentir inesperadamente bem, o conforto de saber que não há nada a acrescentar que seja novidade. Como disse o Rui Costa (algures numa caixa de comentários): sou como a miss Universo, quero que as crianças não passem fome, que haja paz no mundo, essas coisas assim. Bom-dia. :)


Passo a outros e não ao mesmo: menina-alice, Carlos, insones e Pedro, vá! não ralhem comigo, hoje não me apetece ser ovelha ranhosa e cortar a cena da corrente.



i like birds, eels

[ das minhas vísceras e os vários recipientes ]

Carolee Schneemann ver.1a [(Detail) Timeline paintings], Ward Shelley
Sinto uma espécie de gratidão por me ter calhado uma função que exige um gabinete encerrado à sonoridade exterior, foi talvez um golpe de sorte nesse dia em que segui para exercer esta função, nem me passou pela cabeça se seria à porta fechada. Assim é. Calhou-me uma lida que ora é à porta fechada ora entra pelas casas familiares adentro. Esta sala que tem uma porta que fecha e deixa que me feche cá dentro para os intervalos da sanidade mental. Esta sala é mais uma caverna. Tenho uma série de cavernas.
n cavernas. O meu automóvel, por exemplo, é uma caverna muito importante. E ambulante. A minha casa é uma caverna com cavernas. O meu quarto é uma caverna dentro doutra caverna e também tem cavernas. Às vezes, a minha roupa é uma caverna. Outras vezes, a minha nudez é uma caverna. Ninguém sabe, mas eu posso revelar, digamos que ninguém sabe porque talvez nunca se tenham debruçado sobre o assunto pois tenho a certeza de que se alguém tivesse quedado uns minutos para discorrer perceberia imediatamente que o 7º andar é só uma ilusão porque, na verdade, é um covil subterrâneo.
Há dias em que é um bocado complicado usufruir das cavernas - acontece que não sou pequena e como disse, consoante os dias, há risco de ficar encravada nas entradas, ou nas saídas. Já aconteceu ficar enrascada, foi chato, mas já passou. Sou plenamente consciente do risco de voltar a acontecer, da lei das probabilidades. Não vale a pena arriscar o conceito phobia porque não estou interessada em dar nome às coisas que me guardam. Nem medo. Hoje de manhã percebi que vou escavar uma gruta no teu corpo.

[ amor ódio ] [ querer amar com as mãos. nas mãos todas ]









[ a minha idade o meu violão, rock'N'roll e tudo - poema, bicicleta, poeta e mão ] [ a paciente brutalidade da Primavera no Outono ]

Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atraves-
sado pelo movimento.
É a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro de poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.

Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.

Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.

São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos - poema, bicicleta, poeta e mão -
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.

Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
A própria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.

Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores ou bichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.

Mexo a boca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.


Narração de um homem em maio
Herberto Helder


ziggy stardust, David Bowie

n'A Natureza do Mal

# 1 ele

# 2 Quer então parar o desfile absurdo que o cérebro teima em convocar.

[ prova dos prejuízos – ao ser é retirado tecido mole (3 peitos passam para a entidade paralela do ser), calcule as unidades de abalo auferidas ]

Cogito. A data paralela não lacera. (aos vinte e oito dias deste mês). Este dia não trilha a visão. Debruço-me sobre os danos e experimento um modo de impunidade – às circunstâncias, cada indulgência tem o peso e volume que a antiguidade permite*. Certas circunstâncias nunca, neste tempo todo que é o infinito presente, poderão ser olvidadas. Só assim, permitindo-lhes o espaço sem cálculos de cabra-cega, a coexistência se poderá assemelhar a certa pacificidade.
Isto é aritmética primitiva: xanos - 3 peitos / yantiguidade = conciliação[permissão para abalos(coexistência pacífica)]



cálculo auxiliar: dispensa do preciosismo da prova dos nove *

r u m o [ nuvens em tons de cinza em tons de azul ]

Dizes vem e eu respondo vamos. Vimos e esse é um.
r u m o.

r u m o [ azul em tons de cinza ]

Os dias podem ficar vazios e então morrem os motes. Qualquer coisa pode parecer mortal e então corre-se para casa. Um som pode ultrapassar o limiar do conforto e então solicita-se silêncio. As aparências são o resultado do que germina cá dentro, aí dentro. Ontem a cidade parecia viva. A cidade estava bonita. As pessoas foram-me atraentes, ontem. Hoje, não dei pela cidade, atravessei-a mas não posso assegurar que ainda exista, talvez até seja despovoada. Oiço, ao longe, automóveis que poderiam ser reflexos da televisão ligada, se estivesse ligada. Parece que circulam, detenho-me num ápice (o mínimo possível de mim) e divago sobre onde irão. Depois, lembro-me que às vezes também eu vou. Às vezes, também eu penso que vou a algum lado.
.............R u m o. São curtas, e espero que inofensivas, confusões.





bird on the wire, Leonard Cohen

happy birthday...

[ kingdom of rain ]


Neblina. Abriu-se toda.
Aquela densidade, a sua consequência, proclamada oferenda. Procedimento: uma inalação, única, profunda. A troca de oxigénio, por água, abre tudo. Os rasgos disformes de corpo são decerto dolorosos, mas não se acha dor na sua fisionomia. A neblina, hoje é só a neblina, sem sombras (nem os vultos) e sem bastidor traz-lhe bonança.

[ it would be no more blood and no more pain ]


Na neblina. Na aragem húmida, abriu-se alagadiça. Dilatou as ventas.
(- A troca de oxigénio, por água abre-se tudo.)
Cingiu os tecidos que pingavam e envolveu-se de pujança restaurando o que o choro viera descobrir. Acertou as trocas gasosas e à celeridade cadenciada aprumou o feitio. Bravia seguiu.



kingdom of rain, The The

[ polpa ]

que a queda obedeça ao seu ritmo. a humidade faz parte. este é o privilégio do Outono que eu agarro. agrupo palavras: queda-débito-humidade-solar; silêncio-dias-chuva-monumento-silencio; azul-azul-azul; romã-boca-polpa; casa-pedra-sono; chuva-domingo-sabor; água-elemento-essencial; ramo-raíz-elemento; essencial-aguaceiro-polpa.

freeze! say 'cheese'!

[ assim inaugurou aquele que será o seu último Outono ]


Quando deu por si, já estava no exterior do edifício onde o bom doutor pratica a medicina, voltou atrás para se certificar de que pagara a consulta e respectivos exames. De novo no exterior, cumpriu o gesto habitual – a contemplação da fachada Arte Nova do edifício. Tirou da mala o bloco de esboços -A5 e um lápis (macio e escuro, muito). Deixou que o dia anoitecesse. O dia do decreto do fim da minha capacidade fisiológica, pensou. Sorriu sarcasticamente, quase como quem se quer magoar a si próprio. Amanhã vou à papelaria comprar uma caixa enorme de lápis de cor, decidiu. O seu escárnio nunca durava mais do que cerca de 5 ou 10 minutos. Ainda se lembrou que se desse demasiada importância à vida a sua mente já se concentraria nos pormenores a não descurar. Más novas, recebera más novas. Sabia da naturalidade de não se sentir desesperada. Durante o caminho de volta à vila, dedicou-se à condução e às sombras amarelo-torrado das árvores. Foi um grande suspiro que libertou quando fechou, por dentro, a porta de casa. Olhou à sua volta e deu passos ao mesmo tempo que despia do seu corpo, robusto mas findo, pedaços do traje de ir à cidade grande. A única coisa que continuava a intrigá-la era a solidão, há muito que se resignara mas nunca conseguira compreender. A tentativa de entendimento da solidão fora o grande objectivo, e simultaneamente distúrbio, da sua existência. Isto aconteceu em absoluto silêncio.

[ happy birthday mom, lov'ya ]


Bolo de chocolate. Mousse de chocolate. Frango panado com puré de batata e salada de endívias. Pudim flan. Pizza. Gnocchi. Gelatina de morango. Leite com chocolate. Sumo de maçã. Canja. Sopa de letras. Bolinhos de limão. Sandes de queijo da ilha. Chá com leite. Os lençóis amarelos, fofinhos. O biberão escondido até aos 6 anos e a enurese protegida dos olhares alheios. A boneca Maria Rita. Os cestos de pic-nic. As bolachas de chocolate com pepitas, embebidas em leite frio. As surpresas – bonecas novas escondidas entre os lençóis. O resto da sandes de atum que levava para a fábrica. Uma sandes para o almoço e conseguia guardar um restinho porque sabia que eu lhe ia vasculhar a mala ao fim do dia à procura daquele pedaço de alimento que teria o sabor do mundo todo em ternura. Diz, durante a minha vida toda, que está lá, aqui. (e tenho menos medo). É da razão essa segurança, chegaram dias e estou aqui, que não tenha medo. (e eu sei que assim tem menos medo). Esta mulher sem indícios de pobreza de espírito. Esta mulher que me deixou crescer. Quer uma caixa de chocolates. E esse pedido é honesto, não há dissimulação de outras aspirações quando nos revela o que deseja para este aniversário. Esta mulher é a minha mãe. Comovo-me ao dizer esta mulher é a minha mãe.

[ a casa que é ]

Era a casa e tudo o que a casa era. As paredes caiadas e a cal e os panos que a enfeitavam, na verdade, os panos que enfeitavam a casa que nos enfeitava os dias. E as noites acesas pelas luzes da casa, as paredes. A casa e os quadros às janelas. As janelas de cima com quadros verdes e azuis de céu, as janelas de baixo com os girassóis a fazer de vizinhos. A escada de barro e cera. E o corrimão da escada, a ferro, forte, verde pinheiro, manso. A casa era portuguesa de portugueses que andaram pelo mundo, por isso, a casa era portuguesa com sinais dos portugueses pelo mundo. A casa é uma expressão bonita. Esta expressão da casa é quente porque assim o era a casa, um calorífero. Nunca esqueceremos os dias a pintar e a tirar as danadas das ervas. Fizemos sempre questão de não retirar todas as danadas, para uma presença simbólica. Ateus politeístas, não cultivámos os objectos, mas amámos cada um. Podia contar-vos tantas histórias do passado desta casa, tantas! Agora, há momentos, olhei as paredes (depois de ter desligado a luz, estou prestes a subir) e imaginei, noutro pretérito, como será quando eu for passado nesta casa.


[ close my eyes & t r u s t ]

Quero percorrer mais paisagens e não quero ter de responder. Olhando em redor, parece-me haver pequenas autonomias. Falo da descontracção e é verdade que puxo por mais um cigarro e, mesmo que me volte a servir de mais whisky, não há desassossego nestes gestos. São tão humanos quanto a alforria que tenho para percorrer sem ter de responder. Estou aqui e não sei explicar a tão falada noite. (não sei). Por estes dias, prefiro ouvir o mar a negar entradas à suavidade do céu que paira. Alguma brutalidade, força, e sei: preciso de sentir a robustez externa. Deixo espaço necessário às sombras, conscientemente. Naquela característica que me parece ser, aprecio a actividade de ficar a velar o que permanece, que é o que serve de fonte. Assusto-me a estes dias, mas não me assustam cenários naturais tais como o dos ramos que lá fora se misturam com a chama restante deste outro dia que finda. Identifico estas rugas que exibo sem a laia do desgosto, estão quietas. São tão iguais quanto a meia dúzia de cabelos brancos que chegam. A árvore desses ramos é uma laranjeira: ai(!) a minha sede de cor e de forma. E tenho medo a instantes. Talvez seja a palavra errada para o cuidado: reforço o facto de que prefiro a natureza às quimeras.
É fatal a demanda da bestial compreensão, quero-a, mesmo que, a passos, a tarefa não seja cumprida com sucesso. Desconfio que é de onde surgem, a gerações espontâneas, os afectos sadios.
photos #1 #2

[ pela hora da sesta ] [ a manhã é um corpo incompleto * ]

Aproximas-te. Eu proponho: espalhamos folhas vegetais pelo pavimento, todo, disponho o meu corpo em posições enquanto o contornas a tangentes de tinta-da-china. Tu topas. Se, por exemplo, aos primeiros traços, percebermos que esquecêramos de pôr a tocar a banda sonora levanto-me diligente. Regresso ao pavimento com as intenções adulteradas. Corrompo as folhas vegetais, lês na minha imobilidade: a p r o x i m a – t e.
Danae, Gustav Klimt
* retirado do poema do Pedro

[ palavras de sete e quinhentos ]

























p e l e































singing softly to me, Kings of Convenience

[ Deus com todos* ] [ ao redol de mortos à causa da pior invenção da humanidade - a religião ]













pensão de duas estrelas




Braga, 2006

little girl playing by the castle


Guimarães, 2006

little girl day dreaming



Guimarães, 2006

[ such a pretty house and such a pretty garden ] [ silent silent ]




Partiu-se-me o coração (uma forma de estilo porque os corações não partem podem rasgar mas não partem)
Partiu-se-me o coração porque vi uma forma sem estilo não tinha botas ou antes tinha botas mas eram sem sola porque não tinha pés nem pernas não tinha braços nem mãos nem dedos por isso também não tinha nós dos dedos no lugar da barriga havia um buraco era um buraco sem mamas por isso não havia fígado nem estômago o intestino era uma palhinha entre um buraquinho que substituía a boca e outro buraco essa palhinha fazia cair os alimentos no chão os rins não eram rins eram um esboço embrionário por isso essa forma sem estilo fazia diálise e estava em lista de espera à espera mas essa forma sem estilo que tinha um chapéu onde não depositamos 10 cêntimos tinha coração e o coração não pode ser partido mas pode ser rasgado
a palhinha fazia cair os alimentos no chão na verdade fazia cair pão e água no chão porque nós sabemos que é só disso que essa forma de estilo precisa porque nós sabemos nós sabemos disso certamente parece
o coração não pode ser partido mas o coração pode ser rasgado.


no surprises, Radiohead




[ dawn dreaming ] e havia relâmpagos azuis e azuis. e pingos doutras cores


e acordei. e estava coberta com a manta azul, e isso quer dizer que estava muito aconchegada. e o barulho da chuva dava a impressão de que chovia à beira da minha cama. e então eu acordei esta madrugada e não abri os olhos para fingir que chovia ali dentro.
e era mesmo tangente à minha cama





still do anúncio Sony Bravia: Balls

[ action: to take a breath that's true ] [ reaction: and then it's smiles cover your heart ]




Repete inúmeras vezes as palavras
o desfecho é sempre outro.
Tu estás aí
eu sei, os vocábulos mudam de posição
a luz dá-lhes visibilidade.
Contemplo o teu silêncio enquanto permaneces.
Silencio este espaço
amplo
(um armazém à laia de casa
minimalista).

Minimalista...... ambiciono esta emoção
experimentar a honestidade.







fade into you, Mazzy Star

[ as primeiras vezes ] [ everyone goes to the moon ]




Tenho medo, disse, apertando fortemente a mão da mãe ao mesmo tempo que o coração desta abafava. A mãe proferiu as palavras encantadas: não tenhas medo, eu estou aqui. Percorreram as dependências da escolinha, enquanto segurava a lancheira do “indie” the pooh numa mão, a menina ia desatando a força que exercia sobre a mão da mãe. Ao telefone, asseguraram-me “ficou a pintar, tinha o bibe sujo com tintas”. J

vamos ao...



the KIT(s)CHen is the heart of a home

(a qualidade de uma fotografia dentro do afecto que dela se pode retirar)

[ quando fosse grande ]

- E depois?
- Depois? Serias essas coisas todas que te apetecesse ser.
- Era?
- Era. Diz lá uma coisa que gostarias de ser.
- Arquitecta. Conceberia edifícios para instituições… uma biblioteca! E casas, conceberia casas, participaria na concretização de sonhos. E fotógrafa – rostos por encomenda e zonas industriais por impulso – seriam os meus trabalhos. Encenadora de jovens actores em palcos com cheiro a veludo envelhecido. Realizaria curtas-metragens. Seria baixista de uma banda de rock’N’roll. Ou baterista. Atleta de curta distância. Padeira. Cozinheira. Palhaça. Enfermeira. Professora de Matemática. Professora de História. Professora de Língua Portuguesa. Professora de Filosofia. Contadora de histórias. Parteira. Gostaria de ser contadora de histórias, à medida que desenvolvesse cada história, veria as pessoas ir embora de barco como se elas próprias escrevessem cada conclusão. Gostaria de ser parteira de histórias.


[ mulheres e os baptismos ] [ whiskey & cigarettes ] [ mouths full of chocolate-covered cream ]

Preparamo-nos e dos nossos ventres falámos. Chamaste-lhe maternidade e agravei a minha expressão instantânea. O ricochete das palavras não poderá prolongar o seu efeito para além da licença que lhes seja concedida. Retrocedeste o olhar e eu sorri, nem madrasta!, disse-te. A minha gente, pensei. A noite passada foi adiante e não olhámos a meios, continuámos a sermo-nos o exercício de bem-estar. Meninas e moças, assim, mulheres entre nós e os nossos livros, que em nada nos apetece que sejam emancipados das nossas peneiras de trapos e bugigangas, cores-Kahlo em nosso redor. Dissemos as boas-noites com a palavra devida e fiquei a velar, solitária, o resto do serão. Ouvi a música apropriada à ocasião e regalei-me ao perceber que ensaiáramos dar nomes às coisas.

contribuições para este post:
imagem pelas mãos do
Manel, Broadway Bad e música pelas mãos do Carlos

everyone's gone to the moon, Nina Simone

- acknowledgements -

# coisas do arco da velha
# a décima nona canção
# um dos blogs mais bonitos - é preciso estar com atenção, o template muda frequentemente... e qual deles o mais bonito... ?
# Bada bada bada bada bada da...Bada bada bada bada bada da...
# pulsar

[ só tem de exterior a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço *] [ este cálice ]

Os produtos intermédios existem, portanto, esta realidade não é ócio. Não arrisco publicitar um produto final porque não é da morte que escrevo estas palavras. Esta composição nasce da minha vontade que é este desejo imenso de escrever os dias afora nos intervalos disso que não é ócio. Se o corpo permanecesse imóvel, a flacidez seria inanidade, mas o corpo arqueia, responde, recebe e responde-te. Dói-me este braço, e este também. Os cabelos ficam por escovar porque os movimentos são inibidos pela minha opção – prefiro a cabeça desgadelhada ao exercício desta dor que me nasce dos ossos, e, para o agravamento, esta dor ajusta-se a outra que lhe é independente - a dor tónica. Não quero exercitar tolerâncias e limiares, opto por descansar e isso não é uma confiança que ofereço às maleitas. A função que me falha é a que me proporciona uma presença polida mas não há feição a dar a um cabelo que não é esparguete nem caracol, deixo as normas do mundo de lado, imagino que estou a descansar a força que me falta nos galhos e escrevo. As mãos aliam-se para usar a menor genica possível e escrevo. Imagino que agora escrevo tanto quanto aspiro. Quero conversar sobre as indústrias que desejo fotografar e dos ossos e dos dias naquela casa de portas duplas abertas uma após a outra. Desejaria dizer um canto com as aberturas todas das portas daquela casa com girassóis a fazer de vizinhos à janela, em oposição à manifestação-nada-poética sempre-parca-em-literatura que eu possa fazer das salas-de-esperar não-ventiladas, as salas cuja indústria fotografo a cada passagem. Hoje doem-me os braços e há breves momentos durante os quais consigo esquecer.
* Ruy Belo (no post anterior a este)

[ viver e viver sem boca ] [ pintar a fuga do corpo ] [ os nomes - palavras ]

Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui.

Ruy Belo

[ a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer *]

A cianose é o primeiro sinal de ressaca da indústria da escrita. Obceco. O juízo não tolda porém urge a alimentação à base de sopa de letras. A cada passada que dou, são espaços largos. Em contraponto, e para esquivar do trambolhão, redecoro o bêàbá. Pisca a luz vermelha dos cuidados: à medida que evolui o léxico, elaboram-se expressões manipuladas até à exaustão da inteligência. Confirma-se a hipótese intuitiva: os afectos não são instantâneos. Enquanto não são oxigenados os músculos vitais, por entre as pernas escorre o sangue da higiene mensal e penso é por isso que sobrevoam (algures e desfocadas) as aves cobertas de peles de ovelha. A fragilidade não toma proporções estúpidas – é só o susto – respirar passa a ser o acto mais elaborado do ser humano e isso é a natureza. A constituição do corpo do ser transporta destas coisas, é e, cabalmente, aprendeu a dizer “a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”.
And the mercy seat is waiting
And I think my head is burning
And in a way I'm yearning
To be done with all this measuring of proof.

* Stig Dagerman



the mercy Seat, Nick Cave & the Bad Seeds

[ sensualidade afecto silêncio ]

Sede. É fome. Esquivo-me de ser acusada de profanação. Sim, o fim só existe quando a aflição são os olhos, trespassa-se a zona das olheiras com desvios esguios para evitar o olhar. O olhar é quase além do corpo, assim como disse David «(…) de cada vez que o rosto aproximas já é outra sede que nos queima (…)». O cortejo compõe-se e é involuntária a consciência de que estes corpos não são restos de corpo. Germina a procissão fisiológica. O presente é indicativo para que haja tempo. Grito uma pergunta afirmada, firme nos anos que se manifestam - o início da flacidez. O início da flacidez é belo, não se deixem a enganos por burlões da juventude. A mulher aprecia a firmeza das mãos desse homem nas suas carnes da idade. É ternura essa sede dumas mãos por um pedaço fisiologicamente a envelhecer. Estão lado-a-lado os sexos mastigados, a única prova da procissão é a sujidade casta que se vê nos pés do corpo. Silêncio. Sim, descansa em paz o corpo regado a fluídos segregados.


















foto de ff, tomografia das emoções! - música trazida à lembrança por Carlos Veríssimo (na minguante) e apelidada de BSO por Dolphin.s - tema à laia de resposta a escrito tão bonito do Henrique
tema livre como o é o afecto
. . .
versão com links:
Sede. É fome. Esquivo-me de ser acusada de profanação. Sim, o fim só existe quando a aflição são os olhos, trespassa-se a zona das olheiras com desvios esguios para evitar o olhar. O olhar é quase além do corpo, assim como disse David «(…) de cada vez que o rosto aproximas já é outra sede que nos queima (…)». O cortejo compõe-se e é involuntária a consciência de que estes corpos não são restos de corpo. Germina a procissão fisiológica. O presente é indicativo para que haja tempo. Grito uma pergunta afirmada, firme nos anos que se manifestam - o início da flacidez. O início da flacidez é belo, não se deixem a enganos por burlões da juventude. A mulher aprecia a firmeza das mãos desse homem nas suas carnes da idade. É ternura essa sede dumas mãos por um pedaço fisiologicamente a envelhecer. Estão lado-a-lado os sexos mastigados, a única prova da procissão é a sujidade casta que se vê nos pés do corpo. Silêncio. Sim, descansa em paz o corpo regado a fluídos segregados.



silence is sexy, Einsturzende Neubaten

[ lady luck ]

Repito o lusco-fusco sem pretensões destas. Estas pretensões, presumo, identificam-me a qualquer légua. Tudo fica com um aspecto mais elementar e eu tão longe dos outros elementos. Fico a chegar do regresso doutro lugar de onde voltei a partir. Com o cu virado para a lua, repete Maria Rosa, a velha. Mas eu sei, desejaria ter permanecido. Mas eu sei, regresso incessantemente. Todos os cenários foram favoráveis, até os maus. Perdi um planeta. Amanhã visto de preto. Para não perder as tradições. Sei disto: se decidir chegar amanhã, visto de preto. Quero saber da macieza monocromática, para assegurar estas quantas porções de caminhos a sós. Os anos e a idade - my parade. Agora sinto algum peso nos pés, não faz mal: desfiguram as dores lá de fora. Acknowledge them as I drive away slowly, feeling so holy, god knows, I’m feeling alive. Estou aqui, digo, repito, estou aqui. Em água, e continuo caminho, well there's trucks all a-passing me, and the lights are all flashing.


ol'55, Tom Waits

[ por estes dias ou um dia qualquer ] [ o meu rosto a querer sentir-se inexprimido ]

Estes são os nossos rostos. Num dia qualquer, uma dor de barriga leva o teu médico de família a xaropar-te por 6 meses seguidos. Quando, finalmente, te ouve dizer que estás com enjoo do doce que tomas às colheres de sopa, envia-te ao hospital da cidade grande com um papelito verde rabiscado. Entras, procuras o guichet, entregas a folha oficialmente verde a alguém e dás por ti dentro do circuito. A roda-viva começa enquanto brotam por todos os teus orifícios pensamentos de mortalha. Dos ouvidos saem as fantasmagorias da morfina, das narinas saem as imagens da tubagem necessária à saúde, segundo a definição da OMS, entenda-se, das órbitas saem os berros de encerrar as pálpebras à realidade que cada sala de espera arrebata. Estes são os nossos rostos, que pesam mais ou pesam menos consoante as calorias que terás ingerido ao pequeno-almoço. Um dia qualquer, percebes que andas a perder o apetite, alguns dias depois reparas que as calças estão largas, tomas o xarope 6 meses antes de ires parar àquele sítio com o papel verde-doença. Um dia qualquer, abalo. O meu argumento incluirá planos de fuga, planos extraordinários que me impedirão de ver estes nossos rostos macilentos. Os únicos rostos que verei serão rosados. Estipularei a eutanásia entre-amigos. O argumento não será auto-suficiente e sei que será sobejamente frágil na sua concepção - assim como nós, quando somos precipitados por arrepios de realidade nas salas de esperar não-ventiladas.


the body breaks, Devendra Banhart